EUA socorre iene para evitar que Japão desove ‘treasuries’ em massa e juro americano exploda

Washington socorre iens ao tentar evitar crise com derretimento dos títulos (AFP)

Juro de longo prazo (T-10) já ronda 4,7%, o patamar da véspera da crise de 2008; Japão é o maior detentor de títulos do Tesouro americano

A ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, confirmou nesta segunda-feira (3) que Tóquio realizou uma intervenção cambial coordenada de compra de ienes em conjunto com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e o secretário Scott Bessent para conter a desvalorização excessiva da moeda japonesa, que atingiu o menor valor em 40 anos, 163 ienes por dólar, encarecendo as importações em um momento de quase colapso do fornecimento de petróleo sob a guerra de escolha de Trump contra o Irã e fechamento do Estreito de Ormuz.

Em apenas 50 minutos na sexta-feira, a moeda japonesa se fortaleceu inesperadamente, passando de 163 para 158 ienes por dólar, após meses de forte desvalorização. É a primeira intervenção coordenada entre EUA e Japão para comprar ienes desde 1998 (crise da Ásia e crise da Rússia).

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Besset, também confirmou a ação em um comunicado, dizendo: “As ações coordenadas de câmbio estrangeiro de sexta-feira combateram movimentos desordenados de ienes.”

A bem da verdade, o socorro dos EUA ao iene é um socorro ao dólar, já que o Japão é o maior detentor de títulos do tesouro americano (treasuries), US$ 1 trilhão, e se Tóquio se visse forçado a fazer uma desova em massa dos treasuries para comprar ienes, provocaria uma indesejável alta nos rendimentos (juros) dos títulos de 10 anos, que estão em 4,68%, e de 30 anos, a 5,22%, agravando a já tensa situação fiscal e de endividamento dos EUA – além da pressão sobre a bolha da IA em Wall Street.

Nas palavras da Reuters, “o governo americano teme ainda o impacto de uma eventual venda massiva de títulos americanos pelo governo japonês — o que poderia elevar indesejavelmente os rendimentos dos papéis do Tesouro”.

CARRY TRADE, IA E ORMUZ

Havia ainda a ameaça de uma crise no “carry trade” – o empréstimo (alavancado) a juros negativos no Japão para aplicar em ativos que pagam juro alto – boa parte disso, segundo as más línguas, apostado em ações infladas de IA em Wall Street, em que sete corporações são 37% do índice Nasdaq e quase um terço do S&P 500.

E que na semana anterior viveram o susto na Coreia, quando as ações das empresas Samsung Eletronics e SK Hynix, que produzem os chips de memória para a IA, desabaram, após o anúncio de que a China acabou de lançar sua primeira máquina de litografia de chips DUV, do sucesso da fabricante chinesa de memórias CXMT na Bolsa de Shangai e da revelação da IA chinesa de código aberto e barata de 2,8 trilhões de parâmetros por milhão de tokens Kimi K-3, abalando a IA de hiperescala ianque, baseada em código fechado e febre de data centers.

Segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), o total desses empréstimos em yens espalhados globalmente fica entre US$ 250 bilhões e US$ 500 bilhões; incluídos derivativos cambiais, swaps e assemelhados, a montanha de apostas do carry trade pode chegar a algo entre US$ 4 trilhões e US$ 20 trilhões de acordo com a BCA Research.

E com o Japão importando do Oriente Médio 95% do petróleo que consome, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz em consequência da guerra de Trump contra o Irã, também por esse lado sua economia seguirá sob garrote.

Um portal alt-right que acompanha o sistema financeiro e política, o Zero Hedge, noticiou a intervenção: “o maior carry trade do mundo acabou de piscar”. Os EUA – acrescentou – “acabaram de se juntar ao Japão na intervenção do câmbio pela primeira vez desde 1998. Mas a verdadeira história não é USD/JPY… É a $trillions que está no mercado global de carry trade.”

US$ 59 BILHÕES DE UMA TACADA

Dados do Banco Central japonês indicam movimentação de aproximadamente US$ 59 bilhões para sustentar o iene. Para evitar a venda forçada de títulos do Tesouro pelo Japão, o Banco do Japão usou a Instalação de Recompra Permanente (SRF) do Fed para Autoridades Monetárias Estrangeiras e Internacionais (FIMA) em vez de vender títulos do Tesouro. No FIMA SRF, bancos centrais estrangeiros aprovados podem colocar seus títulos do Tesouro como garantia para dinheiro em dólares.

O Tesouro americano, por sua vez, vendeu euros para adquirir ienes através do Federal Reserve (Fed) de Nova York, utilizando os bancos de investimento Goldman Sachs e Morgan Stanley como intermediários.

Como observou o portal Naked Capitalism, se o Japão fizesse uma venda forçada de treasuries, “isso aumentaria os juros e encareceria o já elevado custo do financiamento da dívida americana em um momento onde o tema é politicamente explosivo e macroeconomicamente sensível para Washington”.

“Um relatório recente do GAO, o órgão de auditoria do Congresso americano, alertou que a deterioração das perspectivas fiscais e períodos de tensão podem enfraquecer a demanda por títulos do Tesouro e o papel global do dólar, aumentando os riscos para as finanças públicas. Nesse contexto, evitar vendas por parte do maior credor estrangeiro não é um detalhe menor e sim uma prioridade estratégica.”

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