Dezenas de barcos foram explodidos no Caribe pela Marinha dos EUA, denuncia deputado equatoriano

Fernando Cedeño, advogado da República e deputado da Revolução Cidadã (RC)

“Drones e mísseis contra a soberania dos nossos países são a nova Doutrina Monroe 2.0”, denuncia o parlamentar Fernando Cedeño, da Revolução Cidadã, para quem “as forças progressistas têm que estar unidas no continente e no mundo frente ao trumpismo”

Em entrevista exclusiva ao Hora do Povo, o deputado do Equador, Fernando Cedeño, denuncia o “desaparecimento” de dezenas de embarcações no Pacífico e no Caribe, “explodidas por drones e mísseis da Marinha norte-americana” por determinação de Trump. Condenando a vassalagem do governo de Daniel Noboa aos EUA, o parlamentar da Revolução Cidadã afirma que é inaceitável que, “sob a alegação de combate às drogas”, pessoas inocentes continuem sendo assassinadas.

O caso dos pescadores equatorianos da embarcação Don Macas, que conseguiram sobreviver após terem o barco bombardeado e incendiado próximo às Ilhas Galápagos, expõe a política de terrorismo de Estado e a impunidade a que estamos sendo submetidos, esclareceu Cedeño, já que não foi encontrada uma única grama de droga.

O líder  oposicionista também condenou a tortura praticada pelos militares estadunidenses, que “capturaram a tripulação, e a mantiveram presa, encapuzada e sob ameaças, sem atendimento médico, e a levaram para El Salvador”. Entre outras atrocidades praticadas, relatou, o pescador Erick Fabricio Collo Saltos, de 27 anos, perdeu um dos olhos e teve completamente comprometida sua audição. Exemplos como esse, enfatizou, demonstram a necessidade das “forças progressistas estarem unidas no continente e no mundo frente ao trumpismo e a Nova Doutrina Monroe 2.0”.

LEONARDO WEXELL SEVERO

Leonardo Severo Oficialmente, mais de 180 pessoas foram mortas desde setembro do ano passado no Caribe e no Pacífico pela Marinha dos Estados Unidos a pretexto de serem “narcotraficantes”, sem que tenha sido apresentada qualquer prova

Deputado Cedeño – Antes de mais nada sou da província de Manabi, província (estado) costeira no noroeste do Equador, com capital em Portoviejo e banhada pelo Oceano Pacífico. Moro a menos de 30 quilômetros do porto de Manta, tenso sido eleito parlamentar por este distrito. Sabíamos do desaparecimento de vários navios, especificamente do Don Macas, em 26 de março e do Negra Francisca Duarte II, em 2 de março, porque os parentes comunicaram, mas que o governo nada havia feito para ajudá-los.

Em vez disso, os tripulantes dessas duas embarcações foram repatriados para o Equador sem nenhuma providência. Ali pudemos aprender com os testemunhos das pessoas, tanto do Don Macas, composto por cerca de 18 ou 20 tripulantes – relatado pelo jornal britânico The Guadian -, quanto do Negra Francisca, de 16 tripulantes, que haviam sido abordados pela Marinha norte-americana.

No caso do Negra Francisca é mais grave porque os tripulantes foram atacados com drones e mísseis no dia 17 ou 18 de março e tiveram a embarcação destruída por quem chamaram de “gringos”. Os deixam à deriva por cerca de oito dias, eles naufragaram e foram resgatados pela Guarda Costeira de El Salvador, levados para abrigos e posteriormente repatriados para o Equador sem qualquer causa que justificasse. Supostamente tudo isso está enquadrado na guerra contra o narcotráfico que os Estados Unidos realizam nesta parte do hemisfério sul das Américas, e isso não é um fato aleatório, é orquestrado, planejado, que vem de décadas anteriores.

L S – Manta tem um valor simbólico como resgate da soberania nacional, pois ali havia uma base militar dos EUA

Exatamente. Na cidade de Manta, no seu porto, operou uma base militar norte-americana por dez anos, até que em 2008 o Equador não renovou o acordo. Na época, o presidente Rafael Correa (2007-2017) disse que renovaria o contrato, desde que os EUA permitissem ter uma base militar do Equador na Flórida. Mas como isso não ocorreu, precisou ser desativada.

Durante o tempo que a base existiu em Manta, conhecida como Posto Avançado de Operações (Forward Operating Location – FOL), também houve ao longo da década vários navios que desapareceram, pois – anterior ao governo de Rafael Correa – passamos por uma profunda crise, que causou o grande êxodo de equatorianos, expulsos pelas condições de pobreza. Migrantes que  partiram em barcos de pesca para a América Central, a caminho dos EUA. Esta foi a justificativa para o desaparecimento. Eles foram abordados e destruídos, cerca de 40 barcos. E várias embarcações continuam sumindo, sobre os quais nada se sabe, mas presume-se que tenham sido destruídas pela Marinha norte-americana.

L S As explosões de embarcações e assassinatos continuam por parte do governo dos EUA, de forma impune.

D C -Claro que sim. É isso o que está acontecendo agora com o navio Fiorella, em janeiro de 2026. Eles zarparam em 11 de janeiro do porto de Jaramijó (cantão e cidade costeira da província de Manabí). Há três portos muito próximos uns dos outros: o de San Mateo, o de Manta, que possui uma infraestrutura maior, e o de Jaramijó. Em menos de 10 quilômetros estão essas enseadas de pesca, de onde a tripulação embarca por ser nativa dessas localidades. No caso do Fiorella, a tripulação era composta por 10 membros, dos quais dois conseguiram sobreviver por estarem em um barco pequeno, longe do navio-mãe. Os dois conseguiram ver de longe como a embarcação Fiorella é destruída, enxergaram os sinais de fumaça ao longe, mas não se atreveram a se aproximar por medo. Por isso sobreviveram. Os oito que estavam a bordo do navio-mãe estão perdidos, desaparecidos.

Este é um assunto sério e, na minha qualidade de legislador, propus uma alteração à agenda na Assembleia Nacional, para ser debatido. No entanto, alegando qualquer razão, para proteger o executivo, o presidente do parlamento impediu o debate, obstrundo qualquer supervisão. Estou ciente disso e em conversas com as famílias, ouvindo os seus testemunhos, tenho exposto como as informações estão sendo minadas. Acredito que a reportagem do jornal britânico The Guardian reflete com precisão os testemunhos dos pescadores.

LSO The Guardian traz depoimentos contundentes.

D C – Um dos sobreviventes,  Erick Fabricio Coello Saltos, pescador de 27 anos, perdeu um olho e ficou com sérios problemas de audição (o tímpano esquerdo foi perfurado e o direito perdido). Os depoimentos da tripulação relatam que foram vítimas de agressão, e o pior é que não recebem atendimento médico; são capturados, encapuzados e torturados, forçados, que lhes extraem informações sem receber qualquer assistência. Foi somente em El Salvador que recebem uma assistência muito precária de organizações humanitárias e da própria República Salvadorenha.

Isso, como sabes, se insere na “luta contra o narcotráfico”. Não se trata de um problema isolado; o mesmo aconteceu no Caribe desde o final de 2025, com o primeiro incidente de afundamento de pequenas embarcações pesqueiras. Essas lanchas, cujas imagens pudemos ver, porque o governo dos próprios Estados Unidos divulgou sem nenhuma vergonha, foram destruídas sem qualquer pudor. Na prática nada mais são do que execuções extrajudiciais, neste caso, pela Marinha e pela Força Aérea dos EUA. Isso faz parte da política da nova Doutrina Monroe 2.0. 

L S Por meio de um referendo, em novembro do ano passado, 61% do eleitorado votou contra a presença de bases estrangeiras e 62% pela manutenção da Constituição, mantendo o princípio da soberania nacional. A conduta de Noboa vai na contramão. O que fazer?

D C – A conduta de Noboa não é só uma afronta, como viola a Constituição, criada como um grande pacto e acordo social no Equador trabalhado na Assembleia Constituinte precisamente na província de Manabi, em Montecristi, que fica a cerca de 20 quilômetros de Portoviejo. Eu moro nesta cidade, capital da província. Depois de Portoviejo vem Montecristi, que fica a cerca de 20 quilômetros de distância e depois Manta, que é o porto. Montecristi é o berço de Eloy Alfaro, que foi o presidente liberal que tivemos em 1895 no Equador, que realizou uma importante transformação, promovendo a educação laica e construindo projetos de infraestrutura relevantes, como o da linha férrea que conectou a serra com o litoral (Quito-Guayaquil). Alfaro é de Manabi, eu sou de Manabí, e isso nos enche de orgulho.

O governo, na sua ânsia de se subordinar, numa posição de mera vassalagem que condenamos, submete-se aos EUA, com o Equador deixando de ter sua própria política externa. Nosso corpo diplomático, os funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores, sempre tiveram uma posição de apoio às causas que consideramos justas, em favor da paz e da não violência. Sempre votamos pela cessação das hostilidades e pelo fim do bloqueio a Cuba.

Eu fazia parte do grupo parlamentar de amizade a Cuba e teve um dia em que o embaixador Basilio Gutiérrez foi informado, cedo pela manhã, de uma reunião de trabalho. Ali soube que teria de partir do país em 48 horas, sem qualquer motivo, causa ou justificativa, porque nosso governo havia rompido relações diplomáticas.

Da mesma forma, nós que sempre apoiamos a causa do povo palestino temos ultimamente votado, como a Argentina, a favor da política externa de Israel, algo que nos preocupa.

Também temos um conflito que é uma guerra comercial com a Colômbia, nosso país vizinho, em que o governo não negocia. Esse cara – e eu chamo assim a Daniel Noboa – resolveu imitar Trump e um dia veio ao Equador – porque ele passa muito tempo fora – e disse: “Vamos aumentar as tarifas em 30% sobre todos os produtos importados da Colômbia”. O problema, que é uma questão comercial, vem se agravando. Então ele decidiu que deveríamos aumentar as tarifas em 100% porque diz que “a Colômbia não está cooperando na luta contra o crime organizado”, sem reconhecer que o problema é nosso, que somos nós o país onde os índices de violência são muito altos. Que em 2025, terminamos o ano com 9.500 mortes violentas, um absurdo se compararmos a nossa população, de aproximadamente 18 milhões de habitantes. Não reconhece que os níveis de insegurança chegaram neste ponto porque os governos neoliberais negligenciaram o Estado, abandonando as políticas públicas estratégicas, particularmente em saúde e educação.

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