Brasil precisa reestatizar a BR Distribuidora, defende Gabrielli

Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, é coordenador do programa de governo do presidente Lula. (Foto Gustavo Bezerra/PT)

Coordenador da campanha de Lula considera a privatização da Eletrobrás “um desastre” e afirma que o crescimento exige menos juros e mais investimentos

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás e coordenador do programa de governo do presidente Lula à reeleição este ano, defendeu, em entrevista à Folha de São Paulo (11/6), a reestatização da distribuição de combustíveis como forma de impedir o aumento abusivo do preço para o consumidor final.

Gabrielli destacou o modelo de integração “do poço ao posto”. Modelo adotado pela Petrobrás, antes da privatização de diversas subsidiárias, como a BR Distribuidora e a Liquigás, e que é adotado por grandes petroleiras.

“O que o presidente Lula defende, e que nós também defendemos, é que é necessário que a Petrobrás volte à distribuição. E esse é o modelo de todas as grandes petroleiras do mundo. Todas”, afirmou.

“Se não tiver uma empresa distribuidora associada, integrada com refino, você não consegue atuar em equilibrar as margens. Então o que acontece é o seguinte: a Petrobrás segura o preço na refinaria, e a margem da distribuição aumenta. No processo, vai aumentando a margem da distribuição”.

BR DISTRIBUIDORA

“Se a Petrobrás voltar [à distribuição], há várias maneiras. É uma tática da Petrobrás, não vai ser um programa de governo. Se a Petrobrás vai comprar a BR, se a Petrobrás vai comprar outra distribuidora, se a Petrobrás vai questionar a capacidade de usar marca no contrato ou não, é uma questão interna da Petrobrás”.

Na privatização da BR Distribuidora em 2019, no governo Bolsonaro, a estatal brasileira ficou impedida de ter postos de gasolina até 2029. A “joia da coroa” da estatal, hoje pertence a Vibra que usa a marca BR nos postos.

“Hoje, quando você entra num posto Petrobrás, você está entrando num posto fake, porque não tem nada da Petrobrás ali.[…] O contrato de venda da Petrobrás com a BR tem cláusulas absurdas. Por exemplo, essa de não usar a marca Petrobrás por 10 anos tem que ser questionada juridicamente. Mas é uma decisão de Petrobrás, isso não é uma decisão de governo. O governo vai dizer o seguinte: nós precisamos garantir o suprimento do Brasil diminuindo a volatilidade dos preços domésticos, ponto”.

ELETROBRÁS

Gabrielli destacou que “o aumento do poder de intervenção do governo na geração elétrica é um outro elemento. A privatização da Eletrobras foi um desastre.[…] Podemos fazer várias coisas na área da geração elétrica, inclusive aumentar a representação do governo de acordo com a proporção que ele tem nas ações da Eletrobras, que é outro absurdo. O contrato é feito de tal maneira que o governo, apesar de ter mais participação no capital, tem uma representação menor no conselho. Tem que fazer com que o governo, via regulação, consiga viabilizar projetos de longo prazo de planejamento energético”.

O coordenador do programa de Lula frisou “que o grande problema que nós temos não é um problema fiscal”.

“Nós temos vários outros tipos de problemas. A inflação é um problema que nós temos que combater. Corrói os rendimentos. Você não consegue terminar o mês com o dinheiro que ganha. Agora, a inflação tem múltiplas causas, não tem uma causa só. E essas múltiplas causas não podem ser tratadas com um instrumento só. […] A única defesa de quem defende a questão fiscal como principal problema é que a taxa de juros detém a inflação. Detém a inflação. Acho que não é único instrumento que nós temos para tratar a inflação. Nós temos que ter responsabilidade fiscal, sim. Ninguém está defendendo aqui esbanjar os recursos públicos. Você tem múltiplos instrumentos. Você tem a meta de segurar a inflação e ao mesmo tempo crescer. Isso está inclusive na definição do Banco Central. Temos que levar isso em conta na prática”.

Segundo Gabrielli, para aumentar o ritmo de crescimento do Brasil, “temos que estimular o aumento do consumo. O país tem que crescer. E isso requer uma política macroeconômica que não seja contraditória ao crescimento”.

Ele afirmou que o crescimento econômico sustentável exige redução das taxas de juros, aumento da produtividade, ampliação dos investimentos e fortalecimento de instrumentos de planejamento estatal, diz a reportagem.

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