Em greve geral, trabalhadores bolivianos exigem renúncia do presidente

Ruas bolivianas tomadas pelos trabalhadores exigindo renúncia de Paz (Juan Karita/AP)

Milhares de trabalhadores voltaram às ruas do centro de La Paz, capital da Bolívia, nesta sexta-feira (22), para exigir a renúncia do presidente Rodrigo Paz, marcando três semanas de protestos e bloqueios de ruas e estradas contra seu governo.

“De fato, hoje temos mais uma marcha de protesto com diferentes setores da sociedade. Não concordamos com as políticas neoliberais, rejeitamos a coletiva de imprensa de quarta-feira de Rodrigo Paz, que não ofereceu soluções para o país, criminaliza os protestos e persegue os líderes dos trabalhadores”, declarou Aguilardo Cari Cari, secretário-geral da Confederação de Comunidades Indígenas Interculturais Originárias da Bolívia, em entrevista à imprensa local.

“O presidente vem convocando diversos setores e realizando reuniões há muito tempo, mas nada resulta disso. São apenas encenações para distrair o povo mobilizado”, lamentou Cari Cari. Por sua vez, o secretário-geral da principal central sindical da Bolívia, a Central Operária Boliviana (COB), Eduardo Ferrufino, lamentou que o governo esteja perseguindo dirigentes e os chame de vândalos.

O estopim para essa revolta popular reside na implementação de um plano econômico de arrocho que, segundo as organizações, está alinhado aos interesses das grandes empresas multinacionais e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

GREVE GERAL MANTÉM PAÍS CERCADO POR BLOQUEIOS DE ESTRADAS

A onda de protestos populares e bloqueios de estradas que começaram com reivindicações ao governo relacionadas a salários, acesso a combustível e outras decisões, como a revogação da lei fundiária, com o passar dos dias se intensificaram em reivindicações, intensidade e extensão. Os manifestantes hoje também exigem a renúncia do presidente e de parte de seu gabinete, em meio a confrontos e ações repressivas das forças de segurança.

A mobilização, liderada pela COB, pela Confederação Sindical Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) e pela Federação Camponesa de La Paz ‘Tupac Katari’ (Ponchos Vermelhos), juntamente com professores e mineiros cooperativistas, aprofunda uma greve geral por tempo indeterminado que mantém o país praticamente cercado por mais de 70 bloqueios de estradas.

As organizações sociais transformaram suas reivindicações iniciais por salários mais altos em uma rejeição total ao presidente, apenas seis meses após sua posse. Essa escalada decorre da indignação gerada pela brutal repressão estatal que, no sábado, 16 de maio, deixou pelo menos quatro manifestantes mortos pelas mãos da polícia e das forças militares.

Entre as medidas implementadas pelo Poder Executivo está a eliminação de subsídios, o que levou a um aumento de 86% no preço da gasolina e de mais de 160% no preço do diesel, impactando severamente as condições de vida da classe trabalhadora.

A este denominado  “gasolinazo” se soma a rejeição indígena à lei Marinkovic (lei N° 1720), uma regulamentação que visaria saquear os recursos naturais comuns e desapropriar os camponeses de suas terras, facilitando a apreensão e conversão de pequenas propriedades agrícolas em benefício de grandes latifundiários.

GOVERNO TRUMP E BANCO MUNDIAL APOIAM RODRIGO PAZ

No cenário internacional, o governo dos EUA, emitiu uma declaração de apoio a Rodrigo Paz, a quem considera um aliado fundamental na região, denunciando supostos planos de desestabilização.

“Que fique bem claro: os Estados Unidos apoiam firmemente o governo constitucional legítimo da Bolívia. Não permitiremos que criminosos e narcotraficantes derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”, declarou o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, nas redes sociais.

O Banco Mundial também manifestou seu apoio, na quinta-feira (21), à agenda econômica do governo, em meio aos intensos protestos que exigem a renúncia do presidente boliviano.

“O Banco Mundial tem orgulho de apoiar a Bolívia e seu governo neste caminho rumo à recuperação”, afirmou Susana Cordeiro, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, sem detalhar qual seria esse caminho.

Num gesto de mediação, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, descreveu o conflito como uma revolta popular e ofereceu sua mediação diante da crise política e social que a Bolívia atravessa.

Paz prometeu na quarta-feira (20) uma remodelação ministerial para, segundo ele, incluir as vozes dos setores sociais. Na primeira mudança, Williams Bascopé, advogado de origem aimará, substituiu Edgar Morales, que foi duramente criticado pelo setor trabalhista e que apresentou sua renúncia horas antes.

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