De acordo com a reportagem, recém-empossado como diretor financeiro, André Covre reagiu às irregularidades: “Isso é fraude”
Dias após tomar posse do cargo de diretor financeiro da Americanas, André Covre, ao ter acesso a operação contábil da varejista, teria classificado o esquema como fraude e advertido: “Vocês vão ser processados e presos”. A reação do ex-diretor da Americanas foi divulgada pela coluna de Mirelle Pinheiro, do Portal Metrópoles, que expõe os bastidores que antecederam a decisão da Americanas de comunicar ao mercado o rombo contábil, apurado até o momento como o maior escândalo de fraude na história do setor varejista no país.
Segundo uma decisão da Justiça Federal, baseada em representação da Polícia Federal, à qual a coluna de Mirelle Pinheiro afirma ter tido acesso, o então diretor financeiro, André Covre, em uma reunião no início de janeiro de 2023, “recebeu apresentação preparada pelo então diretor Marcelo Nunes sobre as operações contábeis sob investigação, e, ao tomar conhecimento do conteúdo, interrompeu a reunião, levantou-se e afirmou: “Isso é fraude”.
Em seguida, apontando para os demais presentes, teria dito: “Vocês vão ser processados e presos”, condenou André, que havia assumido o cargo por indicação de Jorge Paulo Lemann – controlador da companhia ao lado de Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira.
Segundo a representação da Polícia Federal, o então presidente da Americanas, Sergio Rial, teria pedido para que Covre mantivesse a calma e evitasse conclusões precipitadas.
Para a PF, segundo a coluna, a reação de Covre marcou uma mudança na condução do caso dentro da companhia: a partir daquele momento, as práticas deixaram de ser tratadas internamente como possíveis ajustes ou inconsistências contábeis e passaram a ser encaradas como potenciais ilícitos.
“Na semana seguinte, em 11 de janeiro, a Americanas divulgaria fato relevante ao mercado informando a existência das chamadas “inconsistências contábeis”, que posteriormente deram origem à investigação da PF e do Ministério Público Federal sobre suposto esquema de fraude que teria perdurado por mais de uma década”, diz outro trecho da reportagem.
De acordo com a decisão judicial, a Polícia Federal sustenta que André Covre chegou à Americanas sem ter o conhecimento das manipulações contábeis e foi apresentado à real situação financeira da empresa apenas naquela reunião. O órgão policial também avalia que as irregularidades consistiram em diferentes mecanismos que, em tese, ocultavam o verdadeiro endividamento da companhia e inflavam artificialmente indicadores financeiros da empresa – o que favorecia as negociações de ações da mesma.
Em 11 de janeiro de 2023, o então CEO Sergio Rial e o diretor financeiro André Covre comunicaram a decisão de renúncia de seus cargos, mesmo dia em que a Americanas divulgou ao mercado o que classificou como “inconsistências em lançamentos contábeis” para descrever o rombo, que na época foi estimado de forma preliminar em cerca de R$ 20 bilhões. Pouco mais de uma semana depois, com o passivo recalculado em mais de R$ 40 bilhões, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial.
Em resposta à coluna de Pinheiro, “a assessoria de Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Eduardo Saggioro Garcia reafirma que as diversas investigações que vêm sendo conduzidas ao longo de mais de 3 anos (nas quais foram examinados milhares de documentos, dados, e-mails, mensagens e foram celebrados 4 acordos de colaboração premiada) são categóricas em demonstrar que os acionistas de referência e o Conselho de Administração eram sistematicamente enganados pela antiga Diretoria, como expressamente reconhecido pelo Ministério Público Federal, pela CVM e pelo Comitê Independente, além da própria Polícia Federal”.
Os advogados também afirmam que “a suposição de que os acionistas de referência sabiam da fraude não encontra qualquer amparo na realidade dos fatos e contraria a lógica econômica: entre 2013 e 2022, os acionistas de referência receberam cerca de R$ 700 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio, mas aportaram na Companhia, no mesmo período, mais de R$ 2,3 bilhões – ou seja, cerca de R$ 1,6 bilhão a mais do que receberam. Após a descoberta da fraude, aportaram ainda R$ 12 bilhões para garantir que a Companhia se recuperasse e continuasse a exercer suas funções econômicas e sociais”.
“Ao contrário dos ex-diretores responsáveis pela fraude – que venderam ações da Companhia pouco antes da revelação do escândalo, em operações que somaram cerca de R$ 250 milhões, e que receberam centenas de milhões em bônus com base em resultados falsificados -, nenhum acionista de referência vendeu qualquer participação relevante na Companhia”.










