Movimento financeiro de países do Sul Global reduz a independência financeira e abre caminho para a cooperação e ampliação na mobilização de capital, sem a submissão aos Estados Unidos
Nos últimos dois anos, Brasil, Rússia, Índia e China – fundadores do BRICs em 2001, e ampliados pela África do Sul em 2011 -, fortaleceram a desdolarização, priorizaram ações em moedas locais e a expansão do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).
O movimento de países do Sul Global para reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais ganhou peso com declarações convergentes de líderes dos quatro sócios ao lado da China. Ao mesmo tempo em que estimulam o uso de moedas nacionais no comércio bilateral e nos investimentos, suas intervenções têm buscado fortalecer o NDB, a instituição financeira do grupo.
Nestas quarta e quinta-feira (9 e 10), ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais dos países-membros reúnem-se em Mumbai, para concluir propostas a serem apresentadas aos dirigentes. Será a última reunião antes da cúpula de Nova Déli, em que será debatido o uso de moedas nacionais, pagamentos transfronteiriços, cooperação financeira e ampliação do papel do NDB na mobilização de capital.
Em fevereiro de 2026, durante visita a Nova Délhi, o presidente Lula defendeu que as trocas comerciais entre Brasil e Índia passem a ser feitas nas respectivas moedas locais, sem necessidade de conversão para dólar. Embora a mudança seja difícil, admite, o processo deve ser gradual.
FORTALECER COMÉRCIO EM MOEDAS LOCAIS
De acordo com Lula, a discussão do bloco visa ampliar o uso das moedas nacionais já existentes. O Brasil já opera parte de suas trocas com a China em moeda local desde 2023 e busca replicar o modelo com a Índia dentro do Acordo de Comércio Preferencial entre Mercosul e o país asiático.
O comércio recíproco total entre os países do BRICS já ultrapassou US$ 1 trilhão, com de 67% a 90% dessas transações ocorrendo em moedas locais (embora o uso de uma nova moeda única do bloco tenha sido adiado).
ÍNDIA DEVE SEDIAR NOVA CÚPULA DO BRICS
Após assumir a presidência rotativa do BRICS em 2026, a Índia deve sediar a 18ª Cúpula do bloco em Nova Délhi, com o compromisso de aprofundar a agenda de desdolarização iniciada nos encontros anteriores. O Banco Central indiano (Reserve Bank of India) propôs a criação de um mecanismo conjunto de pagamentos baseado em moedas digitais de banco central (CBDCs) dos países-membros, iniciativa que a força-tarefa de pagamentos do BRICS já trata como prioridade estratégica desde a declaração de 2025, assinada no Rio de Janeiro. Levantamentos do bloco apontam que China e Índia já realizam entre 65% e 80% de seu comércio bilateral em moedas nacionais
O presidente Vladimir Putin tem sido um dos líderes mais entusiastas na defesa da ampliação das moedas locais dentro do BRICS, movimento acelerado pelas sanções ocidentais impostas a Moscou pelos EUA. Na Cúpula do Rio, em julho de 2025, Putin afirmou que a participação do rublo e das moedas de outros membros do bloco já correspondia a cerca de 90% das transações comerciais envolvendo a Rússia, e defendeu a criação de um sistema próprio de liquidação e depósito para o grupo.
Na avaliação do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) é um dos pilares do sistema financeiro emergente do Sul Global para identificar e potencializar setores prioritários para investimento.
A África do Sul tem papel simbólico na pauta: foi em Joanesburgo, na cúpula de 2023, que o então anfitrião, o presidente Cyril Ramaphosa, anunciou que ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do bloco seriam encarregados de estudar formalmente o uso de moedas locais, instrumentos e plataformas alternativas de pagamento. Desde então, o NDB passou a conceder empréstimos também em rand sul-africano e em real brasileiro, como parte da estratégia de reduzir a exposição ao dólar.
Em encontros bilaterais mais recentes com a presidente do banco, Dilma Rousseff, Ramaphosa reiterou o apoio à meta da instituição de elevar para 30% a fatia da carteira de crédito concedida em moedas nacionais até o fim do ciclo estratégico 2022-2026 – percentual que já girava perto de 25% em 2025.
A EXPANSÃO ESTRATÉGICA DO NBD
O NDB consolidou sua expansão para além dos cinco fundadores, incorporando Emirados Árabes Unidos, Bangladesh, Egito, Argélia e, mais recentemente, Colômbia e Uzbequistão, somando 11 países-membros. A instituição já aprovou mais de 120 projetos desde sua criação, totalizando cerca de US$ 42,9 bilhões em financiamentos, sobretudo em infraestrutura, energia limpa e desenvolvimento sustentável.
Em reunião do Conselho de Governadores em Moscou, em maio de 2026, a presidente Dilma defendeu que o banco avance para uma nova etapa de expansão, inovação e digitalização, descrevendo a visão de uma instituição maior, mais verde, mais ágil e mais cooperativa. A presidente do NDB também tem buscado ampliar a presença do banco na Ásia Central, como mostrou o encontro de junho de 2026 com o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, em Tashkent.











