Após uma maratona de debates, as centrais sindicais aprovaram um documento em defesa do fim da escala 6×1 e redução da jornada sem redução salarial que será entregue aos deputados e senadores, no momento em que as discussões sobre o tema entram em uma fase decisiva no Congresso Nacional.
O documento, assinado pelas centrais CUT, Força Sindical, CTB, UGT, NCST, CSB, Intersindical – Central da Classe Trabalhadora e PÚBLICA, defende que a “escolha é entre um modelo baseado apenas na ampliação dos lucros, com a substituição permanente de trabalhadores adoecidos resultando em um alto custo econômico e social, ou um modelo que combine crescimento econômico com valorização da saúde, do bem-estar e da qualidade de vida da população”.
No texto, intitulado “Reduzir a jornada para distribuir a renda, para democratizar o tempo, para melhorar a vida da classe trabalhadora”, as centrais afirmam que a jornada de 44 horas semanais foi definida pela Constituição de 1988 e permanece inalterada há quase quatro décadas, “apesar dos avanços tecnológicos, da automação e das novas formas de organização do trabalho que ampliaram produtividade e os lucros das empresas”.
“Esses ganhos, porém, não foram distribuídos de forma equilibrada aos trabalhadores e trabalhadoras, seja por meio de salários ou da redução do tempo de trabalho. Garantir uma jornada de 40 horas semanais, sem redução salarial, e o fim da escala 6X1 com dois dias consecutivos de descanso, significa reconhecer o descanso como condição essencial para a saúde, a convivência familiar, o desenvolvimento pessoal e a qualidade de vida”, defendem.
Ao ressaltar que o Brasil possui condições econômicas para avançar nessa direção, as entidades afirmam que “a redução da jornada representa um passo importante para distribuir melhor a riqueza produzida, democratizar o tempo e construir uma sociedade menos desigual, mais saudável e mais justa”.
“Mais de 102 milhões de trabalhadores produzem uma riqueza superior a R$ 10 trilhões no Brasil, mas grande parte permanece concentrada no sistema financeiro e nos grandes grupos econômicos. Entre 2015 e 2021, a participação dos salários no PIB caiu de 35,5% para 31%, enquanto a parcela apropriada pelas empresas e proprietários do capital subiu de 32% para 37,5%”, denunciam as centrais.
De acordo com as lideranças sindicais, ampliar a produtividade “não depende de trabalhar mais horas ou do esforço individual do trabalhador, mas de investimento em tecnologia, infraestrutura, inovação, qualificação e melhores condições de trabalho”.
E destacam que “países e empresas que implementaram jornadas reduzidas também observaram melhora na saúde dos trabalhadores, redução do absenteísmo, aumento da satisfação e manutenção do desempenho econômico”.
Além disso, as experiências têm mostrado que “jornadas menores garantem mais tempo para a qualificação profissional, acesso à educação e à formação profissional”.
E citam dados da PNAD/IBGE (2025), que mostram que, entre jovens de até 29 anos, 50% conseguem estudar e trabalhar em jornadas de até 36 horas semanais, percentual que cai para 25% entre 36 e 39 horas, para 22% em jornadas de 40 horas e para 17% em jornadas entre 41h a 44 horas.
“Reduzir o tempo de trabalho amplia as possibilidades de qualificação contínua, fundamental diante das transformações tecnológicas no mundo do trabalho, preserva a saúde do trabalhador e da trabalhadora, enquanto jornadas extensas e intensas aumentam acidentes, adoecimento físico e sofrimento mental”, afirmam.
O documento cita que, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o Brasil registrou 6,4 milhões de acidentes e 27,4 mil mortes no trabalho em dez anos, além de 106 milhões de dias de trabalho perdidos. “Apenas em 2025 foram mais de 806 mil acidentes e 3.644 mortes: o 4º lugar no triste ranking de país com maior número de acidentes de trabalho do mundo”, afirmam as centrais.
Ainda segundo as entidades, “reduzir a jornada para 40 horas ajuda a redistribuir o tempo de trabalho, ampliar empregos e melhorar as condições do mercado de trabalho”.
Conforme os sindicalistas, a mudança promoveria ainda igualdade no mercado de trabalho. “As mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens. Somando trabalho remunerado e não remunerado, a jornada total feminina chega a 58 horas semanais, acima das 52,8 horas dos homens. Isso empurra muitas mulheres para jornadas remuneradas menores e salários mais baixos”.
As centrais lembram que o problema das longas jornadas e da escala 6×1 são agravados ainda pelo deslocamento. “23,3 milhões de pessoas gastam mais de 30 minutos para chegar ao trabalho, somando 10h ou 12 horas por dia fora de casa, comprometendo descanso, convivência familiar e saúde”.
E ressaltam que a organização das escalas deve ocorrer por meio de negociação coletiva, garantindo soluções adequadas às diferentes realidades setoriais e proteção aos trabalhadores. “Fortalecer a negociação coletiva significa ampliar a democracia nas relações de trabalho e assegurar direitos como redução da jornada, manutenção dos salários, controle das horas extras, pausas e descanso adequado”, afirmam.











