“É para ontem a união entre a sociedade civil e as FFAA na defesa da soberania nacional”, diz oficial da Marinha

Foto: Metalúrgicos/SJC

Segundo Farinazzo, os perigos que rondam o Brasil vêm dos EUA

Em entrevista ao Hora do Povo, o capitão de fragata Robinson Farinazzo, consultor, palestrante, seminarista da Marinha do Brasil, ex-piloto de aviões e ex-chefe do Departamento de Aviação da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha, afirmou que “o Brasil precisa fortalecer o sentimento de nacionalismo, como também informar à classe militar sobre os reais perigos que rondam o Brasil”. Em sua avaliação, “o maior deles são os EUA”.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

HP – Em que medida as ameaças de Trump à nossa integridade territorial, bem como de interferência em nossas eleições, têm como consequência o desenvolvimento, na sociedade, especialmente na juventude e nas FFAA, de uma consciência anti-imperialista?

RF – Eu acho que, à medida que o Trump aumentar as pressões, se os setores mais progressistas da sociedade conseguirem denunciar isso de uma boa maneira, clara e inteligível à população, vai despertar um sentimento de nacionalismo no brasileiro. Mas isso precisa ser trabalhado. Eu acho que toda a sociedade tem que se envolver nessa luta. Eu não estou vendo isso no momento. O pessoal ainda está com iniciativas muito tímidas.

HP – No caso das ameaças de Trump de invasão ao território nacional e interferência nas eleições se concretizarem, como o sr. avalia a reação das FFAA?

RF – Eu não acho que os Estados Unidos tenham a condição de fazer uma invasão maciça no Brasil.

Eles podem fazer ataques pontuais a facções criminosas do território brasileiro, o que é uma clara violação da soberania nacional, e também podem tentar um bloqueio contra os nossos principais portos, o que estrangularia a nossa economia.

Aí as FFAA vão ter que se posicionar. Eu acho que vai ser um teste de fogo para a União Nacional.

HP – O sr. acha possível que as FFAA se sintonizem com a retomada de uma estratégia econômica nacional desenvolvimentista?

RF – Eu acho que é possível que as Forças Armadas se sintonizem em uma estratégia nacional desenvolvimentista, mas o que eu falo sempre é que os setores progressistas precisam conversar com os militares. Não adianta ficar no casulo da tartaruga.

Tem que chamar os militares para conversa, para fóruns, workshops, congressos e discutir a ameaça à nossa soberania.

HP – Como o sr. avalia, para este momento grave, a possibilidade da construção de um clima de respeito mútuo entre as FFAA e a sociedade civil?

RF – A gente só vai ter um clima de respeito mútuo entre Forças Armadas e sociedade se houver diálogo. É necessário haver uma conversa, um entendimento. É necessário chamar para conversar os setores mais nacionalistas das Forças Armadas, mais envolvidos em conscientização nacional, conversar e apoiar esse setor para que eles cresçam cada vez mais. É necessário haver uma conscientização maciça da classe militar sobre os reais perigos que rondam o Brasil. O maior deles, eu não tenho dúvida, são os Estados Unidos.

HP – Quais os obstáculos a serem superados?

RF – O maior obstáculo a ser superado é a consciência nacional.

É necessário construir uma consciência nacional para os verdadeiros perigos, os verdadeiros inimigos do Brasil.

Mas, para isso, é preciso mudar muita coisa; é necessário mudar paradigmas.

O trabalho já está atrasado, era para ter começado ontem.

O maior obstáculo é a vontade de se fazer as coisas em ação: a prática de conscientizar as pessoas dos perigos do imperialismo e da necessidade da União Nacional.

HP – O Brasil tem condições de ter uma indústria de defesa avançada a médio prazo, sob controle nacional?

RF – Sim, mas, para isso, é necessário investimento, e antes do investimento vem a conscientização. É necessário também ocupar espaços no Congresso Nacional no sentido de produzir uma legislação amigável a essa indústria.

É um trabalho muito grande que nós temos que fazer e já estamos atrasados no preparo e na execução.

HP – Qual o significado da Avibrás, neste contexto?

RF – A Avibrás é a maior fábrica de foguetes e mísseis do Hemisfério Sul do planeta, então ela é a base para o desenvolvimento tecnológico militar do Brasil. Ela ocupa hoje o espaço que já foi da Engesa. A Embraer é importante, mas, por enquanto, ainda não é totalmente dedicada ao setor militar. A Avibrás, sim, é uma indústria puramente militar, não é dual.

Ela precisa de investimento e atenção. A Avibrás é uma empresa que precisa ser abraçada por todos os brasileiros.

HP – Que outras iniciativas o sr. considera imprescindíveis?

RF – Sobre iniciativas, acho que já falei todas as necessárias.

É necessário transformar a mentalidade. Um exército que sabe pelo que está lutando pode perder 100 batalhas e ganhar a guerra. Se não sabe por que luta, pode ganhar 100 batalhas e perder a guerra, como aconteceu com o exército americano no Vietnã.

O que eu aperfeiçoaria na formação dos oficiais é a conscientização.

Quando você conversa com um oficial iraniano ou russo, vê que eles têm uma noção clara das ameaças que pairam sobre seus países.

Aqui no Brasil, infelizmente, achamos que a OTAN é nossa aliada, que os Estados Unidos são nossos amigos. Não são. Isso precisa ser dito. É necessário um paulatino afastamento desses países.

HP – O que o sr. aperfeiçoaria em instituições militares como o ITA e o IME?

Quanto à excelência de ensino dessas instituições, o que precisa mudar no ITA e no IME é que muitas vezes a pessoa faz a escola já pensando em partir para uma carreira fora.

Isso tem que mudar. É necessário construir mecanismos que vinculem a formação a uma carreira em prol do Estado e da sociedade que pagou esse estudo.

HP – Na sua opinião, qual o papel da cultura na identidade nacional?

RF – Em especial, o cinema precisa ser incentivado, assim como o teatro e a música. Enfim, a cultura popular precisa ser incentivada. E é necessário resgatar o sentimento de brasilidade.

Temos que mostrar que a nossa história não fica devendo a nenhum povo, e que o Brasil tem que se orgulhar da construção que fizemos aqui, por imperfeita que seja.

Nós temos uma coisa que nenhum outro povo tem: uma capacidade muito grande de conviver, de se aceitar. O brasileiro tem isso melhor do que qualquer povo, e precisamos mostrar isso para a nossa sociedade.

HP – E dos heróis nacionais, que estão meio abandonados, principalmente os que lutaram pela unidade do território nacional, pela abolição, República, industrialização, direitos trabalhistas etc. Que tratamento devemos dar à sua memória?

RF – Os heróis são o espelho da sociedade. Exemplos de compromisso com a Pátria.

CARLOS PEREIRA

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