O bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA), Dom Vicente Ferreira, reagiu nesta segunda-feira (28) à acusação feita pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nas redes sociais, o religioso lembrou a postura do pai do candidato, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e a espionagem de bispos durante seu governo.
“O pai disse que a CNBB é a parte podre da Igreja Católica. Inclusive, vigiou bispos. Agora, o filho declara que ajudamos a divulgar Fake News. Valei-nos, Mãe Aparecida! Nossa rainha e padroeira. Que ninguém roube de nós a vontade de lutar sempre pela justiça e paz. Rogai por nós”, escreveu Dom Vicente.
A manifestação ocorreu um dia depois de Flávio afirmar, durante uma agenda de campanha em Goiânia (GO), que pessoas de dentro da CNBB teriam ajudado o PT a espalhar uma suposta notícia falsa de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
“O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente essa realidade”, acusou o candidato, sem apresentar provas.
A CNBB reagiu negando qualquer participação na produção ou divulgação da informação. Em nota, afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral” e ressaltou que não integra estruturas político-partidárias. A entidade disse ainda que suas manifestações são orientadas por princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.
Antes mesmo da reação de Dom Vicente, outros religiosos haviam criticado manifestações de Flávio. O bispo de Piracicaba (SP), Dom Devair Araújo da Fonseca, publicou vídeo no sábado (26) alertando para a circulação de notícias falsas e afirmando que os bispos “não têm partido”. No Amazonas, o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, defendeu a democracia e afirmou: “Nós não temos partido, mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres”. Bispos do Amazonas e de Roraima também se manifestaram em defesa da soberania nacional e contra a utilização da religião como instrumento eleitoral.
No Rio de Janeiro, Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos e integrante da CNBB, também cobrou explicações de Flávio sobre outra declaração do candidato: a promessa de, caso eleito, decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Para o religioso, a medida envolveria todas as religiões e levantaria questionamentos sobre a liberdade de crença e a laicidade do Estado.
ABIN PARALELA
A hostilidade contra a CNBB, lembrada por Dom Vicente, vem de antes da atual campanha. Em 2018, Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, chamou a entidade de “parte podre da Igreja Católica”. Durante seu governo, a relação com setores do episcopado também foi marcada por perseguições.
A referência de Dom Vicente à vigilância dos bispos remete ao caso da chamada “Abin Paralela”. Segundo relatório da Polícia Federal, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) pediu, em 2020, a elaboração de perfis de 152 bispos que haviam assinado uma carta com críticas à condução do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia. O levantamento aparece na investigação sobre o uso irregular da estrutura da Agência Brasileira de Inteligência.
Depois da reação da CNBB e do desgaste provocado pelos ataques proferidos, Flávio foi forçado a mudar o tom. Nesta segunda-feira, agradeceu à entidade pela nota e disse que ela teria “esclarecido” a questão. Questionado se se arrependia de ter acusado a CNBB, porém, não respondeu. Em outro momento, desconversou, afirmando que não opina sobre as regras da Igreja Católica.










