Governador foi questionado por segurança, regulação e obras, mas reagiu destacando investimentos, expansão da educação e parceria com Lula
O primeiro debate entre os candidatos ao governo da Bahia nas eleições de 2026 foi marcado pelo confronto direto entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Ronaldo Mansur (PSOL) também participou do encontro promovido pela Band Bahia na noite deste domingo (9).
Realizado em Salvador e mediado pela jornalista Carolina Rosa, o debate teve como principais temas segurança pública, saúde, educação, combate à violência contra a mulher, infraestrutura, meio ambiente, funcionalismo público e a relação dos candidatos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A transmissão ocorreu pela TV Band, BandNews FM, YouTube, BandPlay e mais de 35 rádios parceiras no estado.
O encontro ocorreu em um momento importante da disputa. Pesquisa do Paraná Pesquisas divulgada na semana passada apontou ACM Neto com 48,9% das intenções de voto, contra 38,7% de Jerônimo no primeiro turno. Ao mesmo tempo, a administração do governador registrava 55,2% de aprovação, contra 41,5% de desaprovação.
Nesse cenário, Jerônimo utilizou o debate principalmente para defender os resultados de seu governo e apresentar a continuidade do projeto político iniciado pelo PT na Bahia em 2007 como alternativa à volta do grupo de ACM Neto ao Palácio de Ondina.
FEMINICÍDIOS
A primeira pergunta feita aos candidatos tratou da violência contra a mulher e colocou o feminicídio no centro do primeiro confronto eleitoral televisionado da Bahia.
Durante o debate, foram apresentados dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026. Segundo os números citados pela Band, a Bahia registrou 102 feminicídios e apareceu na quarta posição nacional em números absolutos.
Jerônimo defendeu uma estratégia baseada principalmente na prevenção e na educação. O governador citou a Secretaria de Políticas para as Mulheres, a Ronda Maria da Penha e o programa Oxe, Me Respeite! Nas Escolas.
A proposta apresentada por Jerônimo é ampliar as ações de combate à violência de gênero para os 417 municípios baianos, estimulando a criação de secretarias, coordenações ou estruturas locais voltadas às políticas para mulheres.
O governador também defendeu que o enfrentamento ao machismo comece ainda na infância, com formação de professores e ações pedagógicas direcionadas especialmente aos meninos.
“Me Respeite! Nas Escolas” foi apresentado como uma das ferramentas para essa estratégia. O programa já integra as políticas da Secretaria das Mulheres da Bahia e trabalha temas como desigualdade de gênero, violência contra meninas e mulheres e direitos humanos no ambiente escolar.
ACM Neto apresentou uma abordagem diferente. O candidato propôs o programa Volta por Cima, com auxílio financeiro por até 24 meses para mulheres de baixa renda vítimas de violência doméstica, acompanhado de qualificação profissional e medidas de inserção no mercado de trabalho.
Neto também defendeu o reforço das delegacias especializadas, investigação dos crimes e monitoramento eletrônico de agressores após o cumprimento da pena. Ronaldo Mansur, por sua vez, defendeu a ampliação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e o funcionamento das unidades durante 24 horas.
SEGURANÇA PÚBLICA
A segurança pública foi um dos temas mais delicados para o governador.
Questionado pela jornalista Maria Lorena Alves sobre a presença de municípios baianos entre os mais violentos do país e sobre a cobertura das câmeras corporais utilizadas pela Polícia Militar, Jerônimo procurou destacar os investimentos realizados durante sua gestão.
O governador afirmou que o Estado ampliou concursos, equipamentos, delegacias, pelotões, inteligência e renovação da frota. Segundo ele, aproximadamente 6 mil viaturas foram entregues em três anos e meio.
Jerônimo, entretanto, reconheceu que as câmeras corporais ainda não alcançam toda a tropa e afirmou que pretende ampliar gradualmente o programa, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.
Na avaliação apresentada pelo governador, o combate à criminalidade precisa combinar repressão policial e inteligência com políticas sociais. Ele defendeu maior integração entre União, Estado e municípios e afirmou que a presença de escolas, creches e outros serviços públicos em áreas vulneráveis também faz parte da estratégia de enfrentamento às organizações criminosas.
ACM Neto aproveitou o tema para atacar diretamente a gestão estadual e apresentou a criação de uma Governadoria da Segurança, estrutura que reuniria o governador, comandos policiais e delegados responsáveis pelas diferentes regiões do Estado.
O candidato também defendeu aumento salarial e melhores condições de trabalho para os policiais e o isolamento de líderes de facções criminosas em presídios de segurança máxima.
FILA DA REGULAÇÃO
A saúde foi responsável por um dos momentos mais tensos do debate.
ACM Neto questionou Jerônimo sobre a fila da regulação estadual e citou casos de pacientes que, segundo ele, teriam morrido antes de conseguir atendimento hospitalar ou especializado.
O governador respondeu destacando o volume de investimentos realizados em sua gestão. Jerônimo afirmou ter entregue 15 unidades hospitalares em três anos e meio, além de outras oito que estariam em construção.
O petista também responsabilizou parcialmente os municípios pela pressão sobre a rede estadual. Citou Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Porto Seguro para argumentar que dificuldades na atenção básica e na oferta de serviços municipais acabam sobrecarregando os hospitais estaduais.
Neto rebateu a argumentação e acusou o governador de transferir responsabilidades. Como alternativa, apresentou o PIC Saúde, proposta que prevê que o Estado procure inicialmente uma vaga na rede pública e, diante da indisponibilidade em situações urgentes, financie o atendimento em uma unidade privada.
O confronto mostrou uma das principais linhas de disputa entre os dois candidatos: enquanto Neto procura responsabilizar diretamente o governador pelos problemas da rede estadual, Jerônimo apresenta os investimentos realizados e argumenta que a saúde pública depende também da atuação dos municípios.
EDUCAÇÃO INTEGRAL E PROFISSIONALIZANTE
A educação também ocupou espaço importante no debate.
No confronto com Ronaldo Mansur, Jerônimo foi questionado sobre a expansão do ensino em tempo integral. O governador defendeu a universalização gradual da educação integral e profissional nos municípios baianos.
Jerônimo também apresentou como prioridades o fortalecimento das universidades estaduais e a ampliação da cooperação com as prefeituras.
Durante a discussão, afirmou que o governo mantém convênios para construção ou melhoria de quase 500 escolas e creches. O governador, porém, não detalhou no debate cronograma, valores ou divisão dos investimentos relacionados às obras.
ACM Neto aproveitou o tema para criticar o desempenho da educação estadual e apresentou o Provão Bahia, proposta de processo seletivo específico para estudantes que tenham cursado os três anos do ensino médio na rede estadual concorrerem a vagas nas universidades mantidas pelo Estado.
O ex-prefeito também defendeu a expansão da educação profissionalizante de acordo com as características econômicas de cada região.
Jerônimo respondeu mencionando dificuldades na educação infantil de Salvador e afirmou que cerca de 65 mil estudantes ainda são atendidos pelo Estado e poderiam estar vinculados à rede municipal.
A relação com o presidente Lula foi outro elemento importante da estratégia do governador.
Jerônimo apresentou a parceria com o governo federal como um instrumento para viabilizar investimentos na Bahia. Ao longo do debate, citou obras e projetos associados ao ciclo de governos petistas iniciado em 2007, como o metrô de Salvador, intervenções em encostas, macrodrenagem, VLT, rodoviária, estradas e equipamentos culturais.
A estratégia também serviu para diferenciar Jerônimo de ACM Neto no cenário nacional.
Ronaldo Mansur questionou Neto sobre sua relação com Lula e sobre alianças com políticos ligados ao bolsonarismo. O candidato do União Brasil afirmou apoiar a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado.
Neto também acusou Jerônimo e Mansur de adotarem um “jogo combinado”, lembrando que o PSOL apoiou o petista no segundo turno da eleição estadual de 2022.
Jerônimo, por outro lado, não se afastou da polarização nacional. Ao contrário, apresentou a aliança com Lula como parte de seu projeto para a Bahia e reafirmou o vínculo entre os governos estadual e federal.
O confronto entre Jerônimo e ACM Neto também teve momentos de forte tensão pessoal.
Em uma das discussões, Jerônimo acusou o adversário de desrespeitá-lo e retomou uma declaração atribuída a Neto sobre a intenção de “humilhar o governador”.
O petista relacionou o episódio à própria trajetória e origem social, afirmando ser indígena, negro e filho de vaqueiro. Jerônimo comparou a postura atribuída a Neto ao tratamento historicamente dispensado por patrões aos trabalhadores.
“Seu coração quer isso, humilhar as pessoas”, afirmou o governador durante o confronto.
Após o debate, Neto disse que não havia ouvido a acusação feita por Jerônimo no estúdio e não comentou especificamente a associação feita pelo governador entre o episódio e sua origem social e racial.
O confronto na Band ocorreu em um cenário no qual Jerônimo ainda aparece atrás de ACM Neto nas pesquisas, mas conta com uma avaliação positiva de seu governo superior a 50%.
O levantamento do Paraná Pesquisas divulgado no início de agosto mostrou ACM Neto com 48,9% e Jerônimo com 38,7% das intenções de voto. No cenário de segundo turno entre os dois, Neto tinha 50,9%, contra 40% de Jerônimo.
Ao mesmo tempo, 55,2% dos entrevistados disseram aprovar a administração de Jerônimo. A aprovação havia crescido 3,2 pontos percentuais em relação à rodada anterior, enquanto a desaprovação caiu de 45,1% para 41,5%.











