Convocada por mais de 350 movimentos sociais, a população tomou as ruas de Buenos Aires e mais 70 cidades para denunciar a política de “ajuste fiscal” do governo que comprimiu salários de trabalhadores e aposentados e passou a tesoura nos recursos da educação, da saúde pública e das pessoas com deficiência
Mais de 70 mil pessoas se somaram à “Marcha da bronca” em Buenos Aires, sábado (19), “para derrotar Milei e seus cúmplices com o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, denunciando a política econômica de “ajuste fiscal” que comprimiu salários de trabalhadores e aposentados, e passou a tesoura nos recursos da educação, da saúde pública e das pessoas com deficiência. O termo “bronca” é usado no espanhol rioplatense e no sul do Brasil para definir raiva, revolta ou profunda irritação contra injustiças e abusos de poder.
Batizado em alusão à famosa música de protesto de Miguel Cantilo, o ato ganhou peso e foi além da capital, se estendendo por mais de 70 cidades argentinas, incluindo Rosário, Córdoba, Santa Fé, Mendoza, Neuquén e Rio Gallegos, configurando uma das manifestações mais expressivas desde a chegada de Milei ao poder em dezembro de 2023.
Mais de 350 organizações sindicais, estudantis, sociais e culturais participaram da convocatória, num esforço que reuniu nomes como Myriam Bregman e Gabriel Solano, referências da oposição argentina. A mobilização foi precedida por uma etapa de articulação: um encontro na Universidade Tecnológica Nacional de Villa Domínico reuniu mais de 40 mil militantes, com representantes políticos de ao menos dez províncias, o que deu à marcha um caráter federal, e não apenas portenho.
O trajeto seguiu um roteiro simbólico: os manifestantes se concentraram às 15 horas no Congresso para depois marchar até a Casa Rosada, sede do governo. Encabeçaram a marcha os organismos de direitos humanos, as organizações estudantis e socioambientais e a Coordenadora de Aposentados, que se manifesta semanalmente em frente ao Congresso; atrás deles vieram os sindicatos de trabalhadores e as agremiações políticas de esquerda responsáveis pela convocatória.
No ato central, foi lida uma declaração conjunta que definiu o protesto como a expressão de uma “bronca profunda”, nascida em meio à desigualdade, abusos e “mentira organizada”.
“MILEI GOVERNA PARA A CASTA ECONÔMICA”
Em entrevista ao Página/12, a deputada nacional pela Frente de Esquerda, Myriam Bregman, avaliou que a expressiva adesão ao protesto se deveu ao fato de que “gera muita revolta o fato de Milei ter mentido tanto”, pois “ficou muito claro que essa história de ‘casta’ era conversa fiada”. “Ele veio para governar em prol da principal casta que este país possui, que é a casta econômica — aquela que se beneficiou da ditadura, que lucrou com o golpe militar e que sempre sai ganhando”, acrescentou. Bregman concentrou sua fala nos cortes ao setor público: denunciou o desfinanciamento das universidades, da saúde pública e da cultura, e dirigiu-se diretamente às centrais sindicais, pedindo que convocassem uma greve geral “para derrotar Milei e todo o seu plano”.
Para além da pauta política, quem foi às ruas também levou denúncias concretas do cotidiano como o fechamento em massa de empresas – mais de 30 mil, segundo os organizadores – e as dívidas impagáveis contraídas por boa parte da população argentina.
O orçamento de 2027 proposto por Milei colocou mais lenha na fogueira, impulsionando o protesto, pois busca retirar benefícios de pessoas com deficiência e cortar o financiamento de universidades públicas e seus servidores. Esse ataque às instituições, que se transformou em impasse legislativo, impulsionou os manifestantes e deve seguir na pauta: uma greve nas universidades estava prevista para a próxima terça-feira (22), com nova mobilização marcada para outubro.
Enquanto o documento lido na Praça de Maio repudia os “cúmplices”, condena o “plano de guerra contra o povo trabalhador”, cobra a saída do FMI e a submissão ao programa de ajuste fiscal, o governo Milei alega que adota este receituário pois há evidências de que o remédio, embora seja amargo, está funcionando.
ENFRENTANDO O “PLANO DA MOTOSSERRA”
Os trabalhadores do Hospital Garrahan, um dos primeiros a enfrentar o “plano da motosserra” – que iniciaram sua luta em meados de 2024, em meio a uma profunda crise salarial, enfatizaram que “Milei tem um plano de ajuste do qual a saúde pública não faz parte”. “Eles consideram isso um gasto, e é nessa perspectiva que temos defendido nossa posição e lutado em todo país, junto com todos os prestadores de serviços de saúde pediátrica”, afirmou a secretária-geral da Associação de Profissionais e Técnicos do Hospital Garrahan, Norma Lezana.
Representando a Associação Sindical Docente da Universidade de Buenos Aires, Laura Carboni, destacou a indignação da comunidade universitária, pois “há quase um ano lutamos pela implementação de uma lei. Isso sem falar que já estamos há três anos batalhando pelo financiamento da universidade e, claro, para que nos paguem o que nos é devido”.
Como relataram vários meios de comunicação, “se Milei tivesse dado uma volta pelo local, teria visto todos os setores que puniu e atacou sistematicamente durante seus quase três anos de governo”.











