DAVI MOLINARI
Encontrei Juvenal parado no meio do Fale Mais Sobre Isso.
Bandeja numa mão. Pano no ombro. Olhar perdido na televisão.
– Juvenal?
– Estou estabilizado.
Olhei para o Doutor. Ele tirou o bloquinho do bolso. Grave sinal.
– Estabilizado como?
– Política econômica.
– Isso é protesto?
– Não. Ajuste Fiscal.
João desligou a fritadeira. Maria recolheu as manjubinhas.
– Nós aderimos, disseram juntos.
– Posso saber que surto macroeconômico é esse?
Juvenal apontou para a televisão.
– Passei a semana assistindo às sabatinas. Zema, Renan Santos, Flávio, Lula… Quanto mais assistia, mais perplexo ficava com o desconhecimento da realidade ou com a omissão das intenções.
– E chegou a alguma conclusão?
– Terrível. Não fazer nada também é uma decisão.
João apareceu na cozinha.
– Se não comprarmos manjubinha, economizamos cem por cento da manjubinha.
– E se não vender?
– Economizamos trabalho.
Juvenal abriu os braços.
– Gás custa. Chope custa. Funcionário custa. Cliente quebra copo. Tudo produz instabilidade.
– Solução?
– Fechar o bar.
O Doutor anotou.
– Com o boteco fechado, despesa quase zero. Inflação da manjubinha controlada. João não pede aumento. Maria não compra peixe.
– E a receita?
Juvenal me olhou decepcionado.
– Meu querido Analisado, o senhor precisa estragar tudo com a realidade?
Na televisão reapareciam as sabatinas.
– Fiquei me perguntando o que cada candidato pretende fazer com o Brasil. Agora estou mais interessado no que pretende deixar de fazer.
Sentou-se à nossa mesa.
Na televisão apareceu Flávio Bolsonaro com a cola na mão: “Mudança”, “futuro”, “7/set”.
Juvenal imediatamente examinou a própria.
– Finalmente pensei que o programa estivesse ali.
– Na mão?
– Mas procurei por “PIB”, “investimento”, “produtividade” “soberania”, nada…
João se aproximou.
– Olhou a outra mão?
Juvenal conferiu.
– Nada.
– Então o projeto deve estar no bolso das rachadinhas – disse Maria.
A televisão passou para Lula.
– Gostando ou não dele – continuou Juvenal –, pelo menos há uma ideia reconhecível na cabeça: crescer, investir, colocar dinheiro na economia, educação, saúde, soberania, construir um país. Podemos discutir se funciona, quanto custa, onde erra. Há alguma coisa para discutir.
– E os outros?
– Também têm propostas: inconfessáveis. São estatocidas.
– Quer dizer que matam o Estado?
– Só a parte que cuida das pessoas.
O Doutor escondeu um sorriso na barba.
Juvenal apontou para a fritadeira apagada.
– Veja nosso boteco. Está equilibrado. Ninguém investe, ninguém contrata, ninguém compra, ninguém vende. Completamente estabilizado.
Maria completou:
– E ninguém vive.
Silêncio.
O Doutor fechou o bloquinho.
– Toda omissão é uma escolha quando se conhece o que ela impede de ser realizado.
– Tipo a Rede Globo, quando não apontou as mentiras de Flávio Bolsonaro, falou Juvenal, olhando para ele.
Depois caminhou até a cozinha e religou a fritadeira.
O chope voltou a correr. As manjubinhas mergulharam no óleo.
Em segundos, o Fale Mais Sobre Isso voltou a apresentar consumo, emprego, risco e crescimento.
Peguei meu copo.
Talvez a questão não seja escolher entre estabilidade e desenvolvimento.
Talvez seja descobrir quanto da vida queremos desligar para que os números parem de se mexer.
Juvenal pousou a conta na mesa.
– E isso também é uma decisão.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CVII. Enviado pelo autor.











