Empresa de capacetes de Flávio e Carlos Bolsonaro está registrada no mesmo endereço das firmas do “Careca do INSS”. Contador do senador é apontado pela PF como sócio do operador. Até o contador é o mesmo
A empresa de capacetes Bravo Grafeno, que tem entre os sócios o presidenciável e senador Flávio Bolsonaro (PL-PR) e o ex-vereador Carlos Bolsonaro, está registrada na sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, Brasília.
As informações são do ICL Notícias.
Trata-se do mesmo endereço que aparece no cadastro de pelo menos 16 empresas ligadas ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS, apontado nas investigações da Polícia Federal como um dos principais operadores do esquema de descontos ilegais das aposentadorias e pensões do INSS.
O endereço da Bravo Grafeno consta atualmente do próprio site da empresa e de bases cadastrais públicas. A companhia foi aberta em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil.
A sobreposição chama atenção porque a sala 2601 também aparece vinculada à Prospect Consultoria Empresarial, empresa relacionada ao Careca do INSS.
Segundo documentos da investigação e informações da CPMI do INSS, a Prospect recebeu R$ 204,2 milhões de entidades investigadas, entre essas Unaspub (União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos), Ambec (Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos) e CBPA (Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura).
A existência de empresas diferentes no mesmo endereço, por si só, não constitui irregularidade. O ponto que amplia a conexão é a coincidência com a estrutura contábil e societária utilizada por personagens que estão no centro das investigações da Operação Sem Desconto.
ELO PASSA PELO CONTADOR
A conexão mais direta entre Flávio Bolsonaro e o grupo investigado pela PF está em Alexandre Caetano dos Reis, dono da Voga Serviços Contábeis.
Alexandre é responsável pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro e, segundo documentos da investigação, manteve relações societárias e profissionais com empresas do “Careca do INSS”. Ele é apontado pela PF como sócio de Antunes na Camilo & Antunes Limited, offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
A ligação já havia aparecido em documentos anteriores. Notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro trazem endereço eletrônico associado à Voga Serviços Contábeis, indicando a prestação de serviços contábeis à banca do senador.
A situação ganhou novo peso político porque Alexandre Caetano está preso no âmbito das investigações sobre as fraudes no INSS. Em julho, o UOL informou que ele também havia sido alvo de 2 fiscalizações do CRCDF (Conselho Regional de Contabilidade do Distrito Federal) por irregularidades identificadas em declarações de clientes.
IRMÃ DO CONTADOR TAMBÉM TRABALHA PARA FLÁVIO
Outro elo é Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre. Letícia é administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Em entrevista à Agência Pública, ela afirmou que chegou à banca por indicação do advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
Willer também aparece no entorno das investigações. Ele atua na defesa de Alexandre Caetano e teve procuração nos autos relacionados à Operação Sem Desconto. A própria CPMI do INSS registrou a cadeia de relações entre Flávio, Letícia, Alexandre e Antunes.
O cruzamento dessas relações não significa, contudo, que Flávio Bolsonaro seja investigado ou acusado pela PF de participação nas fraudes do INSS. O que existe, até aqui, é cadeia de relações empresariais, contábeis e profissionais que envolve pessoas que ocupam posições diferentes na investigação.
SALA COM MUITAS EMPRESAS
O levantamento sobre a sala 2601 também chama atenção pela quantidade de empresas vinculadas a Antônio Carlos Camilo Antunes registradas no local.
São empresas de diferentes áreas, como consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e serviços. Parte dessas foi posteriormente baixada.
A Prospect Consultoria Empresarial é uma das empresas mais relevantes desse conjunto. Documentos da CPMI apontam que recebeu R$ 204,2 milhões de 9 entidades investigadas, incluindo R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
Antunes, por sua vez, aparece associado à extensa rede empresarial. Quando foi preso, em setembro de 2025, a PF apontava que ele era sócio de 22 empresas e que várias dessas teriam sido utilizadas como intermediárias de recursos provenientes de entidades que realizavam descontos em benefícios previdenciários.
ESCÂNDALO QUE ATINGIU MILHÕES
A Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF e pela CGU (Controladoria-Geral da União) em abril de 2025, investiga sistema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões.
As investigações estimaram em R$ 6,3 bilhões o volume de descontos associativos realizados entre 2019 e 2024 pelas entidades sob investigação.
O impacto sobre os beneficiários foi gigantesco. Até março deste ano, 4,3 milhões de aposentados e pensionistas já haviam recebido R$ 2,9 bilhões em ressarcimentos pelo governo federal.
A diferença entre os números é importante: os R$ 6,3 bilhões representam o universo financeiro dos descontos investigados, enquanto os R$ 2,9 bilhões correspondem ao que havia sido efetivamente devolvido aos beneficiários até aquele momento.
“CARECA” E PRISÃO
Antunes foi preso pela PF em 12 de setembro de 2025, em Brasília, numa operação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal.
A PF apontou risco de fuga, possível ocultação patrimonial e tentativa de obstrução das investigações.
Nesta semana, o caso voltou ao noticiário depois que o ministro André Mendonça revogou a prisão preventiva do filho de Antunes, Romeu Carvalho Antunes, substituindo-a por tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares. O pai permanece preso.
EMPRESA DE CAPACETES DA FAMÍLIA BOLSONARO
A Bravo Grafeno foi constituída em junho de 2024 e tem como sócios Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Fernando Nascimento Pessoa, Paulo Giordano Bernardi e Pedro Luiz Dias Leite.
A empresa se apresenta como fabricante brasileira de capacetes e produtos desenvolvidos com grafeno. No próprio site, afirma que a companhia foi criada por Jair Bolsonaro, os filhos Flávio e Carlos e outros sócios.
Jair Bolsonaro aparece como garoto-propaganda da marca.
O domínio da empresa e os canais comerciais também mantêm o endereço da sala 2601 como sede.
CONEXÃO CHEGA À CPMI
As relações que envolvem Flávio Bolsonaro e Alexandre Caetano já haviam sido levadas ao debate da CPMI do INSS.
Em reunião da comissão, parlamentares defenderam a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador e chamaram atenção para a presença de Letícia Caetano na administração do escritório de Flávio e para a relação societária de Alexandre com o “Careca do INSS”.
O ponto central, portanto, não é simplesmente a existência de 2 empresas no mesmo edifício. É a convergência de endereço, contabilidade, relações societárias e vínculos profissionais que aproximam o núcleo empresarial da família Bolsonaro de pessoas investigadas no escândalo que atingiu milhões de beneficiários do INSS.
Até o fechamento desta reportagem, Flávio Bolsonaro não havia apresentado explicação pública específica sobre a coincidência do endereço da Bravo Grafeno com as empresas ligadas a Antunes. A defesa de Antunes também não havia respondido às solicitações mencionadas na apuração original.










