Governador eleito do Paraná critica ordem judicial contra aliado, mas ignora que a PF apontou risco de fuga e que o senador teria descumprido prazo para entregar os passaportes
O senador Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná, encontrou explicação generosa para a fuga de Flávio Bolsonaro rumo aos Estados Unidos: considerou a viagem “compreensível”. Na terça-feira (27), o ex-juiz questionou nas redes a determinação judicial que exigiu a entrega dos passaportes do candidato derrotado à Presidência.
“Em que tipo de país o candidato da oposição à Presidência, que teve 59 milhões de votos, tem o seu passaporte apreendido no dia seguinte à eleição?”, escreveu Moro. E concluiu: “O Brasil segue longe da normalidade institucional. No contexto, Flávio deixar o País é compreensível”.
Compreensível, talvez, para quem prefere enxergar perseguição onde há investigação e inconveniência onde há ordem judicial.
“RISCO CONCRETO DE EVASÃO”
O detalhe omitido pelo governador eleito é que a Polícia Federal apontou “risco concreto de evasão do território nacional” ao pedir medidas contra Flávio, investigado em inquérito sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Não há perseguição a ninguém, pois a mesma eleição que o levou ao segundo turno contra Lula, inclusive na frente do incumbente, elegeu 2 irmãos do presidenciável derrotado. Carlos Bolsonaro e Jair Renan foram eleitos, respectivamente, senador e deputado federal, por Santa Catarina.
ORDEM JUDICIAL É QUE ATRAPALHA NORMALIDADE?
A PF também citou o caso do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio e investigado no mesmo inquérito, que deixou o Brasil apesar de determinação judicial que o proibia de sair do País. Segundo a corporação, o episódio servia de precedente para justificar o risco de fuga.
Flávio acabou chegando a Miami com a família, depois de deixar o Brasil sem cumprir, segundo a PF, a ordem de entrega dos passaportes. O governo de Donald Trump confirmou a concessão de vistos à família. Já nos Estados Unidos, o senador passou a se apresentar como o verdadeiro “líder do País”, sob a alegação de fraude eleitoral sem apresentar nenhuma prova.
A ironia é que o homem que prometia liderar a oposição no Brasil parece ter encontrado mais conforto ser oposição a distância. E Moro, que fez carreira nacional sob o discurso do combate à corrupção e da defesa da Justiça, agora considera compreensível que aliado deixe o País em meio à investigação judicial.
NORMALIDADES DEMOCRÁTICAS
A pergunta que fica não é se Flávio tem direito à defesa. Evidentemente, tem. Afinal, a democracia é o regime político do Brasil.
E porque ordem judicial, tomada no contexto de investigação, seria prova de anormalidade institucional, enquanto possível descumprimento seria reação compreensível.
Na cartilha bolsonarista, ao que parece, a normalidade institucional vale até o momento em que alcança os próprios aliados. Depois disso, o passaporte vira símbolo de perseguição, a fronteira vira saída política e a fuga ganha nome mais elegante: “compreensível”.










