No segundo dia das cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo iraniano de 86 anos assassinado no primeiro dia do ataque conjunto dos EUA-Israel contra o Irã, multidões acorreram à Grande Mosalla em Teerã, o imenso complexo onde seu caixão está sendo velado, e as principais lideranças do país o homenagearam, entre elas o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf e o influente general Esmail Qaani.
A oração durou cerca de dez minutos e foi conduzida por Ja’far Sobhani, um aiatolá de 97 anos da cidade sagrada de Qom. Três filhos do aiatolá Ali Khamenei – Mostafa, Meysam et Masoud – rezaram ao lado de seu caixão no domingo, mas Mojtaba, o novo líder supremo, não esteve presente. Ele não é visto em público desde o bombardeio de 28 de fevereiro que o feriu e matou o pai e outros membros da família Khamenei.
O complexo religioso e as ruas do entorno ficaram apinhadas de pessoas emocionadas que vieram, com bandeiras iranianas e retratos do aiatolá, se despedir do líder que encabeçou a revolução iraniana por mais de três décadas. Com as temperaturas ultrapassando os 35°C, ao longo do trajeto foram oferecidos refrescos aos enlutados.
Domingo e segunda-feira foram declarados feriados em todo o país para permitir que os iranianos compareçam ao funeral público, sendo esperados 15 a 20 milhões de pessoas apenas em Teerã.
Após a procissão de segunda-feira na capital, o caixão de Khamenei irá passar por Qom, no norte do país e, em seguida, pelo Iraque, país vizinho de grande comunidade xiita. O sepultamento ocorrerá na quinta-feira (9) na cidade sagrada de Mashhad, nordeste, onde Khamenei nasceu. Na sexta-feira, delegações de dezenas de países prestaram suas últimas homenagens a Ali Khamenei.
O funeral de Ali Khamenei, originalmente marcado para março, foi adiado devido à guerra. Ao lado de seu caixão estão expostos os familiares que morreram com ele: uma de suas filhas, um genro, uma nora e uma neta de 14 meses.
“JURAMOS SEGUIR SEU CAMINHO”
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, declarou no domingo que o funeral do líder mártir não é uma despedida, mas um juramento de continuidade à sua luta.
Esse disse, ainda, que o luto manifestado pelo povo foi “a melhor prova da grandeza, dignidade e força do líder mártir da revolução”, em uma demonstração de “ira contra os Estados Unidos e Israel”.
Durante as cerimônias fúnebres, Pezeshkian expressou suas condolências à família do líder e a todos os seus entes queridos que perderam a vida nesta guerra pela honra e orgulho do Irã e do Islã.
Sobre a imensa participação popular nas cerimônias de despedida, o presidente disse que “nada é mais eloquente do que a linguagem das ações”.
“As pessoas podem dizer muita coisa; se eu quisesse dizer algo, no fim das contas, apenas alguns falantes de persa entenderiam, mas o comportamento e a presença das pessoas são compreendidos pelo mundo inteiro”, acrescentou.
O presidente enfatizou que, quando nos despedimos, não aceito essa interpretação; não se trata realmente de um adeus, mas sim de uma promessa de continuar no mesmo caminho.”
“Ao entrar nesta guerra, o inimigo alterou a geografia da região, mas, na realidade, fortaleceu a unidade e a coesão entre os muçulmanos e até aumentou a conscientização mundial sobre suas reivindicações de direitos humanos”, afirmou também o chefe de governo iraniano.
Ele enfatizou que o inimigo demonstrou nesta guerra que as questões de liberdade e direitos humanos que invoca não passam de mentiras. “Os perpetradores de todos os crimes cometidos na região são os sionistas, que, é claro, os executam com o apoio dos Estados Unidos e dos países europeus”, afirmou.
Também em meio às procissões fúnebres, o ministro interino da Defesa iraniano, Majid Ibn al-Reza, advertiu Washington que Teerã daria uma resposta “necessária e decisiva” caso os compromissos sob o acordo de cessar-fogo – que destacou ter sido firmado unicamente para preservar a estabilidade regional – fossem violados, conforme noticiou a agência de notícias ISNA. Neste sábado, a Casa Branca informou que as negociações devem ser retomadas somente depois das celebrações, que terminam em 9 de julho.
Al-Reza reforçou as denúncias de que os bombardeios visaram intencionalmente centros civis, hospitais, universidades, escolas, infraestrutura industrial e locais históricos, provocando o martírio do líder supremo e dos principais comandantes militares do país.
Por sua vez, o Ministério das Relações Exteriores do Irã definiu a busca pela justiça contra os Estados Unidos e Israel “uma causa duradoura”, enquanto multidões seguem exigindo “justiça” contra os carniceiros de Washington e Tel Aviv.
As cerimônias fúnebres, com seu significado de unidade nacional, ocorrem em meio a negociações com os EUA após a assinatura de um protocolo de acordo no mês passado para tentar encerrar o conflito. O primeiro dia do funeral coincidiu com as celebrações do 250º aniversário dos Estados Unidos.
TRUMP SE DIZ “CHOCADO”
Em entrevista ao portal norte-americano Axios, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou ter ficado “chocado” com a comoção dos iranianos em Teerã. “Eu pensei que as pessoas o odiassem”, disse o republicano.
Depois acrescentou ao portal que poderia “eliminar todos” os presentes no funeral de Khamenei, mas que “não restaria ninguém para negociar” caso decidisse por isso.
Na última quinta-feira (02), durante os preparativos para os cortejos fúnebres no Irã, o comandante militar da Sede Central de Khatam al-Anbiya, Ali Abdollahi, advertiu a EUA e Israel para “evitarem qualquer erro de cálculo e pensarem na dura retaliação que nossas forças armadas fariam a qualquer ameaça e agressão contra nosso país”.











