“Resistência à escala 5×2 reflete mentalidade da Casa Grande”, afirma presidente da CTB

Adilson Araújo, presidente da CTB. Foto: Lívia Abreu

Em entrevista ao HP, Adilson Araújo, presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), falou sobre o avanço da PEC que põe fim à escala 6×1 após a aprovação, em dois turnos, no plenário da Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (27).

Na avaliação do dirigente sindical, com a adoção da escala 5×2 e a redução da jornada para 40 horas semanais, ganham tanto os trabalhadores quanto os empresários. Segundo ele, os que se posicionam contra a mudança o fazem por preconceito ou por estarem enraizados “na antessala da Casa Grande”. “Não foram avisados de que a escravidão acabou”, afirma.

A seguir, a entrevista:

HP –Marcelo Osório, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), declarou, em audiência pública, que “a galinha não põe ovo por quatro dias na semana; ela põe ovo por sete dias”, ao defender a manutenção da escala 6×1. O que o senhor acha de um argumento como esse, apresentado na Câmara dos Deputados?

Adilson – Em primeiro lugar, para falar uma besteira dessas, era melhor ter ficado calado. Foi um comentário preconceituoso e esdrúxulo, uma falta de respeito com os trabalhadores, inclusive com os próprios empregados. Respeito é bom, e todos gostam.

Em segundo lugar, tratar um tema tão importante para a classe trabalhadora de forma tão desqualificada demonstra uma visão predatória das relações de trabalho. É a opinião de um patrão que não evoluiu e continua preso à mentalidade da Casa Grande. É preciso avisar aos desavisados que a escravidão acabou.

HP – Na sua opinião, por que há empresários contrários à escala 5×2 se, como o senhor afirma, ela aumenta a produtividade?

Adilson – Trata-se de uma visão míope da realidade. Reduzir a exaustão crescente dos trabalhadores foi o caminho encontrado, historicamente, para elevar a produtividade nas linhas de montagem. Além disso, permitiu transformar os próprios trabalhadores em consumidores, com tempo para usufruir dos bens que produziam.

Esse debate não é novo. Em 1926, o empresário Henry Ford chocou o mundo ao reduzir a jornada semanal dos operários da Ford para 40 horas, substituindo a desumana escala 6×1 pela 5×2, sem redução salarial. O objetivo era aumentar os lucros, e ninguém pode chamar Ford de revolucionário.

Ao contrário da catástrofe prevista por setores patronais, o que se verificou foi aumento da produtividade e crescimento do PIB.

Na Islândia, a implementação da jornada de 35 ou 36 horas semanais, sem redução salarial e com escala 4×3, também foi considerada um sucesso. Os níveis de estresse e esgotamento caíram significativamente, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional melhorou, e a produtividade foi mantida ou até ampliada na maioria dos locais de trabalho.

Entre 2020 e 2022, a economia islandesa cresceu 5%, superando boa parte dos países europeus e mantendo uma taxa de desemprego baixa, em torno de 3,4%.

Experiências como a da França, que adotou a jornada de 35 horas, também apresentaram resultados positivos, com a geração de cerca de 350 mil novos postos de trabalho.

HP – Qual é o principal benefício da escala 5×2 para os trabalhadores e para o país?

Adilson – A possibilidade de gerar 4,5 milhões de novos empregos, segundo pesquisa da economista Marilane Teixeira, da Unicamp. O estudo estima que a redução da jornada para 36 horas semanais pode elevar a produtividade nacional em até 4%. Esse dado, por si só, contrasta com os prognósticos de entidades patronais, que alertam para desemprego e queda da produção.

Há ainda o esforço de concertação social recomendado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que pode ajudar o Brasil a superar sua triste posição no ranking de produtividade por hora trabalhada, atualmente na 86ª colocação. Trata-se de um enorme contrassenso, especialmente quando comparado a países com jornadas menores, como a Alemanha (13ª posição) e o Reino Unido (22ª), que produzem significativamente mais por hora trabalhada.

Eu diria aos patrões que eles não irão se arrepender. O avanço das novas tecnologias aponta justamente para esse caminho.

CARLOS PEREIRA

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