DAVI MOLINARI
O Fale Mais Sobre Isso estava sitiado.
Não por causa das eleições. Ainda.
Joel, apontador do bicho, discutia na entrada com Laranjão, o ricaço da cobertura ao lado e clone do Trump.
– Quero meu dinheiro.
– Que dinheiro?
– Do cachorro.
Joel consultou o caderninho.
– O senhor não jogou.
– Mas pensei em jogar.
– Pensamento paga prêmio em outro lugar.
– Eu falei com você naquele dia!
– Falou. Veio dizer que ia comprar a casa onde moro, me despejar e subir apartamentos de luxo.
– E falei em cachorro.
– Falou que soltaria os cachorros para me tirar de casa.
Juvenal chegou com duas tulipas e manjubinhas. Olhei para meu psicanalista de boteco e disparei:
– Doutor, no jogo a chance de perder é maior. Por isso Joel ainda trabalha e Laranjão joga.
O Doutor tirou o indefectível bloquinho.
Foi quando Diva entrou.
Joel e Laranjão bloqueavam a passagem.
– Licença, por favor.
Laranjão abriu espaço.
– Para você, sempre.
– Obrigada.
Ela passou.
Laranjão sorriu para Joel.
– Viu?
– O quê?
– Ela.
Diva ouviu.
– Eu o quê?
– Não precisa ficar constrangida.
– Com quê?
– Com o clima.
Diva olhou em volta.
– Juvenal, ligaram o ar-condicionado?
– Não temos.
– Então não tem clima nenhum.
O bar riu.
Laranjão insistiu:
– Você sorriu para mim.
– Educação.
– Mexeu o cabelo.
– E daí? Eu tenho cabelo.
– Pediu licença daquele jeito interessante…
– Eu só queria passar, seu babaca.
– Essa é a sua interpretação.
O boteco fez silêncio de ocorrência policial.
Juvenal entrou no meio.
– Quando a mulher tem que explicar o que quis dizer, é porque o homem precisa encerrar o papo.
Diva sentou conosco.
Olhei para o Doutor.
– Está vendo? Primeiro faz uma aposta que nunca fez. Agora recebe um “com licença” e já escolhe a viagem de lua de mel.
Ele anotou.
– Estou tentando entender o Brasil.
Diva pegou uma manjubinha.
– Coitado.
– Como duas pessoas olham a mesma realidade e veem coisas tão diferentes?
Juvenal serviu meu chope.
– Como assim?
– Flávio Bolsonaro, por exemplo.
Diva ergueu os olhos.
– Estragou a manjubinha.
– Apesar de todas as evidências e provas contrárias, há quem veja nele o homem para combater o crime organizado e a corrupção. Mas ele é exatamente o oposto do que diz ser.
– São duas visões contraditórias da mesma pessoa – disse Juvenal.
– Quero entender como as pessoas podem ter opiniões tão distantes uma da outra sobre a mesma coisa.
Diva apontou para Laranjão.
– Começa por aquele ali.
Ele ainda explicava a Joel que pensar na aposta quase a tornava válida.
– Talvez a escolha nem comece por quem a pessoa prefere, mas sim por quem rejeita – disse Juvenal.
– Primeiro: “esse eu não quero”. Depois o cérebro recebe a missão de provar que um outro serve.
Diva tomou um gole.
– Raciocínio motivado.
– Não roube minhas falas difíceis.
– Você estava demorando.
Apontei para Laranjão.
– Queria ter apostado, reformou a lembrança. Queria que Diva estivesse interessada, reformou o “com licença”. O fato continua no térreo; ele levanta uma cobertura de fantasia em cima e depois jura que sempre morou lá.
Juvenal assentiu.
– Sem planta, sem alvará e com vista panorâmica para a própria conveniência.
Olhei para o Doutor.
– E se às vezes a gente escolher primeiro o que quer afastar e só depois reorganizar a realidade para justificar o resto?
Diva apontou a manjubinha.
– Me inclua fora dessa gente.
Doeu mais do que deveria.
O Doutor percebeu. Fechou o bloquinho.
– O desejo não muda a realidade; mas afasta da consciência tudo o que a pessoa vê como ameaça à própria crença.
Silêncio.
Joel gritou da entrada:
– E ele continua sem ter apostado no cachorro!
Laranjão virou-se.
– Diva, posso pagar seu chope?
– Não.
Ele sorriu para Joel.
– Viu? Está se fazendo de difícil.
Juvenal recolheu tudo.
– Doutor, amanhã o senhor cobra duas sessões. Uma do paciente e outra da realidade.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CX. Enviado pelo autor.











