Homenagens a Raimundo Pereira ressaltam sua trajetória na luta contra a ditadura

Foto: Reprodução/Memória da Resistência

Um dos mais importantes jornalistas da imprensa progressista e no combate à ditadura, Raimundo Pereira faleceu na manhã de sábado (2), aos 85 anos. Físico de formação, Raimundo Pereira escolheu trilhar o jornalismo, dando enorme contribuição à luta de resistência do povo brasileiro.

Em nota de pesar, a Comissão Executiva Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) enaltece a figura do “amigo histórico do partido”, “uma personalidade progressista com imensas contribuições à causa democrática, patriótica e popular” e faz um levantamento da sua extensa biografia no jornalismo de esquerda.

“Foi editor do semanário Opinião, jornal de resistência democrática, e liderou o Movimento, ligado a intelectuais progressistas, também combativo veículo contra a ditadura, denunciando os crimes do regime, dando voz a personalidades e a setores democráticos, como o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, Miguel Arrais e Leonel Brizola, e da esquerda marxista, entre eles João Amazonas e Renato Rabelo, dirigentes do PCdoB exilados na França”, afirma a nota do partido.

Nas redes, a presidente em exercício do PCdoB, Nádia Campeão, lamentou a morte do jornalista: “Faleceu nosso grande companheiro Raimundo Pereira, o homem valente, intrépido jornalista que nos ensinava a combater sem destemor a ditadura militar, a defender a democracia e a soberania do Brasil. Um homem de fibra, coerente e revolucionário nas suas ideias e práticas. Nosso profundo agradecimento por sua vida, seu exemplo e seu combate”.

Além de ser fundador do Jornal Movimento, que foi vanguardista como imprensa independente na luta pela democracia, Raimundo Pereira fez parte da equipe que fundou a revista Veja, lançou, em 1985, os cadernos Retrato do Brasil, que traziam em suas páginas o que foi a ditadura militar, “compilando suas mazelas, como a entrega do país, a corrupção, o aprofundamento da desigualdade social e o endividamento externo descontrolado”.

Na década de 90 lançou a revista Reportagem, “posto de combate à política neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso”, como descreve a nota do PCdoB, e “colaborou com revistas progressistas, como CartaCapital e Caros Amigos, e foi ativo participante de publicações ligadas ao PCdoB, como a revista Princípios e o jornal A Classe Operária. Participou de outras atividades do Partido, inclusive campanhas eleitorais de candidatos comunistas”.

“Neste momento de dor, os comunistas abraçam familiares e amigos e registram sua gratidão pela contribuição inestimável de Raimundo Pereira para a luta democrática, patriótica e revolucionária, sobretudo no campo da disputa ideológica, valoroso legado para as gerações atuais e futuras, na busca de um mundo com justiça social”, finaliza a nota.

Sobre o surgimento do Jornal o Movimento, o jornalista Carlos Azevedo, que integra o Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, conta: “Em 1975, [Raimundo Pereira] realizou a façanha de criar um jornal autofinanciado, apoiado em cotas de jornalistas e intelectuais, produzido por uma grande equipe de jornalistas engajados na luta contra a ditadura, o Movimento, que já nasceu grande e submetido à censura desde a primeira edição. Esse jornal teve papel destacado na construção da frente pela democratização, defendeu desde o início a exigência de uma anistia ampla, geral e irrestrita. E, mais que isso, lançou a proposta de realização de uma Assembleia Nacional Constituinte que iria se realizar em 1987-1988, base da democratização da nossa sociedade”.

Pernambucano da cidade de Exu, assim como o grande Luiz Gonzaga, Raimundo Rodrigues Pereira foi ainda criança para o interior de São Paulo com os pais. Em São Paulo, no último ano de Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em 1964, foi detido e levado ao Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, em São Paulo. A prisão pela ditadura, em suas próprias palavras, “mudou o rumo de sua vida”. A partir daí dedicou-se à trajetória de um jornalismo crítico, combativo, e em defesa da democracia, segundo ele, voltado à “elevação do padrão material e cultural do povo”.

“Mesmo tendo sido perseguido e preso pela ditadura militar, nunca deixou de lutar pela democracia e pela liberdade de imprensa. E, o que é mais importante: nunca se calou”, afirmou o presidente Lula, lamentando a morte do jornalista.

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