Linha auxiliar do bolsonarismo, Zema ataca Bolsa Família, aposentadorias e quer “privatizar tudo”

Foto: Reprodução/TV Band

Ex-governador de Minas testa propostas impopulares para pavimentar caminho de Flávio Rachadinha, que parece “moderado” perto do ultraliberal

O pré-candidato ao Palácio do Planalto Romeu Zema (Novo) intensificou nas últimas semanas um discurso ultraliberal e de forte aceno ao bolsonarismo ao atacar o Bolsa Família, defender o aumento do tempo de contribuição para aposentadoria, prometer a privatização de todas as estatais federais e até relativizar o trabalho infantil.

O ex-governador mineiro passou a assumir posições cada vez mais radicais em temas sociais e econômicos e atua como linha auxiliar do bolsonarismo, fazendo com que o real candidato, Flávio Bolsonaro, passe a imagem de “moderado”.

Durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, Zema afirmou que pretende rever o Bolsa Família para evitar uma “geração de imprestáveis” e atacou beneficiários do programa social. “Bolsa Família e programas sociais são importantíssimos. Nós vamos manter para quem precisa. Sabemos que tem muita fraude, que eu vou combater. E também não vou pagar auxílio do governo, Bolsa Família, para os marmanjões, que é o que mais está crescendo no Brasil. Nós estamos criando uma geração de imprestáveis”, declarou.

Na mesma entrevista, o herdeiro do grupo Zema, que é acusado de quebrar as finanças de Minas Gerais, disse que existem vagas de emprego disponíveis, mas que beneficiários preferem permanecer em casa recebendo auxílio do governo. “Há vagas com carteira assinada, e marmanjão fica em casa, nas redes sociais, na Netflix, e prefere receber o auxílio governamental, não estuda, não trabalha, vive às custas do governo, e de vez em quando, faz um bico para complementar a renda”, afirmou.

Zema ainda indicou que, em um eventual governo, beneficiários poderiam perder o programa caso recusassem ofertas de emprego. Segundo ele, os inscritos receberiam uma lista de propostas e só poderiam rejeitar uma delas. O ex-governador também criticou o que chamou de “incentivo à informalidade” e afirmou que o modelo atual estimularia a perpetuação da pobreza entre gerações.

“Hoje nós temos um incentivo a essa informalidade, à perpetuação desta situação, em que o pai já viveu assim e o filho está aprendendo a viver. Ele ganha com os bicos mais R$ 1.000, não tem nenhum compromisso com horário e aprendizado. Daqui a 10 ou 15 anos, ele continuará totalmente desqualificado como está hoje”, disse.

A ofensiva do político do Novo também avançou sobre a Previdência. Zema afirmou que defenderá uma nova reforma previdenciária caso seja eleito presidente, com aumento do tempo de contribuição e sem reajustes reais para aposentados e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Para ele, o atual modelo é “insustentável”.

“Vamos precisar aumentar o tempo de contribuição, isso é fundamental. Mas não podemos dar ganhos reais, de forma alguma. Ganhos reais para quem está aposentado é algo que o Brasil não comporta”, afirmou.

Ele também declarou que o aumento da expectativa de vida justificaria novas mudanças nas regras de aposentadoria. “Temos que agradecer a Deus. Viver três anos a mais e ter que trabalhar mais seis meses é uma benção até”, disse em entrevista ao portal UOL.

Questionado sobre a possibilidade de elevar também a idade mínima para aposentadoria, Zema não descartou mudanças. “Seis meses a mais nos próximos cinco anos, alguma coisa assim”, afirmou.

Atualmente, homens precisam ter ao menos 65 anos de idade e 20 anos de contribuição para se aposentar, enquanto mulheres precisam ter 62 anos e 15 anos de contribuição. Existe ainda uma regra de transição mais branda para trabalhadores que já contribuíam antes da reforma previdenciária aprovada em 2019, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

PRIVATIZAR TUDO

A promessa de “privatizar tudo” representa uma ofensiva direta contra o patrimônio público nacional e contra a capacidade do Estado de atuar em áreas estratégicas da economia. Ao defender a venda de estatais como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Correios, Serpro, Dataprev, Telebras, Casa da Moeda, Embrapa, ENBPar e Eletronuclear, Zema coloca na mira empresas responsáveis por crédito habitacional, financiamento agrícola, desenvolvimento industrial, pesquisa, tecnologia, soberania energética e integração nacional.

As experiências anteriores no Brasil resultaram em aumento de tarifas, precarização de serviços, perda de capacidade de planejamento do Estado e transferência de setores lucrativos para grandes grupos privados. E, no caso das empresas públicas federais, o impacto ultrapassa a questão econômica. A venda de estruturas estratégicas reduz o poder do Estado de induzir crescimento, proteger setores essenciais e responder a crises. Banco público, estatal de energia e empresa de tecnologia não funcionam apenas como fonte de arrecadação: são instrumentos de soberania e política pública.

Mesmo assim, Zema afirmou que pretende vender todas as empresas controladas pela União. “Se eleito vou privatizar tudo. Isso vai provocar uma queda de juros muito rápida porque virá junto de uma reforma administrativa, uma reforma previdenciária, revisão de benefícios sociais”, declarou.

Hoje, a União mantém controle de empresas estratégicas em áreas como energia, bancos, logística, tecnologia e serviços. Apesar da promessa, Zema não detalhou quais empresas pretende vender primeiro nem explicou quais mudanças seriam feitas nas carreiras do funcionalismo ou nos programas sociais que seriam revisados.

O argumento de Zema de que “privatizar tudo” provocaria queda rápida dos juros não se sustenta como relação automática. A taxa básica de juros no Brasil é definida pelo Banco Central a partir de fatores como inflação, expectativas do mercado, política monetária, câmbio, atividade econômica e disputa em torno da dívida pública. É uma decisão política. A venda de estatais pode gerar uma receita pontual para o caixa do governo, mas não altera, por si só, a estrutura que mantém o país preso a juros elevados.

Privatizar estatais não resolve o problema central: o peso permanente da política de juros sobre o orçamento público. Estudos sobre privatizações no Brasil apontam que seus efeitos fiscais tendem a ser temporários, porque a venda de patrimônio público gera entrada de dinheiro uma única vez, enquanto o Estado perde instrumentos permanentes de planejamento, investimento, crédito, tecnologia e soberania.

Além disso, empresas públicas lucrativas podem gerar dividendos, financiar políticas estratégicas e atuar onde o setor privado não tem interesse por não enxergar lucro imediato. Privatizá-las significa trocar uma fonte contínua de capacidade estatal por uma receita imediata, que pode até ser usada para reduzir dívida no curto prazo, mas não enfrenta a engrenagem financeira que empurra o país a pagar centenas de bilhões em juros todos os anos.

TRABALHO INFANTIL

As declarações ocorreram poucos dias depois de Zema causar nova polêmica ao defender que crianças poderiam ajudar em “trabalhos mais simples”. Após a repercussão negativa, o pré-candidato passou a dizer que se referia a adolescentes e afirmou que críticos deveriam “parar com a hipocrisia”.

“Educação e trabalho digno são o que formam caráter, disciplina e futuro. No Brasil, isso já é permitido a partir dos 14 anos como aprendiz, mas precisamos ampliar essas oportunidades com proteção, sem atrapalhar a escola, como já acontece em muitos países desenvolvidos. Agora, vamos falar a realidade aqui: milhões de jovens já trabalham hoje na informalidade, sem regra e nenhuma proteção”, disse.

Na entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Zema havia afirmado que “a esquerda criou essa noção de que trabalhar prejudica a criança” e citou como exemplo crianças nos Estados Unidos entregando jornais para receber dinheiro. “Mas tenho certeza que nós vamos mudar isso aí”, declarou.

A Constituição Federal estabelece 16 anos como idade mínima para o trabalho no Brasil. A exceção ocorre nos contratos de aprendizagem, permitidos a partir dos 14 anos, desde que o adolescente esteja matriculado na escola, tenha jornada reduzida e atue em atividades compatíveis com formação profissional.

Zema cumpre o papel de boi de piranha do bolsonarismo em 2026: entra na frente com as propostas mais impopulares, testa o limite do eleitorado e normaliza ataques a programas sociais, aposentadorias e empresas públicas. Com isso, ajuda Flávio Bolsonaro a parecer menos radical sem que o bolsonarismo precise abandonar sua agenda de retirada de direitos, privatizações e enfraquecimento do Estado.

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