Ex-presidente da UDR é absolvido por execução de trabalhador sem-terra após 28 anos de processo

Registro do julgamento de Marcos Prochet em 2016. - Foto: Reprodução

O Tribunal do Júri de Curitiba absolveu o empresário rural e ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Marcos Prochet, acusado de envolvimento na morte do trabalhador rural sem-terra Sebastião Camargo, ocorrida em fevereiro de 1998, no município de Marilena, no noroeste do Paraná. A decisão foi tomada após mais de 28 anos de tramitação do processo, considerado um dos casos mais conhecidos relacionados a conflitos agrários no estado.

Sebastião Camargo tinha 65 anos quando foi morto durante uma ação armada contra famílias acampadas em uma fazenda da região. Na época, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupavam a área em meio a uma disputa fundiária. De acordo com as investigações, homens armados participaram da retirada dos acampados e o trabalhador foi atingido por um disparo fatal.

O julgamento realizado em Curitiba marcou o quarto júri do caso. Nas três ocasiões anteriores, Prochet havia sido condenado, mas as sentenças foram anuladas posteriormente por decisões do Tribunal de Justiça do Paraná, que determinou a realização de novos julgamentos. A defesa sempre sustentou que não havia provas suficientes para responsabilizar o empresário pela morte do trabalhador.

Sebastião Camargo foi assassinado aos 65 anos, durante um despejo violento realizado pela UDR, no noroeste do Paraná. Foto: Arquivo pessoal

Um dos momentos centrais do júri ocorreu quando uma testemunha apresentada pela defesa afirmou ter efetuado o disparo que matou Sebastião Camargo. O homem declarou aos jurados que o tiro teria sido acidental. A nova versão foi contestada pelo Ministério Público, que apontou inconsistências no relato e defendeu que o conjunto das provas reunidas ao longo da investigação indicava a responsabilidade atribuída ao réu. Os promotores também destacaram que eventual punição criminal ao autor confesso estaria prescrita devido ao tempo transcorrido desde o crime.

Após a leitura da sentença, representantes do MST e familiares da vítima demonstraram insatisfação com o resultado. Eles lembraram que o caso passou por décadas de disputas judiciais e que três condenações anteriores haviam reconhecido a responsabilidade do acusado. Para os familiares, a absolvição encerra o processo sem uma resposta considerada satisfatória sobre a morte do trabalhador rural.

A defesa comemorou o veredicto e afirmou que a decisão dos jurados confirmou a tese sustentada ao longo dos anos de que Marcos Prochet não teve participação no homicídio. Os advogados destacaram que o julgamento permitiu uma nova análise das provas e das circunstâncias apresentadas durante o processo.

O assassinato de Sebastião Camargo ocorreu em um período marcado por conflitos fundiários em diversas regiões do Paraná. O caso ganhou repercussão nacional e foi acompanhado por entidades ligadas aos direitos humanos e à reforma agrária. Ao longo dos anos, o processo acumulou recursos, anulação de julgamentos e mudanças de entendimento jurídico, contribuindo para que sua conclusão se tornasse uma das mais demoradas da Justiça paranaense.

Com a absolvição decidida pelo júri popular, caberá agora ao Ministério Público analisar a sentença e verificar a possibilidade de apresentação de novos recursos. Até lá, a decisão encerra o mais recente capítulo de uma ação penal que atravessou quase três décadas e mobilizou diferentes setores da sociedade envolvidos no debate sobre a violência no campo e os conflitos pela posse da terra no Brasil.

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