O sonho e o bicho


DAVI MOLINARI

Cheguei ao Fale Mais Sobre Isso em modo emergência.

Não era abstinência.

Era excesso de deepfake em ano eleitoral.

O Doutor já estava na mesa de sempre, diante do chope e do bloquinho. Juvenal surgiu antes mesmo de eu sentar.

– Chope?

– Camomila.

Ele congelou como se eu tivesse anunciado o fim do capitalismo. João espiou da cozinha. Maria levantou os olhos por cima da travessa de manjubinhas. O bar inteiro percebeu que alguma coisa grave estava acontecendo.

– Camomila? – Juvenal repetiu, com a voz de quem avisa o SAMU e a Imprensa Nacional. – Quer que eu chame o médico ou ainda dá tempo de reverter no balcão antes que você ganhe as páginas de cidades do Estadão?

O Doutor levantou uma sobrancelha e abriu o bloquinho.

– Eu tive um sonho.

Juvenal substituiu a camomila por um chope sem pedir licença.

– Nesse caso, prevenção. Sonho em ano eleitoral costuma ser mais perigoso que debênture do Banco Master.

Aceitei.

– Sonhei com uma cobra, Doutor. Enorme. Verde-amarela. Enrolada na televisão durante o horário eleitoral.

Joel, o apontador do bicho, levantou os olhos da mesa como quem fareja negócios.

– Cobra?

– Cobra.

– Dá grupo. E, se for verde-amarela, ainda dá triplo.

– Joel, eu estou fazendo análise.

– E eu estou tentando transformar seu trauma em renda.

O Doutor anotou alguma coisa.

– O pior é que a cobra não atacava ninguém. Ficava ali. Parada. Olhando. E todo mundo ia recuando sozinho. Primeiro tiraram uma cadeira. Depois uma mesa. Depois fecharam a porta. Quando percebi, ninguém mais podia falar alto, protestar, reclamar ou perguntar quem tinha mandado a cobra entrar.

Juvenal pousou as manjubinhas.

– Esse sonho não é estranho. Parece aquela fábula do rei que põe um gato para caçar o rato, depois precisa de um cachorro para tirar o gato, de um leão para conter o cachorro… e, no fim, ninguém mais consegue entrar no castelo.

Olhei para o Doutor.

– Fiquei pensando se a cobra era a extrema direita que já tomou assento na Casa Branca.

Joel interveio:

– Cobra pode ser inimigo, traição, medo, transformação…

– E número?

– O senhor quer análise ou resultado do jogo do bicho? Porque análise não paga milhar.

Continuei, consciente de que minhas sessões já faziam parte da programação cultural do Fale Mais Sobre Isso.

– Talvez a serpente represente o medo. O medo de ir cedendo terreno, direitos, espaço, até achar normal aquilo que antes parecia absurdo.

Na televisão, a campanha eleitoral passava sem som. Flávio discursava para uma plateia que, de tão perfeita, parecia ter sido montada por inteligência artificial.

– Inclusive, Doutor, está cada vez mais difícil separar o virtual do real.

Juvenal concordou.

– Não se preocupe, analisado. Horário Eleitoral só funcionaria mesmo se passasse na CazéTV.

João colocou a cabeça para fora da cozinha.

– Com narrador?

– Evidentemente. Imagine: “Flávio entra pela extrema direita, tenta mobilizar a arquibancada… não mobiliza… devolve para o marqueteiro… perdeu a posse! E o público nem se deu ao trabalho de vaiar.”

Maria completou:

– E, no intervalo, melhores momentos do comício.

– Tem que ter melhores momentos – eu disse. – Ou pelo menos os menos constrangedores.

O Doutor continuava escrevendo.

– Descobriram outra modalidade de campanha, Doutor: vazam um pedaço do caso Lulinha, a imprensa transforma em manchete e depois aparece com uma pesquisa para medir quantos votos o pai perdeu por causa do filho.

Juvenal abriu os braços.

– Jornalismo de laboratório: solta a substância e mede a reação.

– Investigue-se Lulinha, claro. Se houver crime, que responda. O curioso é que, enquanto contam quantos pontos ele pode tirar de Lula, Banco Master e Dark Horse vão saindo de cena.

Joel levantou o indicador.

– Cavalo também dá grupo.

– Joel!

– Estou apenas tentando manter a coerência da sessão.

Na televisão, comício.

Mais bandeiras que gente.

– E é isso que me incomoda, Doutor. A campanha virou uma disputa para saber quem fabrica melhor a realidade. Comício vazio ganha enquadramento fechado. Plateia murcha recebe trilha épica. Deepfake ganha aparência de testemunho. Vazamento vira fato político. Depois vem a pesquisa medir o efeito.

Juvenal coçou a cabeça.

– Então a eleição virou pós-produção.

– Exatamente.

Tomei um gole e a cobra apareceu de novo na minha cabeça.

– E talvez tenha outra coisa no sonho, Doutor. Soberania.

Ele levantou os olhos do bloquinho.

– Porque eleição é uma das poucas coisas que ainda precisa ser inteiramente nossa. Podemos brigar, errar o voto, acertar por acidente, trocar de candidato e até votar em quem Juvenal considera caso clínico. Mas a escolha tem que continuar sendo nossa.

Juvenal ergueu a bandeja.

– Exatamente. Não faz sentido dizer que defende a democracia e, ao mesmo tempo, apoiar a interferência de Trump, como se soberania fosse detalhe burocrático.

Joel levantou os olhos.

– Isso também dá grupo?

– Isso dá Constituição, Joel.

Ele pensou um instante.

– Paga menos.

O bar riu.

Foi quando entendi a cobra.

– Talvez seja isso, Doutor. Ela nem precisa morder. Basta convencer a gente a abrir a porta.

O bar ficou em silêncio.

Até Joel suspendeu por alguns segundos a zoologia financeira.

O Doutor fechou o bloquinho, tomou o último gole do chope e pronunciou sua única frase da noite:

– O medo se torna sintoma quando deixamos de enfrentá-lo e passamos a obedecê-lo.

Joel voltou lentamente para a caderneta e me encarou.

– Analisado, tem coragem agora de apostar no seu sonho?

– Cobra, afinal, dá qual número?

Joel respondeu:

– Agora o senhor começou a levar a análise a sério.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – CVI. Enviado pelo autor.

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