“CEITEC tem papel estratégico na soberania tecnológica do Brasil”, diz presidente da empresa

Produção de chips é considerada fundamental para a soberania nacional - Foto Divulgação

Augusto Gadelha Vieira destaca a retomada da empresa após tentativa de desmonte no governo Bolsonaro, investimentos de R$ 260 milhões e aposta na produção de chips de carbeto de silício

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada foi alvo de uma tentativa de desmonte da principal estruturas brasileiras voltadas ao desenvolvimento de semicondutores e à produção de chips. A medida só foi revertida peloo governo Lula, que recolocou a CEITEC no centro da política de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial do país.

A retomada ganhou força sob a condução do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, comandado pela ministra Luciana Santos, com a recomposição da estrutura da empresa e dos investimentos em sua capacidade produtiva e tecnológica. Entre as principais iniciativas está o aporte de cerca de R$ 260 milhões, aprovado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), por meio da Finep, para modernizar a infraestrutura fabril e implantar uma nova rota tecnológica para a produção de dispositivos de potência em carbeto de silício.

Em entrevista à Hora do Povo, o presidente do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC), Augusto Cesar Gadelha Vieira, detalha os investimentos, explica a importância da produção de semicondutores de carbeto de silício e defende o papel estratégico da empresa na construção da soberania tecnológica brasileira. Para Gadelha, mais do que reduzir a dependência de importações, o desafio é desenvolver competências nacionais em áreas estratégicas, formar profissionais e inserir o Brasil em segmentos de maior valor tecnológico.

ANDRÉ SANTANA

Augusto Gadelha Vieira, presidente da Ceitec – Foto: Divulgação/Ceitec

Veja a entrevista:

A CEITEC teve o seu funcionamento ameaçado durante o governo anterior e passou por uma reestruturação no último período. Quais os investimentos realizados nesta retomada?

A retomada da CEITEC representa a recuperação de uma capacidade estratégica para o Brasil. O principal investimento em curso é da ordem de R$ 260 milhões, aprovado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por meio da Finep.

Os recursos estão destinados à modernização e adequação da infraestrutura fabril para implantação de uma nova rota tecnológica voltada à produção de dispositivos de potência em substrato semicondutor de carbeto de silício. Para tal, fez-se necessária a aquisição de novos equipamentos e a qualificação de processos com transferência tecnológica através de parcerias com empresas globais atuantes nesse setor.  Parte importante dos equipamentos já começou a chegar à empresa, marcando uma nova etapa dessa implantação.

Além da infraestrutura, a retomada envolve a recomposição e a qualificação de equipes, o fortalecimento das parcerias com universidades, centros de pesquisa e empresas, e a reativação da capacidade da CEITEC contribuir diretamente para o desenvolvimento tecnológico e industrial do país.

Foi anunciada a aquisição e instalação de equipamentos para a produção de novos modelos de semicondutores pela CEITEC. Como a produção dos chips de carbeto de silício se enquadra neste processo?

A nova rota de carbeto de silício, ou SiC, é o eixo central desse processo de modernização. Trata-se de uma tecnologia voltada principalmente a dispositivos semicondutores de potência, capazes de operar com maior eficiência energética, em temperaturas e tensões mais elevadas que as suportadas pelos dispositivos convencionais baseados em silício.

Esses componentes têm aplicações relevantes em veículos elétricos, sistemas de energia renovável, redes elétricas inteligentes, infraestrutura de recarga, equipamentos industriais e outros setores estratégicos para a transição energética.

A implantação dessa rota exige equipamentos específicos, adequações na fábrica e o desenvolvimento de processos tecnológicos próprios. A CEITEC está justamente nessa etapa de preparação e instalação da capacidade produtiva avançando também no processo de desenvolvimento tecnológico. A expectativa é que, com a conclusão do projeto, a empresa esteja apta a iniciar a produção de dispositivos de potência em SiC para sua qualificação a partir do segundo semestre de 2027.

O governo federal tem considerado a produção de tecnologia e a reindustrialização como prioridade, em especial após as recentes ameaças à nossa soberania. Qual o papel da CEITEC na estratégia brasileira de soberania tecnológica?

A soberania tecnológica não significa produzir isoladamente todos os componentes de todas as cadeias globais. Significa, sobretudo, que o país tenha capacidade própria de decidir, desenvolver, adaptar, produzir e garantir acesso a tecnologias críticas para sua economia, sua infraestrutura e sua segurança.

Nesse contexto, a CEITEC tem um papel estratégico: preservar e ampliar competências nacionais em microeletrônica e semicondutores, uma das bases da economia contemporânea. Chips estão presentes em praticamente todos os setores relevantes — telecomunicações, energia, defesa, saúde, mobilidade, agronegócio, indústria e serviços públicos.

Ao longo de sua trajetória, a empresa também contribuiu para o surgimento e o fortalecimento de um ecossistema nacional de microeletrônica, envolvendo profissionais especializados, universidades, centros de pesquisa e empresas. Essa capacidade pode apoiar o atendimento de demandas estratégicas e uma inserção mais qualificada do Brasil nas cadeias globais de valor.

Nova rota de carbeto de silício, ou SiC, é o eixo central desse processo de modernização – Foto: Divulgação

Como a CEITEC se insere na Nova Indústria Brasil e em outras políticas de reindustrialização?

A CEITEC está plenamente alinhada aos objetivos da Nova Indústria Brasil, especialmente no fortalecimento das cadeias produtivas estratégicas, na inovação, na transição energética e na ampliação da densidade tecnológica da indústria nacional.

A microeletrônica é uma tecnologia habilitadora: ela não se limita a um setor específico, mas impulsiona a inovação em diversos segmentos industriais. A retomada da CEITEC contribui para que empresas brasileiras, universidades e centros de pesquisa possam desenvolver produtos e soluções com maior conteúdo tecnológico nacional.

O projeto de dispositivos de potência em carbeto de silício dialoga diretamente com essa agenda, pois atende à demanda por eficiência energética, eletrificação da mobilidade e expansão de fontes renováveis.

O Brasil pode reduzir sua dependência de chips importados? Em quais segmentos isso é mais viável?

O Brasil não precisa — e nem seria realista — buscar produzir internamente todos os tipos de chips existentes no mercado global. A cadeia de semicondutores é altamente complexa, internacionalizada e especializada. O caminho mais consistente é identificar nichos estratégicos nos quais o país possa desenvolver capacidade tecnológica, produtiva e comercial própria.

Essa redução de dependência é mais viável em segmentos nos quais há demanda nacional relevante e possibilidade de agregação de valor, como dispositivos de potência com aplicações na produção, transmissão e uso de energia, mobilidade elétrica, automação industrial, agronegócio, identificação eletrônica, Internet das Coisas e soluções voltadas à infraestrutura e a serviços públicos.

A rota de carbeto de silício é um exemplo concreto dessa estratégia. Ao desenvolver capacidade nacional em componentes de potência, o Brasil fortalece suas competências tecnológicas em uma área diretamente ligada à transição energética e à modernização da indústria. Mais do que substituir importações de forma ampla, trata-se de construir competências estratégicas, gerar conhecimento, formar profissionais e posicionar o país em mercados de maior valor tecnológico.

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