Para o ex-chefe do serviço secreto israelense a agressão dos assaltantes de terras aos palestinos – que têm o aporte do regime de Netanyahu – se configuram como “ameaça à existência do Estado de Israel”
Em uma visita a aldeias palestinas na Cisjordânia, o ex-chefe do Mossad (serviço secreto de Israel), Tamir Pardo, se encontrou com palestinos atingidos pelos pogroms realizados cotidianamente por colonos judeus na região e se disse envergonhado de tamanha e inaceitável agressão. Na visita, Pardo foi acompanhado de outros oficiais do exército israelense à qual se seguiu entrevista apresentada pela TV israelense Canal 13 News.
Dada a importância da matéria produzida pelo jornalista Bem Kroll para o jornal Haaretz, nesta terça-feira (28), a partir da entrevista concedida por Tamir Pardo, a reproduzimos
O ex-chefe do Mossad estava acompanhado por outros ex-oficiais de alta patente das Forças de Defesa de Israel em uma visita a aldeias palestinas invadidas por colonos israelenses. “O que eu vi foi a ameaça existencial contra Israel”, disse Pardo.
Tamir Pardo, disse sentir “vergonha de ser judeu” após visitar comunidades palestinas na Cisjordânia que têm sofrido repetidos ataques de colonos israelenses, alertando que a atual política israelense na região está “plantando as sementes para o próximo 7 de outubro [quando a Resistência palestina atacou de surpresa diversas aldeias israelenses na fronteira de Gaza”.
“O que estamos vendo hoje na Cisjordânia será o próximo 7 de outubro”, disse Pardo ao Canal 13 de Notícias, que acompanhou Pardo e seu grupo em sua excursão pela Cisjordânia. “Acontecerá de uma forma diferente e poderá ser muito mais doloroso, porque a situação na Cisjordânia é mais complexa.”
“Minha mãe é uma sobrevivente do Holocausto”, acrescentou Pardo. “O que vi aqui hoje me lembrou eventos que aconteceram no século passado em um país muito desenvolvido – os mesmos fenômenos direcionados contra os judeus. E sinto vergonha de ser judeu aqui hoje.”
Pardo foi escolhido para liderar o Mossad pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em 2011 e permaneceu no cargo até 2016. A visita foi liderada pelo major-general (da reserva) Yaakov Or, ex-chefe do órgão militar israelense responsável por assuntos civis na Cisjordânia. Também participaram Matan Vilnai, ex-vice-chefe do Estado-Maior, e Amram Mitzna, ex-major-general das Forças de Defesa de Israel que comandou o Comando Central.
O general Or levou o grupo a várias aldeias palestinas que foram invadidas por colonos judeus, incluindo Hamra, onde uma família local contou ao grupo que seus filhos não vão mais à escola por medo de serem atacados por colonos no caminho.

“Existe uma enorme discrepância entre o que está acontecendo na prática e o que o público sabe”, disse Or. “As pessoas estão suprimindo a informação. Elas não querem saber.”
Em conversa com moradores palestinos, Mitzna disse: “Quando viemos aqui e ouvimos vocês, ficamos realmente envergonhados”. Ele alertou que os grupos armados de colonos poderiam eventualmente se voltar contra o próprio Estado de Israel e desafiá-lo.
“Essas gangues, não podemos chamá-las de outra coisa, [eventualmente] se voltarão contra nós. No dia em que um governo seguir o estado de direito e tentar prendê-las, removê-las daqui ou desmantelar seus postos avançados, elas usarão suas armas.”
Vilnai disse que a visita o deixou perturbado com o que descreveu como uma erosão mais ampla dentro do exército. “O que realmente me dói é que as normas do exército mudaram drasticamente. Mentir se tornou a norma”, acusou.
Em relação aos colonos, Vilnai disse que eles não são “um bando de malandros que decidem as coisas por conta própria. Tudo vem de cima, de forma muito clara, com o primeiro-ministro no topo da hierarquia”.
Questionado se ainda confiava nas forças de segurança israelenses para enfrentar a violência de extremistas judeus na Cisjordânia, Pardo disse que as autoridades entendiam o que estava acontecendo, mas optaram por não agir.
Apesar disso, Pardo afirma que a situação pode ser resolvida “se quisermos”, mas alerta que “haverá um preço muito alto” a pagar. “É melhor não chegarmos a esse ponto. O que vi hoje [na Cisjordânia] é a ameaça existencial contra Israel.”
O número de incidentes de crimes supremacistas cometidos por judeus contra palestinos na Cisjordânia aumentou de forma contínua e acentuada desde 7 de outubro de 2023, com um total de 1.720 incidentes registrados nesse período, de acordo com dados do Ministério da Defesa israelense divulgados em janeiro.
No mês passado, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), Eyal Zamir, afirmou que os incidentes de violência por parte dos colonos “causam danos estratégicos extraordinários” às operações da IDF, mas insistiu que são causados por uma minoria que não representa a população de colonos.










