Com ouvintes, artistas, trabalhadores da emissora, entidades sindicais e parlamentares mobilizados, cresce em São Paulo a resistência contra o fechamento da Rádio Eldorado, emissora do Grupo O Estado de S. Paulo, previsto para o próximo dia 15 de maio. Sob o mote “Fica Eldorado!”, manifestações vêm reunindo centenas de pessoas nas ruas e nas redes sociais em defesa da rádio, que há quase 70 anos se consolidou como referência cultural, musical e jornalística no País.
No último domingo, um ato realizado na Avenida Paulista reuniu ouvintes, jornalistas, radialistas, músicos e defensores da cultura paulista. Faixas, cartazes e palavras de ordem marcaram a manifestação contra o encerramento das atividades da emissora e as cerca de 60 demissões previstas entre funcionários, técnicos e produtores.
Presente ao protesto, o vereador paulistano Nabil Bonduki (PT), ouvinte da emissora e conhecido pela atuação em defesa da cultura na capital paulista, destacou a importância histórica e cultural da rádio.
Segundo Bonduki, é preciso defender “a memória, a qualidade musical e a liberdade de expressão” representadas pela Eldorado. O vereador também declarou apoio à continuidade da emissora e sugeriu a construção de um modelo de gestão comunitária e sem fins lucrativos para preservar a rádio.
A organizadora do protesto, a artista Nina Vogel, responsável por criar um abaixo-assinado na plataforma Change.org, afirmou que a repercussão da campanha vem crescendo rapidamente nas redes.
“A rádio dos melhores ouvintes é nossa, é um bem imaterial brasileiro”, declarou. “Enquanto cidadã, não posso aceitar o desmonte de instituições culturais fundantes. A Eldorado formou ouvintes, é uma questão pedagógica.”
Além da petição organizada por Nina Vogel, outras campanhas virtuais foram criadas com o mesmo objetivo. Juntas, já somam quase 15 mil assinaturas em defesa da permanência da emissora.
O movimento ganhou força após o anúncio oficial do Grupo Estado, que justificou o fechamento alegando mudanças nos hábitos de consumo de áudio, especialmente com o avanço das plataformas de streaming, além de um “reposicionamento estratégico” voltado ao ambiente digital.
A argumentação, porém, vem sendo contestada por profissionais da própria emissora, ouvintes e representantes sindicais, que afirmam que o rádio segue plenamente capaz de se adaptar às novas tecnologias e de ocupar espaço relevante na comunicação digital.
Outro ponto criticado pelos trabalhadores é a destinação da frequência por onde era transmitida a programação da Eldorado. O contrato mantido entre o Grupo Estado e a Brasil 2000, responsável pela operação da frequência, está sendo encerrado, e o canal passará a ser utilizado pelo Grupo Bandeirantes.
Durante a cerimônia de entrega do 41º Prêmio APCA conquistado pela Rádio Eldorado – possivelmente o último da história da emissora – o jornalista Haisem Abaki, apresentador do Jornal Eldorado há 15 anos, rebateu diretamente a justificativa do Grupo Estado.
“De maneira muito construtiva, eu tenho dito lá que a alegação para fechar a Rádio Eldorado é uma contradição, porque a alegação é de que é preciso fazer uma transição digital, nenhum veículo mais capaz de fazer uma transição digital do que o rádio”, declarou. Abaki afirmou ainda que o fechamento representa um desperdício da identidade cultural construída pela emissora ao longo de décadas.
“Não utilizar uma rádio como a Rádio Eldorado, que tem identidade, que dá espaço para todas essas artes que estão aqui representadas, para fazer a transformação digital, para mim é um negacionismo digital.” O jornalista também fez um apelo para que o Grupo Estado reveja a decisão ou busque alternativas para manter a rádio funcionando.
Após o anúncio do fechamento, os sindicatos dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e dos Radialistas passaram a negociar com o Grupo Estado alternativas para reduzir os impactos das demissões em massa. Entre as propostas apresentadas pelas entidades está a realocação dos trabalhadores em outros setores e veículos do grupo empresarial, além do pagamento de indenizações complementares às verbas rescisórias.
“O Grupo Estado apresentou uma proposta vergonhosa que não pode nem ser divulgada pois é um negócio tão ridículo. Informaram hoje (ontem, 06/05) que seis – é um total de 22: 14 radialistas e oito jornalistas – seis jornalistas e dois radialistas eles vão conseguir absorver em outros setores. Nós seguimos negociando”, informou Sérgio Ipoldo Guimarães, diretor-coordenador do Sindicatos dos Radialistas.
O sindicalista acrescentou que as entidades aguardam a formalização do desligamento dos profissionais para chamar uma assembleia a fim definir os próximos passos da luta.











