Rompimento de adutora deixa metade de Guarulhos sem água e amplia crise da Sabesp após privatização

71 bairros ficaram sem água após rompimento de adutora - Foto: Reprodução/portal Cumbica&Região

O rompimento de uma adutora da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em Guarulhos deixou 71 bairros sem abastecimento de água nesta sexta-feira (29), agravando a crise de serviços enfrentada pela população paulista desde a privatização da companhia. O vazamento ocorreu durante uma obra de ampliação do sistema de tratamento de esgoto no município, após um deslocamento de solo atingir a tubulação, segundo informou a empresa. A interrupção do fornecimento afetou milhares de moradores da segunda cidade mais populosa do estado de São Paulo, atrás apenas da capital.

O episódio ocorre em um momento de crescente desgaste da imagem da Sabesp após a privatização concluída em 2024 pelo governo Tarcísio de Freitas. Em artigo publicado no portal Outras Palavras, os engenheiros Marcos Helano Montenegro e Amauri Pollachi, membros da coordenação do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), e o sociólogo Edson Aparecido da Silva, secretário-executivo da entidade, apontam que a busca acelerada por lucros vem sendo acompanhada da deterioração dos serviços e do aumento de acidentes operacionais.

Os autores afirmam que a política de redução de custos implementada após a privatização provocou uma perda massiva de trabalhadores experientes da companhia. Segundo o levantamento do ONDAS, quase 5.800 funcionários – cerca de 47% do quadro existente em 2022 –   foram desligados após a venda do controle acionário da estatal, sem reposição adequada da mão de obra técnica.

O estudo também destaca a explosão das reclamações dos consumidores, “um verdadeiro colapso do atendimento”. Na agência reguladora estadual (Arsesp), a média mensal de reclamações contra a empresa na Grande São Paulo disparou 70% na comparação com os primeiros trimestres de 2025 e 2026. “A Sabesp lidera com larga margem o ranking de reclamações do Procon-SP em 2025 com 6.879 registros e quase 70% das queixas não atendidas, uma situação inédita na sua história”, apontam os pesquisadores. “A falta d’água e os problemas nas faturas são as principais queixas”, continua o artigo.

Eles defendem que o desabastecimento recorrente não pode ser tratado como casos isolados e atribuem os problemas operacionais à estratégia de maximização dos lucros da companhia privatizada. Antes da privatização, entre 2021 e 2023, o lucro líquido médio anual da Sabesp era de R$ 3,4 bilhões. Após a transferência do controle ao setor privado, a média saltou para R$ 9,2 bilhões anuais nos anos de 2024 e 2025 – crescimento de cerca de 170%, aponta o levantamento.

Segundo os pesquisadores, a parcela da receita obtida com tarifas de água e esgoto convertida em lucro praticamente dobrou. Em 2024, aproximadamente 40% de toda a receita de saneamento da empresa virou lucro líquido para os acionistas. Ao mesmo tempo, as despesas com pessoal despencaram. A participação dos gastos com trabalhadores no valor adicionado da empresa caiu de uma média de 25% antes da privatização para apenas 13,5% depois dela. 

“Os dados mostram que a atual gestão da Sabesp priorizou esforços em maximizar a rentabilidade aos acionistas, sendo a redução das despesas com a força de trabalho própria um componente primordial para atender à prioridade do máximo lucro”, denuncia o ONDAS. 

O contraste entre os cortes de pessoal e a remuneração da alta direção também chama atenção. Conforme dados enviados pela própria companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), cada um dos seis diretores estatutários da Sabesp deverá receber, em média, cerca de R$ 708 mil por mês em 2025. O valor representa um aumento de mais de 600% em relação à remuneração média registrada em 2024.

A discrepância entre os cortes de pessoal e a remuneração da alta direção também chama atenção. Com base em dados da própria Sabesp à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), estima-se que a remuneração média de cada um dos seis diretores estatutários da companhia alcançou cerca de R$ 708 mil mensais em 2025. 

Além do caso de Guarulhos, o artigo relembra uma série de episódios recentes envolvendo a empresa: a cratera aberta na Marginal Tietê após o rompimento de um interceptor de esgoto; o despejo diário de esgoto no Rio Tietê; o colapso de reservatórios; explosões provocadas por obras da companhia e mortes causadas por falhas em tubulações. Para os autores, os casos revelam “uma política gananciosa e imediatista” que transformou a empresa pública de saneamento em “uma máquina altamente lucrativa, contudo mortal”.

Enquanto bairros inteiros de Guarulhos seguem sem água, os impactos nocivos da privatização da maior companhia de saneamento da América Latina e os efeitos da política de corte de custos na qualidade e segurança dos serviços prestados à população se tornam cada vez mais evidentes. 

Em nota, a Sabesp informou ter disponibilizado 30 caminhões-pipa para atendimento emergencial, priorizando hospitais, escolas e serviços essenciais, além de pedir “uso consciente” da água armazenada pela população. A previsão da companhia é concluir os reparos ainda nesta sexta, com normalização gradual do abastecimento ao longo do sábado.

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