A carne de burro, que não era consumida pelos argentinos, se tornou uma opção de alimento em meio à crise econômica do país que tem afetado fortemente a população e, também, a produção de bovinos. Inclusive, sua venda foi liberada pelo Ministério da Produção de Chubut, órgão governamental da província de Chubut, na Patagônia argentina. A prática segue normas sanitárias importantes.
Os preços subiram tanto que a carne bovina que era parte da rotina alimentar do país se tornou um produto inacessível para milhões de pessoas. Só no último mês, os preços subiram mais de 10% nos açougues, e um quilo de um corte médio pode ultrapassar os 91 reais (25.000 pesos).
Nesse contexto, surgiu a proposta de comercializar carne de burro, vendida por cerca de 27 reais o quilo (7.500 pesos).
Gonzalo Moreira, dono de um açougue em Buenos Aires, explicou à Rádio 750 como esse processo se desenrolou e por que, numa primeira instancia, ele é a favor do abate e da venda desse animal, que até então não era consumido no país. “Se for para suprir as necessidades diárias, não estou dizendo que seja a melhor opção… Mas há pessoas que podem pelo menos comprar esse tipo de alimento”, afirmou.
O POVO TODO ENFRENTA DIFICULDADES
“Estamos passando por uma recessão significativa. Não conheço ninguém, mesmo nenhum empresário que não esteja enfrentando dificuldades. O setor foi duramente atingido, mesmo sem uma grande oscilação de preços. Tudo é pago com cartão; as pessoas estão simplesmente adiando”, disse ele a Tomás Méndez no programa “Mejor que mañana” (Melhor que Amanhã).
Ele acrescentou: “E as pessoas também estão começando a parcelar as compras de comida. Estamos reestruturando nossas vendas. As pessoas trocaram a carne bovina, que teve uma queda de 20% nas vendas, por carne suína ou de frango. Um quilo de carne bovina custa entre 15.000 e 18.000 pesos. E o de carne suína, entre 8.000 e 9.000 pesos.”
Agora, para minorar o problema, surgiu a ideia de vender “burros patagônicos”, com a carne sendo vendida por 7.500 pesos.
A crise econômica se insere em um contexto mais amplo de inflação persistente. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrou alta de 3,4% em março, acima dos 2,9% de fevereiro, marcando o maior nível em um ano. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 32,6%.
Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, Javier Milei paralisou obras federais, suspendeu repasses para as províncias, retirou subsídios em áreas como transporte, energia, e serviços essenciais, medidas que agravaram a inflação.
A iniciativa partiu do produtor rural Julio Cittadini, criador do projeto “Burros Patagones”. Segundo ele, a procura superou as expectativas. “O que colocamos à venda acabou em um dia. Em um dia e meio não restou nada”, relatou.
QUADRO É DE ENTREGA TOTAL
Nesse quadro de entrega da economia argentina, Milei assinou no mês de fevereiro passado um acordo com o governo de Trump no qual a Argentina assume 113 obrigações, das quais apenas 8 são mútuas e 2 são de responsabilidade exclusiva dos EUA”, denunciou o jornal Página 12. O tratado estabelece quotas anuais para alimentos e outros bens produzidos nos Estados Unidos que entrarão no país sem o pagamento de tarifas, tais como: 80.000 toneladas de carne; 1000 toneladas de queijo; 870 toneladas de amêndoas; 80 toneladas de pistache; 1100 toneladas de batatas; 80.000 litros de vinho e 10.000 veículos.
Máquinas agrícolas e de construção rodoviária, como colheitadeiras e tratores, terão entrada permitida sem impostos, mas não haverá cota nesse caso . O mesmo se aplica a produtos químicos, como herbicidas, e suprimentos médicos, como mesas cirúrgicas e camas hospitalares.
Com mais de 21.000 empresas fechadas nos últimos dois anos e a perda de cerca de 300.000 postos de trabalho, os argentinos têm se manifestado diversas vezes contra o pacote neoliberal enfaticamente intitulado “Lei de Modernização do Trabalho” aprovado em fevereiro passado.
O esbulho determina a possibilidade do pagamento do salário em qualquer moeda – ou até mesmo em “espécie, habitação ou alimentos”; amplia a jornada de trabalho de oito para até 12 horas diárias; cria o “banco de horas” – substituindo o pagamento de horas extras por compensações futuras; fragmenta o período de férias; reduz as indenizações por demissão, que passam a ser calculadas apenas sobre o salário básico, excluindo itens como 13º, férias e adicionais; acaba com o direito à greve para a maioria dos servidores públicos e amplia de três para oito meses o período de experiência – e de direitos mínimos – da maior parte dos trabalhadores – chegando a até um ano.











