Presidente mexicana despediu-se do filho do general Lázaro Cárdenas, protagonista da nacionalização da indústria petrolífera, resgatando seu legado para a esquerda do país e latino-americana “cuja marca é a honestidade e a democracia que vem de baixo, com o povo no poder”
O México perdeu, na noite desta quarta-feira (28), uma das figuras mais proeminentes da política do país no último meio século. O engenheiro civil Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano faleceu de câncer aos 92 anos, após mais de seis décadas de intensa participação na vida pública nacional, na capital onde nasceu em 1934.
Filho do general Lázaro Cárdenas del Río, presidente da República entre 1934 e 1940, protagonista da nacionalização da indústria petrolífera em 1938, Cuauhtémoc carregou durante toda a vida o peso e a promessa de um sobrenome associado ao combate pela libertação da pátria e à construção de um Estado forte, soberano e voltado ao desenvolvimento. Descrito como herdeiro ideológico da corrente nacionalista do pai, em vez de governar sob a hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI) que o formou, precisou dedicar sua vida a enfrentá-la.
Na sua despedida, a presidente Claudia Sheinbaum o definiu como um homem de princípios firmes que transformou a vida política do país e deixa um legado para a esquerda mexicana e latino-americana “cuja marca é a honestidade e a democracia”, entendida como “a democracia que vem de baixo, não a democracia das elites, a democracia como o povo no poder”.
IMENSA CAPACIDADE DE SOMAR FORÇAS
Após iniciar sua militância no PRI, em 1954, teve sua primeira participação no Movimento de Libertação Nacional (MLN), entre 1961 e 1964, o qual, no interior do PRI, representou a capacidade de aglutinar jovens e canalizar propostas de grupos afastados do poder.
“Em 1974, com Jesús Reyes Heroles como presidente do PRI e Luis Echeverría como presidente da República, Cárdenas fez campanha como pré-candidato ao governo de Michoacán; contudo, o candidato escolhido foi Carlos Torres Manzo, o que levou o engenheiro a protestar publicamente contra a imposição”, recorda o La Jornada.
APOIO DO PARTIDO COMUNISTA
Em 1975, participou da pré-campanha de José López Portillo à presidência. Na ocasião, obteve a candidatura ao Senado por Michoacán, e o candidato do Partido Comunista, Manuel Pérez Adame, retirou sua própria candidatura para apoiar Cárdenas. Em 1980, venceu a eleição e tornou-se governador de Michoacán pelo PRI, exercendo o mandato até 1986.
Depois de governar Michoacán (um dos 31 estados mexicanos) entre 1980 e 1986, Cuauhtémoc Cárdenas lançou em 1987 a Corrente Democrática, que fraturou o domínio do PRI. A ruptura abriu caminho para a eleição presidencial de 1988, disputada sob a bandeira da Frente Democrática Nacional e até hoje contestada pelas inúmeras denúncias de fraude na apuração. Em 1989, Cuauhtémoc fundou o Partido da Revolução Democrática (PRD).
Candidato à presidência do México três vezes (1988, 1994 e 2000), nunca alcançou o posto. Ao longo de sua trajetória, canalizou o descontentamento popular por vias legais e pacíficas e se converteu, com um trabalho de edificação paciente e consciente, em eixo das diversas forças da esquerda mexicana.
Sua maior vitória eleitoral veio em 1997, quando se tornou o primeiro chefe de governo do então Distrito Federal escolhido pelo voto popular, encerrando décadas de regentes nomeados pelo Executivo nacional. O feito simbolizou a passagem de um sistema de cúpula para uma disputa real por legitimidade nas urnas.
DEFENSOR DO EZLN, DOS RECURSOS ENERGÉTICOS E DA SOBERANIA NACIONAL
Entre outras causas históricas, apoiou o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e defendeu os recursos energéticos e a soberania nacional.
Como parte da transformação do país, o engenheiro lutou pela transição democrática e, no ano 2000, acompanhou Andrés Manuel López Obrador na Aliança pela Cidade do México, na disputa pelo cargo de chefe de governo do Distrito Federal.
“Somos nós, os que estamos aqui, que a provocamos — nós a provocamos —, que minamos o regime”, afirmou Cárdenas durante o comício que liderou ao lado de Obrador na praça do Zócalo, no dia 6 de maio de 2000. “Nós minamos o PRI — nós, que estamos nesta praça, e os milhões de mexicanos que lutam pela democracia”, comemorou.
O nacionalismo que herdou do pai sempre integrou o seu DNA e sua identidade pública. Em março de 2026, aceitou a presidência honorária da Comissão Consultiva da Petróleos Mexicanos — criada para analisar o setor energético e apoiar a tomada de decisões da empresa estatal — anunciada por Claudia Sheinbaum na cerimônia dos 88 anos da expropriação petrolífera.
Há apenas um mês, a Universidade Nacional Autônoma do México (Unam) criou a Cátedra Cuauhtémoc Cárdenas para destacar a figura do engenheiro e o papel ativo que desempenhou na democratização do país.
“Cuauhtémoc Cárdenas foi um dos homens fundamentais no México de hoje. Foi um líder histórico do México moderno. Foi o homem que acendeu a centelha da esperança diante de um regime autoritário e anquilosado. Foi o grande precursor da jornada democrática contemporânea”, assinalou a secretária de Governo, Rosa Icela Rodríguez.
PAPEL CHAVE NA ARTICULAÇÃO DAS ESQUERDAS
A ministra das Mulheres do México, Laura Itzel Castillo, destacou o papel chave de Cárdenas na articulação das esquerdas e lembrou que seu pai, o engenheiro Heberto Castillo — então candidato à presidência pelo Partido Mexicano Socialista —, retirou sua candidatura em favor do líder, a fim de contribuir para a unidade das forças de oposição.
“Cuauhtémoc Cárdenas tornou-se o porta-voz de um povo sofrido e agredido”, definiu Laura, ao relacionar a trajetória dele às demandas de movimentos sociais, como os de médicos, eletricitários, ferroviários e estudantes. “O México perdeu um dos grandes referenciais democráticos, um lutador incansável pelas causas justas e um homem cuja coerência entre o pensamento e a ação constitui um de seus legados mais valiosos”, frisou.
Viúvo de Celeste Batel, morta em 2021, Cuauhtémoc deixa três filhos, entre eles Lázaro Cárdenas Batel. Deixa também um país que aprendeu muito com ele: que a democracia se constrói fortalecendo e unindo os laços do nacional e do popular.











