“A pátria dos Bolsonaros não é a brasileira, é a pátria estrangeira”, afirma Simone

Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado por São Paulo (Foto: Valter Campanato - Agência Brasil)

Ex-ministra critica as armações com governo estrangeiro dos filhos do ex-presidente, rejeita alarmismo empresarial e afirma que a redução da jornada não levará o Brasil à crise

A ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB), fez duras críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aos filhos dele, especialmente pela trama com o governo dos Estados Unidos.

As declarações de Tebet aconteceram em entrevista à BBC News Brasil, quarta-feira (3),

Ao comentar a articulação da família Bolsonaro com o americano Donald Trump e aliados, Tebet afirmou que o comportamento do grupo revela opção política que contraria os interesses nacionais.

“A pátria dos Bolsonaros não é a brasileira, é a pátria estrangeira”, declarou.

Segundo a ex-ministra, a atuação do clã bolsonarista em busca de apoio externo para pressionar instituições brasileiras representa postura incompatível com os interesses da soberania nacional. Para ela, divergências políticas internas devem ser resolvidas no âmbito das instituições democráticas do próprio país, sem interferência estrangeira.

A declaração ganhou ampla repercussão política por atingir um dos pontos mais sensíveis do debate atual: a mobilização internacional promovida por aliados do bolsonarismo em meio às investigações conduzidas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e aos processos que envolvem o ex-presidente e integrantes do grupo político dele.

ESCALA 6X1

Na resposta à pergunta sobre a escala de trabalho, Tebet abordou um dos temas sensíveis e mais relevantes da atual agenda trabalhista brasileira: a reorganização da jornada semanal de trabalho e os impactos do fim da escala 6×1.

 A ex-ministra dedicou parte importante da argumentação dela à defesa da redução da jornada de trabalho, posicionando-se de forma clara em favor da mudança.

Segundo ela, os argumentos utilizados por setores empresariais para barrar a proposta não se sustentam diante dos estudos disponíveis e das transformações em curso no mercado de trabalho.

“Ou não conhece o Brasil ou é tendencioso quem afirma que o Brasil vai quebrar, que os setores produtivos vão quebrar, porque nós vamos imediatamente reduzir em duas – duas! – horas o tempo de trabalho do brasileiro. Estão fazendo um discurso raso”, rebate a ex-ministra.

“DISCURSO RASO”

Tebet rejeitou frontalmente o argumento segundo o qual a redução da jornada levaria ao fechamento de empresas ou provocaria crise econômica.

Na entrevista, ela afirmou que a tese de que o País quebraria por causa da redução de duas horas semanais de trabalho não encontra respaldo técnico.

“O Brasil não vai quebrar, os setores não vão quebrar. Eu mesma, que sou a favor do fim imediato da escala 6×1, seria a primeira a defender o setor de serviços, o setor de comércio. Estou falando aí do pequeno, do micro, para que ele possa continuar, inclusive gerando emprego e renda, que é o que nós queremos”, argumentou.

A ex-ministra lembrou que foi a primeira integrante do governo Lula (PT) a defender publicamente o fim da escala 6×1 e disse ter construído sua posição a partir de estudos realizados com dados oficiais e análises do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Segundo ela, parte da resistência empresarial está baseada em visão ultrapassada do mundo do trabalho e ignora experiências nacionais e internacionais que demonstram a possibilidade de compatibilizar produtividade, crescimento econômico e melhores condições de vida para os trabalhadores.

PEQUENOS NEGÓCIOS

Ao mesmo tempo em que apoia a redução da jornada, Tebet reconhece que alguns setores podem enfrentar dificuldades durante a transição. Ela citou especialmente micro e pequenas empresas dos segmentos de comércio e serviços, que poderiam demandar políticas específicas de adaptação.

Para a ex-ministra, porém, essa preocupação não deve servir de justificativa para bloquear o debate. Segundo ela, cabe ao Estado desenvolver mecanismos capazes de apoiar os setores mais vulneráveis durante o processo de implementação das mudanças.

A avaliação converge com propostas defendidas por centrais sindicais e especialistas que sustentam a necessidade de uma ação planejada para a implementação da redução da jornada e da escala.

NEGOCIAÇÃO

Outro trecho relevante da entrevista foi a crítica à ideia de que patrão e empregado poderiam negociar individualmente as condições de trabalho sem a existência de regras gerais de proteção.

Tebet afirmou que a realidade brasileira é marcada por profundas desigualdades econômicas e que o trabalhador frequentemente negocia em posição de fragilidade, sobretudo em períodos de desemprego elevado.

“Porque não tem paridade de armas. Não tem um equilíbrio nessa relação. Quando você está no pleno emprego, como é agora, você até pode sentar na mesa de negociação quase de igual para igual. Mas o Brasil é movido, lamentavelmente, por crises econômicas. A cada três, quatro anos, tem uma crise. Quando você está num período de desemprego, há uma fragilidade daquele empregado que acaba aceitando qualquer condição, qualquer bico, qualquer informalidade, qualquer regra”.

Por essa razão, defendeu a preservação de mecanismos coletivos de proteção e negociação.

A posição aproxima-se das críticas formuladas por sindicatos à precarização das relações de trabalho promovida nos últimos anos. Para essas entidades, a negociação individual tende a favorecer o lado economicamente mais forte da relação, reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores.

PRODUTIVIDADE NO CENTRO DO DEBATE

A ex-ministra também vinculou a discussão sobre a jornada de trabalho ao desafio histórico da produtividade brasileira.

Segundo ela, os baixos índices de produtividade do País não decorrem de falta de esforço dos trabalhadores, mas da insuficiência de investimentos em inovação, tecnologia, qualificação profissional e modernização produtiva.

Na avaliação da ex-ministra, o avanço da inteligência artificial e das novas tecnologias abre espaço para repensar a organização do trabalho, desde que as transformações sejam acompanhadas por políticas públicas adequadas.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *