DAVI MOLINARI
O fetiche é o fio que une a fraude financeira de hoje à ilusão colonial de ontem. Não o fetiche no sentido estreito de um privilégio privado, mas o fetichismo da mercadoria em Marx e o objeto-signo em Baudrillard: a coisa que deixa de servir e passa a falar de classe, de pertencimento e de exclusão.
No Brasil contemporâneo, esse fio ganha sua expressão mais acabada no caso de Daniel Vorcaro e do Banco Master. Trata-se do dinheiro sem lastro fabricado no mercado financeiro que não vira fábrica ou escola, mas se converte em distinção: uísques astronômicos, jatinhos, trânsito nos tribunais superiores e festas exclusivas em Trancoso.
Essa compulsão pelo bem de distinção atravessa a história do país. É a mesma lógica que liga o espelho oferecido ao indígena no século XVI, a renda e o mármore desembarcados no porto de Manaus durante o ciclo da borracha e o Macallan servido no George Club em Londres. A entrega ao objeto importado não é mero detalhe da elite; é o seu próprio modo de existir.
O PRIMEIRO ESPELHO E O ENSAIO DO FETICHE
Há uma melancolia na cena do encontro colonial que antecipa a lógica dos escândalos atuais. Pero Vaz de Caminha já registrava a reação dos nativos aos “espelhos de pau”. No poema épico Caramuru (1781), Santa Rita Durão dramatizou a cena: o indígena diante do cristal, perplexo com a própria imagem, virando o objeto e quebrando o vidro para encontrar a figura oculta lá dentro. O espelho nunca foi um simples utensílio. Foi o primeiro feitiço técnico a capturar o sujeito e colocá-lo sob a dependência de quem detinha a fabricação do bem.
O historiador Roberto Gambini, em Espelho Índio, enxergou nessa cena a matriz de um trauma psíquico: o colonizador projetou no nativo a sombra que não admitia em si; o nativo projetou no europeu uma superioridade mítica.
Quando investigações da Polícia Federal e do Ministério Público apontam que Vorcaro e seus operadores distribuíam mimos de luxo e viagens para cooptar autoridades, a estrutura psicológica é idêntica. O presente de alto valor atua como o espelho de cristal: captura a vontade, estabelece a dependência e cria uma ilusão de poder compartilhado.
A PARIS DA BORRACHA E O LUXO SEM LASTRO
Durante a Belle Époque amazônica (1879–1912), Manaus e Belém viveram o ensaio geral dessa busca por validação externa. Enquanto seringueiros morriam na floresta sob servidão por dívida, a riqueza do látex financiava a ilusão de uma Europa tropical. Importava-se ferro escocês, mármore de Carrara, telhas de Marselha e até costureiras belgas. Famílias mandavam roupas para engomar em Lisboa e usavam casacos de pele sob 35 graus. O Teatro Amazonas ergueu-se como símbolo dessa contradição: ópera europeia custeada pelo sacrifício nos seringais.
Quando o cultivo asiático quebrou o monopólio brasileiro, a riqueza evaporou, deixando palacetes vazios e o hábito da ostentação. Essa sobrevivência do signo após o colapso da substância é uma marca nacional.
O caso Vorcaro opera na mesma chave: um império de papel, sustentado por ativos inflados e circulação entre fundos do próprio grupo, cujo objetivo final é a manutenção de um estilo de vida que simula solidez.
BAUDRILLARD NO TRÓPICO E A ENGENHARIA DO ACESSO
Jean Baudrillard definiu o consumo moderno como um sistema em que o valor de uso recua perante o valor-signo. Os objetos servem para marcar posições. No Brasil, essa lógica se junta ao que Darcy Ribeiro chamou de “nação inacabada”: uma elite que vive de costas para o povo e de frente para o modelo estrangeiro. Marilena Chauí observou que a hierarquia social brasileira se apoia na opressão dos de baixo e na bajulação dos de cima. No esquema do Banco Master, a proximidade com altas autoridades funcionava como o signo supremo de imunidade.
As apurações apontam que o Banco Master captava recursos via CDBs com remuneração acima do mercado e os injetava em fundos controlados, que compravam créditos de empresas ligadas a sócios e laranjas. A Reag surge como peça na inflação artificial de ativos. O dinheiro gerado não virou infraestrutura, mas acesso: fóruns em Londres, degustação de Macallan a centenas de milhares de dólares, jatinhos e carros à disposição de “ministros mais sensíveis”. Como explica Baudrillard, não se compra o uísque pelo líquido, mas pelo direito de estar na sala onde ele é o código de entrada.
TRANCOSO E A ILUSÃO DO PERTENCIMENTO
A Villa 21, em Trancoso, concentrou a dimensão mais explícita desse sistema nas festas “Cine Trancoso”: telefones confiscados, caviar, Petrus e a contratação de mulheres estrangeiras transportadas em jatos privados para um público de autoridades e empresários. A realização de eventos com temática “indígena”, onde cocares eram distribuídos a convidados de uma festa paga com dinheiro sob investigação, expõe a ironia do ciclo: o elemento nativo reduzido a alegoria festiva. O fetiche deixa de ser mera exibição e vira instrumento de vinculação política.
Darcy Ribeiro sustentava que o Brasil é um projeto nacional sistematicamente interrompido por elites que recusam construir uma sociedade integrada, preferindo a preservação de privilégios. O espelho do século XVI continua a operar suas capturas. Hoje, o cristal assume a forma da garrafa rara, da mansão isolada ou do trânsito livre em gabinetes. A compulsão pelo fetiche permanece como o mecanismo pelo qual essa classe se recusa a encarar a realidade do país.
Afinal, nada expressa de forma mais nítida o fetiche por distinção de classe no Brasil do que a possibilidade de ser amigo de um banqueiro. Foi exatamente essa ilusão de intimidade com o topo da pirâmide financeira que Daniel Vorcaro entregava aos seus convidados: o salvo-conduto definitivo que transforma o cúmplice em elite e o isola da realidade do próprio país.
Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.











