O novo tarifaço de Trump, por Paulo Kliass

Donald Trump. (Foto: Molly Roberts/White House/Via Fotos Públicas)

“Com o Plano Brasil Soberano, a intenção é ajudar as empresas afetadas, por meio da disponibilização de crédito e financiamento do BNDES, para evitar o desemprego e a redução das atividades”

PAULO KLIASS*

Passado mais de um ano desde o primeiro estardalhaço anunciado por Donald Trump no início de seu segundo mandato quanto à aplicação de tarifas para todo o mundo, a trajetória do Presidente estadunidense tem sido marcada pela inconsistência e por seguidos movimentos de avanços e recuos. Essa sequência de idas e vindas, de ameaças e encolhimentos, tem sido a marca desta gestão à frente da Casa Branca. Muitos analistas apontam para a existência de uma estratégia em tal conduta, não caindo na avaliação fácil de que tudo não passaria de trapalhadas, incompetência ou fragilidade. A cada novo desafio, ele avança bastante suas peças no tabuleiro logo de início e depois vai recuando ponto a ponto para tentar se estabelecer com alguma firmeza no jogo.

No caso das relações com o Brasil não tem sido muito diferente. Em 2025 o governo norte-americano anunciou um conjunto de medidas tarifárias contra praticamente todos os países do globo, incluindo os seus aliados mais tradicionais. Mas as medidas prejudicando a economia brasileira não guardavam nenhuma relação com aspectos da dinâmica econômica. Os Estados Unidos guardavam, já à época, um superávit na balança comercial com nosso país. “Isso significa que o valor total de suas exportações para o Brasil era superior ao das nossas exportações para lá.”. Ou seja, em tese, não caberiam medidas como a imposição de alíquotas sobre nossas vendas para eles.

Ocorre que a gestão Trump tem mantido uma cruzada sem limites contra o multilateralismo e contra a Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, a Organização Mundial do Comércio (OMC) foi praticamente ignorada pelos Estados Unidos e teve suas contribuições financeiras do maior Estado membro quase zeradas. Caso a inciativa norte-americana contra o Brasil seja analisada pelas instâncias da OMC, muito provavelmente o processo não seria aceito. Afinal, os argumentos utilizados não residem no campo das relações comerciais. São demandas e críticas de natureza geopolítica, política e de dimensões que escapam à dinâmica de comércio bilateral em sentido estrito. O exemplo maior foi a exigência da libertação de Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e mantido preso seguindo os ritos de nossa estrutura legal e institucional.

NOVO TARIFAÇO: MAIS DO MESMO DO TRUMPISMO

Mais à frente, ainda em setembro de 2025, ocorre o encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, momento em que as tensões pareciam ter sido reduzidas e foi criado um “clima” entre ambos. O próprio Presidente brasileiro e sua assessoria criaram uma certa ilusão de que haveria espaço para mudar a postura de seu correspondente. Mas o fato concreto é que o trumpismo sempre enxergou no bolsonarismo seu aliado estratégico e preferencial para o caso brasileiro. A aproximação com Lula não deveria mesmo durar muito. Os Estados Unidos haviam definido a porção meridional do continente como área de extrema importância geopolítica e nova doutrina estabelecida no ano passado confirmava esse objetivo.

Eles passaram a atuar de forma mais incisiva nos processos políticos internos dos países da América do Sul, apoiando candidaturas de direita e extrema direita, além de sequestrarem o presidente legitimamente eleito da Venezuela, Nicolas Maduro, e ameaçando uma intervenção mais direta em Cuba. O mapa ao longo das duas primeiras décadas deste século apontava um tom “rosa” na região, com diversos governos progressistas, como Lula no Brasil, Chavez na Venezuela, Mujica no Uruguai, Kirchner na Argentina, Morales na Bolívia, Petro na Colômbia, Correia no Equador, Lugo no Paraguai e Boric no Chile. Mas agora o quadro mudou radicalmente, com a permanência apenas do Brasil e do Uruguai apresentando ainda algum grau de contradição com as orientações emanadas de Washington.

Assim, o que se verificou ao longo deste ano foi também uma reversão na política de Trump com Lula. Os pleitos de novas medidas tarifárias seguiam em fase de estudos e de análise no interior do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, da sigla em inglês) daquele país. E, mais recentemente, as novas decisões foram anunciadas, pegando de surpresa os principais analistas do tema. As novidades surgem em um ambiente de reaproximação pública e explícita de Trump com o bolsonarismo, ao que tudo indica abandonando a “química” que ele havia estabelecido com Lula.

CRUZADA CONTRA O BRASIL, LULA, PIX E TUDO O MAIS

Desta feita, os argumentos não mais incluem a libertação do ex-presidente preso e condenado, mas mantêm reclamações relativas ao PIX, ao desmatamento, ao suposto desrespeito de direitos de propriedade e outros fatos que não se sustentam perante qualquer espaço sério de debate e negociação de natureza comercial. Até mesmo o economista Paul Krugman, de perfil conservador e ganhador do Prêmio Nobel, publicou um artigo criticando pesadamente o presidente norte-americano em sua cruzada contra o Brasil. Para ele, as novas tarifas não vão funcionar e fortalecerão Lula. E ele vai ao ponto central da questão: “De certa forma, a administração Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia”.

O prazo para entrada em vigor do novo tarifaço é 22 de julho. No entanto, sabemos que o respeito a calendários e etapas previamente definidas não é exatamente uma marca da gestão de Trump. É possível que haja mais um recuo, uma vez que as forças vinculadas ao bolsonarismo identificam na medida mais um desgaste para o seu candidato ao Palácio do Planalto. Flávio tem enfrentado uma série de dificuldades internas em sua campanha e a marca de “tariflávio” é tudo que ele desejaria evitar. Afinal, ele deu declarações favoráveis à medida no ano passado, em seu intento de manter uma boa relação com Trump. O desgaste foi evidente com acusações de falso nacionalista e de ser vendido aos interesses dos norte-americanos. Assim, o raciocínio seria de que o novo tarifaço apenas turbinaria ainda mais a candidatura de Lula. Por isso, não está descartada uma jogada em que Flávio solicite, mais uma vez, o adiamento das medidas para depois das eleições.

A nova lista de produtos exportáveis pelo Brasil a serem submetidos à alíquota de 25% mantém um longo anexo de exceções, contendo mais de 2 mil itens. São bens que têm um peso sensível na cesta de consumo dos cidadãos daquele país e que podem comprometer inclusive a própria inflação interna. Por exemplo, no café da manhã típico dos norte-americanos, encontramos o suco de laranja, o café e o bacon oriundos do Brasil. Apesar de a carne suína não ter sido excluída da lista, ainda permanecem mais de 2 mil itens exportáveis que não sofrerão a nova imposição tarifária. A maioria foi objeto de solicitação de entidades empresariais dos próprios Estados Unidos, a exemplo de componentes aeronáuticos, celulose, açúcar, dentre tantos outros.

NÃO HÁ ARGUMENTO ECONÔMICO PARA JUSTIFICAR O TARIFAÇO

Além disso, estudos apontam que a longa lista de exceções faz com que a incidência da nova alíquota se restrinja a um universo de bens e produtos que representam apenas 18% nossas exportações para aquele país. No entanto, o impacto deverá ser mitigado pela insistência do governo brasileiro e das entidades empresariais em continuar negociando, além da colocação em marcha de uma nova etapa do Plano Brasil Soberano. A intenção é ajudar as empresas afetadas, por meio da disponibilização de crédito e financiamento do BNDES, para evitar o desemprego e a redução das atividades das mesmas.

O governo brasileiro pode lançar mão da Lei da Reciprocidade para se defender dos ataques injustos dos Estados Unidos. No entanto, a possibilidade de escalada da temperatura e de outras medidas por parte de Trump também sugere alguma cautela. Além das possibilidades de aplicar tarifas de importação sobre produtos originários daquele país, existem outras alternativas também fora do âmbito estritamente comercial que podem se revelar mais efetivas para convencer a administração estadunidense a recuar. O governo brasileiro poderia impedir a atuação de empresas norte-americanas de atuarem na exploração de terras raras, a exemplo da mina Serra Verde, em Goiás, que foi comprada recentemente por um grupo originário daquele país. O mesmo poderia se dar pela interdição de exportação de tais minerais com aquele destino.

Outras possibilidades indicam a atuação na remessa de lucros das filiais brasileiras das chamadas “big techs” e de outras empresas do ramo da informática e meio digital. A grande maioria delas têm suas sedes nos Estados Unidos e contam com grande influência no interior do governo Trump. O governo e a sociedade brasileiras também desembolsam valores exorbitantes pelo pagamento dos direitos de propriedade a tais conglomerados pelo uso dos produtos e serviços de tecnologia digital.

É FUNDAMENTAL DEFENDER NOSSA SOBERANIA.

A entrada em vigor das alíquotas do novo tarifaço de Trump deve ser objeto de muita atenção de Lula e seu governo. O Brasil deveria adotar uma postura sólida na defesa da soberania nacional e não se render a eventuais cantos de sereia emitidos da outra parte. As movimentações recentes evidenciaram que a Casa Branca tem seus aliados preferenciais na cena política brasileira e vão fazer de tudo para impedir o quarto mandato de nosso presidente, com o fornecimento de ajuda explícita a Flávio Bolsonaro e seus aliados. Estamos a pouco mais de 2 meses do pleito de outubro e a intenção de tumultuar o ambiente eleitoral parece evidente. O governo brasileiro deve ter a tranquilidade necessária para não se deixar enredar em provocações da extrema direita estadunidense, mas também deve manter a firmeza para defender os interesses nacionais a todo o custo.

*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal

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