Premiado filme que detalha genocídio em Gaza é intensamente aplaudido na Bienal de Veneza

As observações dos diretores do filme NAZA (acrônimo em hebraico para Nezek Agavi – Dano Colateral), agraciado com o Prêmio Especial do Juri no festival de cinema denominado Bienal de Veneza, demonstram a clareza de Yuval Avraham e Rachel Szor sobre o genocídio perpetrado pelas forças e pelo sistema israelense que os levou a buscar sua realização para – como afirmam – “quebrar o silêncio”.

Vejam o que dizem os diretores de NAZA, conforme publicado no site da Bienal de Veneza:

“Fizemos este filme diante de um senso de obrigação de usar nossa posição de israelenses para examinar os sistemas por tràs do assassinato em massa de civis palestinos pelo qual nosso país é responsável.

“Enquanto filmávamos durante os três passados anos, nos encontramos perguntando as mesmas questões que os melhores geração de nossos avós e através do Século XX levantavam: Como pode um grupo de pessoas permitir a total desumanização de outro?

“Como funcionam os trabalhos internos de sistema montado com essa finalidade?

“Muitas das revelações presentes no filme eram publicadas quase immediatamente ao nosso acesso a elas, nos meses que se seguiram aos ataques de 7 de outubro, pelo The Guardian (um dos produtoes do NAZA), em colaboração com parceiros como o +972 Magazine e Local Call.

“O filme nos permitiu explorar algo mais profundo do que podíamos simplesmente a partir do nosso jornalismo investigativo: não apenas as palavras ditas, mas também aquelas que não são ditas, o silêncio.

“O desafio a todos nós é quebrar este siêncio”.

APLAUDIDO DE PÉ EM VENEZA

Quando foi anunciado que o filme havia conquistado o Prêmio Especial do Juri, o público presente se pôs de pé e iniciou o aplauso mais extenso da história do festival de Veneza: 24,5 minutos.

Não tardou e os criminosos que dirigem tanto o Estado de Israel quanto suas forças militares – que vêm tentando esconder seus crimes assassinando perto de 300 jornalistas ao longo destes anos de agressão a Gaza e agora ao Sul do Líbano – prorromperam em declarações histéricas e ditatoriais.

O ministro da “Cultura” de Israel, Miki Zohar, anunciou que pretende tomar medidas para a revogação das cidadanias dos dois diretores. “O ódio profundo que os criadores sentem por si mesmos e a sua disposição em prejudicar a sua pátria para receber aplausos de antissemitas em todo o mundo é incompreensível e constitui uma traição ao Estado”, Zohar postou na rede social X, no domingo.

“Agirei imediatamente para revogar a cidadania israelense desses criadores desprezíveis, sob a acusação de traição contra o Estado”, disse.

Zohar, também chamou o documentário de “vil” e disse que sua vitória no Festival de Veneza é “chocante”.

O documentário ovacionado no 83º Festival de Cinema de Veneza, traz os diretores Yuval Abraham e Rachel Szor entrevistando 24 oficiais dos serviços secretos de Israel e soldados, que participaram no genocídio de palestinos em Gaza.

Os entrevistados prestaram depoimentos de como funciona o sistema que agora usa inteligência artificial para cometer assassinatos em massa de palestinos e de como os alvos são identificados para então as forças israelenses realizarem bombardeios remotos e presenciais.

Muitos desses ataques aconteceram mesmo com os oficiais cientes que um grande número de civis palestinos seriam mortos. Um dos entrevistados relatou como as mortes de até 500 civis palestinos foram consideradas aceitáveis para os israelenses, sob pretexto de atingir um único membro do Hamas.

Já o chefe do Estado Maior das forças israelenses, Eyal Zamir proferiu uma extensa lista de impropérios contra os diretores, mentindo que aquilo que chama de Exército de Defesa de Israel (IDF, iniciais em hebraico) “faz um esforço superior para manter a proporcionalidade e reduzir ao máximo o dano a inocentes”.

É o que diz Zamir, na maior cara de pau, após o assassinato de perto de 79.000 palestinos, a maioria mulheres, idosos e crianças.

O general prossegue chamando o massacre intencional – inclusive revelando a intenção de, como diz o ministro da Segurança, Ben-Gvir, expulsar 2,3 milhões de Gaza – de “profissionalismo e responsabilidade, com humildade e verdade, fieis aos valores do IDF e à lei”.
Aí parte pra cima dos que revelam a sórdida determinação criminosa das forças de Netanyahu, acusando-os de “difamação falsa, manipuladora e sem fundamento, não uma crítica legítima, mesmo que receba aplausos hipócritas”.

Depois de toda essa bile, Zamir, ao invés de prometer investigar os crimes que o filme denuncia, passou a ameaçar os diretores com uma “investigação” sobre como e onde obtiveram as informações – supostamente sigilosas – divulgadas nele.

Nada disso intimida os diretores do NAZA que, declararam ao jornal Haaretz: “Nossa intenção é distribuir o filme em Israel”.

“Faremos de tudo para que o filme, que revela em detalhe os sistemas por trás do calculado assassinato em massa de civis palestinos em Gaza, seja visto o mais amplamente possível pelos israelenses”, acrescentam.

*Com contribuições de Yoav Goldrin

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