Lula quer controle nacional de terras raras e Flávio quer doá-las a Trump, denuncia dirigente do PCdoB

Mina de Terras Raras (Foto: Revista Minérios e Minerales) e Wadson Ribeiro (Foto: Revista Concreto)

“Com planejamento e indução adequada, o estado de MG pode deixar de ser apenas território de extração para se tornar referência nacional em agregação de valor”, destaca Wadson Ribeiro

O ex-deputado federal, ex- secretário estadual de Desenvolvimento Regional, presidente do PCdoB-MG e assessor da Finep, Wadson Ribeiro nos brinda com este artigo sobre o caráter estratégico da exploração e processamento dos minerais críticos dentro do Brasil. Ele apoia a ideia da criação de uma Agência Nacional de Minerais Estratégicos.

Wadson destaca que o Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do mundo e que o país se vê diante de uma escolha decisiva: repetir o papel histórico de exportador de matéria-prima ou dar um salto rumo à soberania industrial e tecnológica. O autor apoia a estratégia de Lula de que o país assuma o controle de suas riquezas e agregue tecnologia em sua exploração e processamento.

Em contraste com essa estratégia de desenvolvimento soberano, a proposta do senador Flávio Bolsonaro revela uma visão subordinada do Brasil no cenário internacional, diz Wadson, referindo-se a oferta que o candidato fascista fez de entregar toda essa riqueza para Trump. Confira o artigo na íntegra!

Agência de minerais estratégicos é caminho para transformar riqueza em desenvolvimento

WADSON RIBEIRO *

Em meio à corrida global por tecnologias limpas e à disputa geopolítica por recursos críticos, o Brasil se vê diante de uma escolha decisiva: repetir o papel histórico de exportador de matéria-prima ou dar um salto rumo à soberania industrial e tecnológica.

Dono de algumas das maiores reservas de terras raras do planeta, o país tem nas mãos uma oportunidade rara, que só se concretiza com estratégia, coordenação e regulação. É nesse cenário que a criação de uma agência de minerais estratégicos surge como instrumento central para transformar riqueza natural em desenvolvimento econômico, inovação e autonomia nacional.

A consolidação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), criada pelo presidente Lula, já representa um passo importante ao reposicionar o país de mero exportador de commodities para um ator capaz de agregar valor à sua produção. O Brasil reúne condições favoráveis para isso: grandes reservas, matriz elétrica predominantemente renovável, base científica instalada, capacidade industrial ainda subutilizada e um sistema financeiro público capaz de induzir investimentos. O desafio está em articular esses ativos de forma coordenada, garantindo a internalização de etapas como refino, manufatura avançada e desenvolvimento tecnológico — tarefa para a qual uma agência reguladora dedicada seria decisiva.

Mais do que fiscalizar, esse órgão teria o papel de induzir políticas industriais e tecnológicas. Instrumentos como o conteúdo local poderiam ser estruturados e aplicados com maior eficácia, assegurando que a exploração mineral gere empregos qualificados, renda e domínio tecnológico no país. A internalização das cadeias produtivas tende a ampliar significativamente a demanda por engenheiros, técnicos e profissionais de tecnologia, ao mesmo tempo em que estimula programas de formação em parceria com instituições como o Senai e universidades.

Os efeitos também se estenderiam à economia local, com o fortalecimento de pequenas e médias empresas fornecedoras, aumento da arrecadação e maior capacidade de investimento em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Além disso, a redução da dependência externa tornaria o país menos vulnerável a oscilações do mercado internacional, ao mesmo tempo em que o estímulo à pesquisa e desenvolvimento contribuiria para posicionar o Brasil como produtor de inovação, e não apenas como exportador de matéria-prima.

A experiência da indústria de petróleo e gás oferece um paralelo relevante. A política de conteúdo local, aliada à atuação da Petrobrás e aos investimentos em pesquisa, como os realizados no CENPES, foi fundamental para o desenvolvimento de tecnologias de exploração em águas profundas e para a consolidação da soberania energética nacional. Ainda que esse modelo tenha enfrentado desafios e distorções, ele demonstra que a combinação entre regulação, investimento público e política industrial pode transformar recursos naturais em vetor de desenvolvimento tecnológico.

Essa perspectiva dialoga com a reflexão do economista Celso Furtado, que apontava o subdesenvolvimento como resultado de uma inserção subordinada na economia global. Superar essa condição implica ampliar o controle sobre os próprios recursos e promover uma industrialização planejada, orientada por interesses nacionais.

Nesse cenário, Minas Gerais desponta como peça-chave para a consolidação de uma política nacional de minerais estratégicos. Com tradição histórica na mineração, infraestrutura instalada e presença de importantes centros de pesquisa e universidades, o estado reúne condições únicas para liderar a transição do modelo extrativista para uma cadeia produtiva mais sofisticada.

A diversificação mineral, incluindo ocorrências relevantes de terras raras e outros minerais críticos, combinada com sua base industrial e capacidade técnica, coloca Minas em posição privilegiada para abrigar polos de refino, inovação e manufatura avançada. Com planejamento e indução adequada, o estado pode deixar de ser apenas território de extração para se tornar referência nacional em agregação de valor, geração de tecnologia e desenvolvimento regional sustentável.

O Brasil, portanto, se encontra diante de uma escolha estratégica. De um lado, a possibilidade de utilizar seus minerais críticos para construir uma economia mais complexa, tecnológica e autônoma, por meio de parcerias internacionais que privilegiem transferência de tecnologia e agregação de valor.

Em contraste com essa estratégia de desenvolvimento soberano, a proposta do senador Flávio Bolsonaro revela uma visão subordinada do Brasil no cenário internacional. Ao oferecer, na Conservative Political Action Conference (CPAC), o subsolo nacional como suporte a interesses estratégicos dos Estados Unidos, o parlamentar reforça um modelo primário-exportador, centrado na extração de recursos brutos. Essa lógica aprofunda a dependência externa, fragiliza a soberania e limita a construção de uma base industrial e tecnológica própria.

A criação de uma agência reguladora para o setor de minerais críticos e estratégicos sintetiza essa encruzilhada. Trata-se de um instrumento capaz de garantir que a riqueza mineral do país seja convertida em desenvolvimento econômico, tecnológico e social, fortalecendo a soberania nacional e assegurando que os benefícios dessa nova fronteira energética alcancem a população brasileira.

* Presidente do PCdoB-MG e assessor da Finep. Foi presidente da UNE, deputado federal e secretário estadual de Desenvolvimento Regional

Publicado originalmente em Concreto

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