Indústria naval inicia forte recuperação após estímulos do governo Lula

Transpetro: divulgação

Um novo ciclo de investimentos do Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante foi aprovado neste mês. Setor, que já foi o segundo do mundo, conta novamente com 90 mil trabalhadores

O governo Lula não aceita que a indústria naval brasileira, que já foi uma das maiores do mundo, continue estagnada como vem ocorrendo nos últimos anos. O presidente da República defende que a Petrobrás estimule a construção naval com encomendas feitas dentro do Brasil.

NOVO CICLO DE INVESTIMENTOS

Neste sentido, um novo ciclo de investimentos do Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante foi aprovado neste mês e os projetos saíram do papel. Será feito o financiamento de uma carteira com 15 projetos voltados à construção, modernização e reparação de embarcações, além de outros empreendimentos ligados à indústria naval. As informações são do portal Sputnik Brasil.

A descoberta do pré-sal e a necessidade de fortes investimentos da Petrobrás para a exploração da nova fronteira econômica do Brasil no mar, a partir de 2006, geraram um boom na indústria naval brasileira, que ficou responsável pela produção de navios, grandes plataformas e outros equipamentos.

Neste mês, o conselho diretor do FMM aprovou 15 projetos voltados à construção, modernização e reparação de embarcações, além de investimentos na infraestrutura portuária. Entre os projetos estão a produção de cinco navios gaseiros para o transporte de gás liquefeito de petróleo (GLP) pela Petrobras e navios-patrulha para a Marinha.

Estaleiros apostam em retomada após uma década de crise. Com atividades iniciadas em 1845, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o Estaleiro Mauá é considerado a unidade privada mais antiga em operação no Brasil e um dos principais símbolos da trajetória da indústria naval no país. Essa história se reflete em seu portfólio, que reúne mais de 160 embarcações construídas e quase 640 reparadas. Em seu auge mais recente, a empresa chegou a ter mais de 5 mil funcionários, disse o executivo da empresa, Miro Arantes, em entrevista ao Sputnik Brasil.

SEGUNDA MAIOR DO MUNDO

O país chegou a ocupar a posição de segundo maior produtor de navios do mundo em 1973, o setor chegou a empregar mais de 82 mil pessoas de forma direta em 2014. Na época, o Brasil contava com quase 40 estaleiros, principalmente no Rio de Janeiro. Porém, a partir de 2015, a combinação da crise econômica, e a queda no preço do barril de petróleo reduziram drasticamente as encomendas ao setor e deu início a um novo ciclo de retração.

Em apenas dois anos, metade dos trabalhadores foi demitida e toda a cadeia produtiva foi afetada, com o volume da produção industrial caindo de R$ 6,8 bilhões em 2014 para R$ 1,97 bilhão em 2016, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O presidente Lula se esforçou para a retomada do setor com a mesma fórmula de outrora: encomendas da Petrobrás, injeção de recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) e financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Com a queda da atividade do setor, em 2020, o número de trabalhadores caiu para 700. “Hoje, temos 1.400, ou seja, dobramos a quantidade de postos de trabalho. Ainda estamos muito longe do que já tivemos, mas esse resultado é fruto de um trabalho de organização, planejamento e de um objetivo, que é voltar a construir navios. Ainda não conseguimos. Hoje atuamos com manutenção, reparo naval e construção de estruturas offshore”, destacou.

CRISE ABALOU SETOR

Diante das dificuldades financeiras, o estaleiro entrou em recuperação judicial em 2024, mas conseguiu negociar todos os passivos tributários para conquistar a certidão negativa de débitos, considerada fundamental para viabilizar a retomada das atividades. “Todos os passivos estão sendo pagos em dia e em volumes enormes. Estamos investindo em novas máquinas de solda, treinamento de pessoal, um sistema de planejamento mais moderno e também em certificação. A expectativa é de que, neste ano ou no início de 2027, possamos nos habilitar e voltar a apresentar propostas para a construção de navios.”

Para o executivo, os números mostram sinais de uma “forte” retomada do setor, com a expectativa de encerrar um ciclo de baixa de uma década que levou ao fechamento de diversos estaleiros e fez com que muitos entrassem em recuperação judicial, como ocorreu com o Mauá.

“Não estamos falando de política aqui, mas de uma realidade. O governo do presidente Lula foi o que deu incentivo à política de conteúdo local, que prevê um percentual de construção dos projetos na indústria naval brasileira. Isso também é comum em outros lugares do mundo, mas no Brasil não há nenhuma lei de proteção”, afirmou.

Arantes explica que a retração do setor coincidiu com uma política de maior abertura para a importação de navios, equipamentos e plataformas, sem contrapartidas para a indústria nacional. Como exemplo, o executivo cita a recente licitação de mais de 20 embarcações para empresas prestadoras de serviços à Petrobras, além de mais de dez navios para a Transpetro e das corvetas encomendadas pela Marinha do Brasil.

RETOMADA

“Temos um quadro muito melhor do que há três ou quatro anos, sem sombra de dúvida. Mas é claro que precisamos de um tempo de mobilização, maturação e curva de aprendizado. Há 15 anos, estávamos em um ponto de competir com a indústria naval da Coreia do Sul. Eles continuaram e nós paramos […]. Esses ciclos são terrivelmente maléficos para a nossa indústria, e esperamos que essa retomada tenha continuidade. Temos que ser competitivos para exportar e também conquistar clientes de fora comprando do Brasil”, enfatiza.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro (Sindimetal-Rio), Melquizedeque Cordeiro, afirma que a política do governo é fundamental para a retomada da indústria. Na capital fluminense, porém, a situação ainda é desafiadora: todos os estaleiros permanecem fechados ou em recuperação judicial.

É o caso do Estaleiro Inhaúma, que chegou a projetar contratos de quase US$ 2 bilhões (R$ 10,2 bilhões) com a Petrobrás e, com a crise que atingiu o setor, encerrou as atividades em 2016. No ano passado, uma multinacional das Filipinas assumiu o controle do fundo que detém a posse do imóvel de 32 hectares, na região do Caju. “Foi adquirido para ser um porta-contêineres e havia até a previsão de aterrar os diques, mas, com a intervenção do nosso sindicato, esse projeto não avançou”, relata Cordeiro.

INVESTIMENTOS CRESCENTES

Já o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Rocha, afirma que a retomada das atividades do setor já é uma realidade, impulsionada pela construção de embarcações e módulos para plataformas da Petrobrás, por empresas prestadoras de serviços à estatal e também pela Transpetro.

Segundo o dirigente, os projetos aprovados pelo Conselho Diretor do FMM contam com um volume de recursos muito superior ao registrado antes de 2023 e beneficiam estaleiros em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Amazonas, Pará e Bahia.

“Assim, a retomada da construção de embarcações, barcaças e balsas no Brasil não é mera possibilidade, e sim uma realidade […]. Mas o segmento de grandes navios, dos portes Panamax e Suezmax, tem potencial para a viabilidade em médio prazo, à medida que os grandes e modernos estaleiros brasileiros se recuperem das dificuldades que tiveram que enfrentar depois de 2014 e que levaram vários ao recurso da recuperação judicial para sobreviver à falta absoluta de encomendas de navios de grande porte”, diz.

Conforme o Sinaval, a indústria naval já recuperou os empregos perdidos após a crise iniciada em 2014 e empregava cerca de 90 mil trabalhadores em junho deste ano, acima dos 82,4 mil registrados em dezembro de 2014.

Para atender à demanda, também foram mobilizados, junto ao governo federal, novos cursos de formação em unidades do Senai de diversos estados brasileiros. Segundo Rocha, os próprios estaleiros voltaram a investir na capacitação de trabalhadores, enquanto universidades federais e instituições como o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) ofertam cursos ligados à engenharia e à formação técnica naval.

SETOR DE DEFESA

“A cadeia de fornecedores de equipamentos e serviços aos estaleiros se retraiu nos últimos anos, mas está voltando a se recuperar. Essa cadeia está gradativamente sendo fortalecida, e nossa expectativa é que os fornecedores em várias regiões do país atendam aos poucos as demandas dos estaleiros, o que contribuirá para o aumento do conteúdo local dos projetos”, complementa.

Com mais de 7 mil quilômetros de litoral distribuídos por 17 estados, além da maior rede hidrográfica do mundo em volume de água, o Brasil reúne condições naturais que tornam a indústria naval estratégica não apenas do ponto de vista econômico, mas também para a soberania nacional. Para além do potencial econômico que esse número representa para o setor naval, o professor Levi Salvi cita a importância de uma indústria forte também para a soberania nacional.

“A autonomia na construção naval é estratégica para qualquer país e fundamental para o Brasil, que possui uma extensa região costeira e uma grande rede hidrográfica. A integração com a Marinha permitirá maior especialização e autonomia na construção e nos reparos de embarcações de defesa para uso nas regiões costeiras e na Amazônia Azul”, enfatiza.

A avaliação é compartilhada pelo dirigente do Estaleiro Mauá, Miro Arantes, que afirma que uma indústria naval forte é um componente essencial da capacidade de defesa do país. “Um país desse tamanho precisa ter uma indústria naval forte também por questão de soberania. Temos que ter condições de defender nossas plataformas ao longo da costa e o nosso mar territorial.”

Com informações de Sputnik Brasil

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