“01” de Bolsonaro usa medidas do governo Lula para tentar recuperar popularidade. A narrativa, no entanto, contraria o que foi praticado durante o desgoverno de seu pai
Quem acompanha a política no Brasil sabe que a sinceridade nunca foi o forte dos integrantes do clã Bolsonaro. Não é o caso, por óbvio, daquele que foi escalado para disputar, pela extrema-direita, a Presidência da República, Flávio Bolsonaro. Ele disse, por exemplo, que não conhecia Vorcaro, mas foi flagrado em conversas e encontros com o banqueiro criminoso e teve que admitir.
O senador, na ausência de propostas para o país, resolveu escudar-se naquelas que já foram implementadas pelo atual governo para tentar, ainda que minimamente, recuperar o desgaste sofrido com as revelações de suas relações espúrias com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master, já liquidado pelo Banco Central em razão de inauditas e assombrosas fraudes cometidas contra o sistema financeiro, correntistas, fundos de pensão, entre outros.
O candidato, em entrevista ao STB News, afirmou que não pretende extinguir os pisos constitucionais da saúde e da educação, nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou, mesmo, promover uma reforma previdenciária. “Não, não pretendo”, disse cinicamente, para acrescentar após ter sido questionado se pretende “atacar algum desses temas”.
E acrescentou à sua ladainha hipócrita:
“A gente tem que fazer economia tampando os ralos de dinheiro público que estão escoando de corrupção por parte desse governo. Quem precisa de proteção do Estado, no meu governo, vai continuar protegido, porque são pessoas que precisam ter o mínimo de garantia”. Disse também ser favorável à manutenção da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Seus compromissos, como se pode ver, resumem-se à pauta já implementada pelo presidente Lula. O problema é confiar na palavra do representante, neste pleito, de Jair Bolsonaro, cujo governo fez o oposto do que ele finge agora se comprometer.
Senão, vejamos.
Durante seu governo, sob a batuta do ultraliberal Paulo Guedes, no Ministério da Fazenda, foi implementada a contrarreforma da Previdência mais cruel de nossa história. Com as novas medidas a aposentadoria passou a exigir idade mínima de 62 anos (mulheres) e 65 anos (homens).
Já o tempo mínimo de contribuição para trabalhadores da iniciativa privada subiu para 15 anos para mulheres e 20 anos para homens. O cálculo do benefício foi reduzido para 60% da média de todos os salários (com adicional de 2% por ano que exceder o tempo mínimo).
Além disso, o benefício da pensão por morte foi reduzido para 50% do valor da aposentadoria, mais 10% por dependente, não podendo acumular integralmente com outros benefícios do INSS. Já o tempo de trabalho em condições insalubres ou perigosas não pode mais ser convertido em tempo comum com acréscimo para antecipar a aposentadoria.
Como se nada disso bastasse, Jair Bolsonaro acompanhou seu antecessor, Michel Temer, o promotor do mais bestial e perverso golpe nos direitos trabalhistas e sindicais de todos os tempos, e manteve a política de reajustes reais do salário mínimo, deprimindo, com isso, as aposentadorias e pensões em geral.
Ainda no capítulo de ataques aos direitos sociais e trabalhistas, o pai do atual presidenciável instituiu o Programa Verde Amarelo, que previa novas modalidades de contratação com redução nos encargos patronais, mas limitou direitos, diminuiu o depósito mensal do FGTS e reduziu a multa por demissão sem justa causa para 20%. É fato que a medida provisória com tais medidas acabou perdendo validade no Congresso Nacional devido à sua nocividade, especialmente aos trabalhadores brasileiros.
Como se nada disso bastasse, Bolsonaro promoveu desonerações na folha de pagamento das empresas, defendendo a falácia de que isso estimularia o mercado de trabalho.
O senador também defendeu um “tesouraço” nos ministérios e nos impostos, mas não disse como pretende implementar as políticas públicas com a ideia recorrente do estado mínimo e a redução da arrecadação. E, ao atacar as “normas regulamentadoras”, revelou sua posição, já bastante conhecida, de que pretende entregar ao deus-mercado a regulação dos interesses públicos e sociais.
O candidato do clã continuou sua narrativa ultraliberal ao afirmar que “não tem outro caminho a não fazer ajuste fiscal” para baixar os juros, ou seja, o remédio, segundo ele, para combater os juros escorchantes mantidos atualmente pelo BC – açulados desde à época do governo Bolsonaro sob Campos Neto – é praticar uma política de cortes, que certamente seriam endereçados às políticas públicas que servem às necessidades mais vitais do povo brasileiro, como saúde, educação, ciência, defesa, entre outras áreas.
Mas não parou aí e defendeu aquilo que já é conhecido na posição do clã: o incentivo às políticas de privatização – as mesmas que promoveram um dos maiores crimes de lesa-pátria de todos os tempos, que foi a venda da Eletrobrás, símbolo da soberania energética do país, a grupos privados, inclusive estrangeiros.
Defendeu, ainda, a instituição de um regime de concessões na exploração do pré-sal na Margem Equatorial, numa clara sinalização de que a Petrobras, esteio fundamental do desenvolvimento soberano do Brasil, continuará na alça de mira das privatizações, como o foi no governo Bolsonaro.
Por fim, criticou o patamar de endividamento dos brasileiros, esquecendo-se que foi no governo de seu pai que fomentaram, como nunca, dois fatores que agravaram essa situação que atinge milhões de famílias no país: a estagnação salarial e o incentivo ao rentismo.
Ao fim e ao cabo, uma constatação inexorável: com o passivo deixado pelo chefe do clã no trato dessas questões econômicas e sociais, impossível acreditar na palavra de seu pupilo.
MARCO CAMPANELLA











