A vergonha em cartaz


DAVI MOLINARI

O Fale Mais Sobre Isso estava coalhado de estudantes de audiovisual. Da porta ao balcão, gente com crachá no pescoço, câmera na mão, roteiro debaixo do braço e aquela cara de quem descobriu que enquadramento também é militância.

Vieram para a Conferência Nacional de Cinema. Numa brecha entre financiamento público e estética decolonial em plano-sequência, invadiram o boteco mais famoso da cidade.

Eu adorava aquela atmosfera. Jovens inteligentes discutiam como transformar sentimento em cena, trauma em montagem, silêncio em close, culpa em contraluz e vergonha em expressão corporal. Um bando tentando filmar o invisível num país onde o visível já é escandaloso o suficiente.

Juvenal estava encantado.

– Os cineastas do futuro estão todos aqui – disse ele, pousando duas tulipas cremosas e uma porção de manjubinhas na mesa.

O doutor observava com seu olhar de esfinge freudiana, piscando devagar enquanto o enxame de videomakers tomava o bar como extensão etílica da Cinemateca.

– Depois das redes sociais, Juvenal, todo mundo tem um canal. Essa rapaziada vai ter profissão?

Juvenal apoiou a bandeja na cintura.

– Meu querido analisado, hoje todos querem dirigir um filme. O problema é que poucos querem entender a alma humana antes de ligar a câmera.

O doutor ergueu a sobrancelha. Em código clínico: “Continue, o garçom está mais lúcido que você”.

– Cinema é sonho coletivo – prosseguiu Juvenal. É sonho sonhado junto. Cria gente que não existe, mas passa a morar na cabeça do povo como o vizinho com dívida e trauma de infância.

– Tipo Zorro?

– Exato. Zorro, Darth Vader, Carlitos, Macunaíma, Batman, Coringa…

Juvenal apontou para uma mesa no canto. Um sujeito de camisa preta, óculos redondos e cabelo desgrenhado falava alto, cercado de estudantes.

– Aquele é o Otávio. O Mito.

– Mito por quê?

– Porque entra em todas as mesas da conferência sem pagar inscrição e sai como referência bibliográfica. Dizem que faz roteiros para primeiras-damas de empresários bem-sucedidos depois da terceira harmonização facial.

O doutor tirou o bloquinho do bolso. Eu sabia: algum sintoma meu seria diagnosticado.

– O problema não é só o Otávio – continuei. – Com tanta tecnologia, qualquer um edita biografia, corta cena inconveniente, coloca trilha épica, baixa a saturação da culpa e transforma golpista em mártir.

Juvenal concordou.

– A montagem é arma perigosa. Dependendo do corte, reunião de condomínio vira resistência democrática.

– Veja o Mário Frias querendo filmar Bolsonaro como herói nacional. Operação estética de lavagem emocional: vida cheia de ataques às instituições, temperada com lágrima, criança em câmera lenta, violino ao fundo, bandeira contra o sol. Nasce o mártir de quinta categoria.

– Mártir de quinta parece ingresso promocional – riu Juvenal.

– E olhe que ainda cobram taxa de conveniência.

O doutor anotou algo. Eu tentei espiar. Ele virou o bloquinho. A terapia ali era transferência, contratransferência e sonegação de pauta.

– O pior é o dinheiro. Banco Master, emenda parlamentar, empresário quebrado e família Bolsonaro na mesma frase: o roteiro sai do drama político e entra no realismo fantástico bancário.

– No Brasil isso é documentário de orçamento médio – completou Juvenal.

– Ninguém sabe se o dinheiro era pra filmar, financiar vaidade, bancar exílio dourado ou pagar aluguel no Texas.

O doutor gesticulou para eu continuar.

– Veja o Flávio. Pego no pulo, nega, diz que não tem dinheiro público, transforma pergunta em perseguição. Mas o corpo entrega: coçada no rosto, mão pedindo distância, desconforto. A boca sustenta o cinismo, o corpo ainda guarda resquício de vergonha.

Juvenal serviu mais chope.

– Vergonha é curto-circuito entre o que queremos parecer e o que o olhar do outro revela, não é, doutor?

O doutor ficou em silêncio.

– Vergonha não é culpa. Culpa se sente sozinho. Vergonha precisa de plateia. É ser visto. Exposto. Desmontado.

– E quando a vergonha é demitida – disse Juvenal –, o cinismo assume a vaga. Como cargo de confiança com auxílio-moradia moral.

Do outro lado, Otávio levantou o copo:

– Esse Mário Frias é fraude! Eu faria melhor!

– Com dinheiro do Master, qualquer um vira Fellini! – respondeu um estudante.

A mesa riu. Juvenal não perdeu a deixa:

– Fellini filmava sonho. Frias quer filmar álibi.

Na TV, reportagem sobre ameaças à democracia. Legenda: “polarização”. Palavra covarde. Quando um lado ameaça incendiar a casa e o outro usa o extintor, chamam de polarização.

Uma moça de cabelo azul:

– O fascismo entende de imagem.

– E pouco de vergonha – completou o rapaz.

O doutor fechou o bloquinho. Sinal de alerta. Ele olhou para todos e disse:

– Quando a vergonha deixa de ser freio e vira figurino, a política abandona a ética e entra em cena como farsa.

Ficamos quietos. Frase dura o suficiente para quebrar a espuma do chope.

Otávio parou dois segundos na performance, depois pegou uma tulipa vazia, colocou no peito como bandeira e caminhou em câmera lenta.

Um estudante narrou:

– Interior. Boteco. Fim de tarde. Homem sem financiamento emocional atravessa o quadro.

– Close na cara de pau – completou outro.

Juvenal apagou metade das luzes. A TV travou no rosto do 01 diante da pergunta incômoda: boca aberta, olho fugindo, mão no rosto, meio sorriso de quem viu a câmera chegar antes do advogado.

Parecia cinema. Mas era o clã passando vergonha em alta definição.

Então o projetor de um estudante acendeu. A imagem refletiu enorme e torta na parede, sobre o letreiro do bar. O rosto ficou gigantesco. Otávio pareceu minúsculo diante da projeção.

– Que plano lindo – sussurrou a moça de cabelo azul.

Otávio ergueu o copo vazio:

– E agora? Qual é o final?

Juvenal pegou uma manjubinha, apontou para a imagem e disse:

– O final é simples. Quando o vilão perde a vergonha, a plateia precisa perder o medo.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – XCII. Enviado pelo autor.

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