PF rompe barreira tecnológica, acessa aparelho e abre espaço para desvendar as tramoias com o Banco Master, Rioprevidência e Refit. Ex-governador bolsonarista se negou a dar a senha
O desbloqueio, pela Polícia Federal, do celular utilizado cotidianamente pelo ex-governador do Rio de Janeiro, o bolsonarista Cláudio Castro (PL), alterou significativamente o cenário das investigações que cercam a gestão do bolsonarista e produziu apreensão em setores do bolsonarismo fluminense.
As informações são de Lauro Jardim, de O Globo.
O aparelho, apreendido durante operação realizada em maio, era considerado pelos investigadores o equipamento mais relevante entre os 3 celulares recolhidos na residência de Castro.
Um dos telefones estava inativo havia anos e outro tinha sido ativado poucos dias antes da operação. O celular agora acessado seria justamente aquele utilizado na rotina diária do então governador.
Castro recusou-se a fornecer a senha do dispositivo. Após semanas de trabalho técnico, a PF conseguiu acessar os dados armazenados e iniciou a perícia do conteúdo.
A expectativa dos investigadores é encontrar registros de conversas, contatos, agendas, trocas de mensagens e outros elementos capazes de reconstruir relações políticas e empresariais já apontadas em diferentes inquéritos.
Mais do que simples aparelho telefônico, o celular passou a ser tratado nos bastidores da investigação como possível mapa das conexões políticas e econômicas estabelecidas durante os anos em que Castro comandou o Palácio Guanabara.
BANCO MASTER
O principal foco das apurações continua sendo a relação entre Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central da Operação Compliance Zero.
Segundo a PF, há indícios de que a proximidade entre ambos tenha contribuído para a realização de aportes bilionários do Rioprevidência em produtos financeiros vinculados ao Banco Master.
As investigações apontam aplicações que variam entre R$ 3 bilhões e R$ 3,7 bilhões, realizadas apesar de alertas técnicos e questionamentos sobre os riscos das operações.
Documentos da investigação citam encontros frequentes entre Castro e Vorcaro, inclusive em ambientes privados e em viagens ao exterior. Os investigadores sustentam que alguns desses encontros ocorreram em períodos próximos às decisões que resultaram nos investimentos do fundo previdenciário fluminense.
É justamente nesse ponto que o conteúdo do celular ganha relevância. A PF pretende verificar se existem mensagens, chamadas, arquivos ou registros que permitam estabelecer vínculos mais concretos entre as conversas privadas e as decisões administrativas posteriormente adotadas pelo governo estadual.
FANTASMA DA REFIT
O aparelho também pode lançar luz sobre outra investigação sensível: a Operação Sem Refino.
Nesse caso, a PF apura o favorecimento ao grupo empresarial ligado ao empresário Ricardo Magro, controlador da refinaria Refit. Os investigadores suspeitam que estruturas do governo fluminense tenham sido mobilizadas para atender interesses empresariais relacionados ao setor de combustíveis.
Relatórios policiais afirmam que houve atuação coordenada de diferentes órgãos estaduais em benefício do conglomerado empresarial.
Castro nega qualquer irregularidade, mas os investigadores acreditam que o celular poderá revelar o grau de interlocução entre integrantes do governo e empresários envolvidos nas apurações.
POR QUE O BOLSONARISMO ESTÁ PREOCUPADO
Embora as investigações sejam formalmente direcionadas a Cláudio Castro, o impacto político potencial extrapola a figura do ex-governador.
Castro foi uma das principais lideranças do campo bolsonarista no Rio de Janeiro durante os últimos anos e construiu pontes com diferentes segmentos da direita nacional.
A implicação dele em esquemas de corrupção ou favorecimento empresarial poderia gerar efeitos sobre alianças políticas, campanhas eleitorais e articulações para 2026.
Nos bastidores de Brasília e do Rio, a avaliação é que o celular costuma ser mais revelador do que depoimentos. Mensagens apagadas, grupos de conversa, agendas de encontros, registros de localização e trocas de arquivos frequentemente ajudam investigadores a montar cronologias detalhadas dos fatos. Por isso, o desbloqueio do aparelho é visto como marco na investigação.
A preocupação aumentou porque a PF já encontrou, em outras frentes investigativas, elementos que sugerem relações próximas entre Castro e empresários sob investigação. O conteúdo do celular poderá confirmar, contradizer ou aprofundar essas suspeitas.
RECUO ELEITORAL
O avanço das investigações já produziu consequências políticas concretas.
Poucos dias após ser alvo das operações federais, Castro desistiu da candidatura ao Senado que vinha sendo articulada para as eleições de 2026. A decisão foi interpretada como tentativa de reduzir o desgaste político enquanto os inquéritos avançam.
A retirada de cena do ex-governador abriu disputa pela liderança do campo conservador fluminense e alimentou especulações sobre quem herdará capital político dele.
O QUE A PF PROCURA AGORA
A etapa atual das investigações consiste no cruzamento dos dados extraídos do aparelho com documentos bancários, registros administrativos, relatórios financeiros, informações telemáticas e material já obtido em operações anteriores.
Investigadores acreditam que o celular pode fornecer respostas para questões centrais:
• Como se davam as comunicações entre agentes públicos e empresários;
• Quem participou das articulações relacionadas aos investimentos do Rioprevidência;
• Qual era o papel efetivo de intermediários apontados nos inquéritos;
• Se houve coordenação política para beneficiar interesses privados; e
• Se outras autoridades ou grupos políticos aparecem nas conversas analisadas.
A expectativa dentro da PF é que a perícia produza novos desdobramentos nas próximas semanas.
DEFESA NEGA IRREGULARIDADES
Cláudio Castro nega as acusações e sustenta que não participou de decisões técnicas relacionadas aos investimentos investigados. Os advogados do ex-governador afirmam que os contatos com empresários ocorreram dentro da normalidade institucional do exercício do cargo e rejeitam qualquer insinuação de favorecimento indevido.
Ainda assim, o desbloqueio do celular muda o eixo da investigação. Até aqui, a PF trabalhava principalmente com documentos, movimentações financeiras e depoimentos.
Agora, passa a examinar aquilo que os investigadores consideram o registro mais íntimo da rotina política do ex-governador.
No ambiente político fluminense, poucos duvidam de que a próxima fase da crise passará pelas mensagens armazenadas naquele aparelho.
E é exatamente por isso que o caso deixou de ser apenas problema de Cláudio Castro para se transformar em motivo de inquietação em parcelas importantes da direita do Rio de Janeiro.
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