Trama no STF: Mendonça teve encontro secreto com Vorcaro mas seus ataques vão para PF, PGR e Moraes

André Medondça divulga vídeo para "incendiar" bolsonarsmo (reprodução)

Foi pego num encontro às escondidas com o dono do Master. Ele omitiu o fato, acobertou Flávio, atacou filho de Lula e divulgou um vídeo para “incendiar” o bolsonarismo às vésperas do 7 de Setembro

André Mendonça parece ter manipulado um grupo de delegados da Polícia Federal para fazer aquilo que o golpismo bolsonarista vem buscando obter desde a derrota de sua intentona de 2022/23. Abrir uma crise no Supremo Tribunal Federal (STF), na PGR e na PF, baluartes da derrota do fascismo no Brasil.

ACOBERTAMENTO DE FLÁVIO

As ações de Mendonça estão sendo interpretadas como senha para o bolsonarismo. Primeiro acoberta só crimes de Flávio Bolsonaro. Depois ataca o filho do presidente Lula e agora atinge membros do colegiado, da PGR e da PF que participaram das investigações, julgamento e condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a abertura de uma investigação para apurar a interferência na Polícia Federal na elaboração de um relatório que detalhou mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes e pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, para apurar a possível participação do ministro André Mendonça no caso.

“Notifique-se a autoridade policial para esclarecer as circunstâncias em torno da confecção da IPJ-A n. 3298613/2026, notadamente quanto a possível ocorrência de ordem ou interferência externa em sua elaboração, que tenha maculado seu conteúdo”, escreveu Gonet no despacho que abre a apuração.

O relatório citado foi determinado por Mendonça e, em 218 páginas, apresenta uma série de mensagens do banqueiro a Moraes e conversas que mencionam outras autoridades, como o próprio Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Estranhamente o relatório não registrou a reunião secreta entre o próprio Mendonça e Daniel Vorcaro. O candidato fascista à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) logicamente saiu em defesa de André Mendonça, após a revelação de que o magistrado se reuniu com Daniel Vorcaro.

ENCONTRO SECRETO COM VORCARO

André Mendonça foi obrigado a confirmar que teve o encontro secreto com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em março de 2025. Ele disse também ter se encontrado com o advogado do empresário no mesmo mês. Este encontro não estava no “relatório” que ele pediu aos delegados da PF. Por que será?

O ministro também não pediu relatórios sobre as trocas de mensagens, e de muito dinheiro, entre o dono do Banco Master e o candidato a presidente Flávio Bolsonaro. O fato mostra que as ações de André Mendonça só tinham uma direção e buscavam atingir tanto Alexandre de Moraes, como Paulo Gonet e o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Em ofício direcionado a Fachin, o procurador-geral informou que abriu a apuração sobre a possível interferência e citou o artigo da lei que exige a autorização da Corte para investigações que envolvam magistrados. Gonet afirma que a PGR não foi consultada sobre a confecção do documento e que, por isso, foi impedida de “realizar o necessário controle externo da atividade policial, etapa essencial a qualquer investigação”.

Na sequência da divulgação do documento, a crise ganhou novo capítulo com um pedido apresentado por Moraes para que Mendonça seja investigado pelo que classificou como “indícios de crimes” cometidos pelo colega de Corte na condução de inquéritos relatados por ele, em especial o relativo ao escândalo do Master.

Diante da turbulência interna que amplia as pressões sobre si, o presidente da Corte, Edson Fachin, abriu um procedimento para tratar do caso. Moraes enviou a Fachin relatórios de inteligência da PF apontando as irregularidades na atuação de Mendonça, como o direcionamento de investigações com fins políticos e irregularidades na condução de delações. Na sequência da crise, delegados da PF reagem e pedem que Gonet se declare impedido.

MANIPULAÇÃO DA PF

Em reação à iniciativa do chefe da PGR, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulgou neste sábado (5) uma nota pública para manifestar “indignação e preocupação” com a medida e pedir que Gonet “se declare impedido e se abstenha de praticar atos, seja como fiscal da lei, seja como titular do controle externo, nos procedimentos relacionados aos fatos em que é citado”.

Sobre o controle externo da atividade policial, previsto na Constituição e disciplinado por uma lei de 1993, a ADPF aponta que se trata de uma garantia de legalidade e de respeito aos direitos fundamentais, e representa uma relação de hierarquia e nem poder disciplinar sobre delegados e agentes ou instância de revisão de decisões judiciais.

Por outro lado, documentos internos da PF foram enviados também ao ministro Edson Fachin e devem embasar a abertura de inquérito contra André. Eles apontam seletividade e disparidade de prazos em decisões do ministro, favorecendo aliados da extrema direita e prejudicando opositores. A omissão de Mendonça diante dos depósitos milionários recebidos por Flávio Bolsonaro é vista como o ponto mais grave e pode ser decisiva para afastá-lo da relatoria do caso Banco Master.

VÍDEO MESSIÂNICO

Mendonça teria tentado fragilizar a gestão do diretor-geral Andrei Rodrigues e instrumentalizar depoimentos, como o do empresário Daniel Vorcaro, em uma encenação política contra Moraes e a própria PF. Além disso, André Mendonça publicou vídeo em redes sociais em tom messiânico, interpretado como tentativa de mobilizar a extrema direita nas ruas, especialmente em torno do 7 de Setembro.

Na gravação, Mendonça afirma que as preces enviadas por líderes religiosos e apoiadores têm sido importantes para ele e para a família. O ministro também agradece as manifestações de solidariedade recebidas e encerra a mensagem com uma referência ao país.

“Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”, cita no vídeo. A estratégia de André Mendonça visa se posicionar como contraponto a Moraes e como “salvador” do bolsonarismo. Ao que tudo indica, ele está se isolando dentro do STF e da própria Polícia Federal.

“O Mendonça vai lá e faz isso aí, tenta intimidar a PF e age desse jeito gângster. Ele está com um problemão agora. Isso a PF não vai engolir, como fizeram lá na Lava Jato. E ele ainda expôs a instituição ao atacar o Andrei [Rodrigues, diretor-geral]”, disse o agente da PF. “Mendonça quis intimidar a PF, e isso nunca vai ser tolerado. Eles vão desconstruir o Mendonça e quem vai fazer isso é a Contrainteligencia… […] A PF sabe com quem está lidando“, diz trecho.

Veja o vídeo de Mendonça

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