Relatório revela que quase 75% dos 117 civis mortos na Operação Contenção foram baleados nas costas e denuncia mais de 250 episódios de obstrução de câmeras corporais
Quase 75% dos 117 civis mortos na Operação Contenção, autorizada pelo então governador Cláudio Castro (PL) e realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, foram atingidos por pelo menos um tiro nas costas. Mais de 40% receberam disparos na cabeça, enquanto oito vítimas apresentavam dez ou mais marcas de entrada de projéteis. Os dados integram uma investigação da organização internacional Human Rights Watch (HRW), divulgada nesta quarta-feira (28), um ano após a ação policial que deixou 122 mortos, incluindo cinco policiais.
O levantamento aponta indícios de que policiais manipularam e obstruíram câmeras corporais para impedir o registro de suas ações durante a incursão. Nenhuma das 122 mortes foi captada pelos equipamentos analisados, apesar das 4.400 horas de gravações examinadas pela organização. A operação, conduzida pelo governo Cláudio Castro, é considerada a mais letal da história do país.
A investigação foi realizada ao longo de um ano. A HRW analisou 4.400 horas de imagens das câmeras corporais utilizadas por 527 policiais, 122 laudos de necropsia, cerca de 8,8 mil páginas da investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), mais de 500 vídeos e fotografias. Os pesquisadores também entrevistaram 41 familiares, moradores e autoridades.
Para organizar o material, a organização utilizou ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar disparos, abordagens e conversas relevantes. Os resultados foram examinados pelos pesquisadores e especialistas forenses.
Segundo a análise dos laudos, 62% das vítimas civis foram atingidas por pelo menos quatro tiros. Um homem de 37 anos recebeu ao menos 11 disparos nas costas, sete deles no lado esquerdo do peito, onde fica o coração. Outro homem, de 28 anos, levado ao hospital por policiais, tinha dez ferimentos provocados por tiros, dos quais pelo menos seis foram feitos a curta distância, inferior a 60 centímetros.
Para especialistas forenses consultados pela HRW, o número de disparos, a quantidade de ferimentos na cabeça e a localização dos tiros sugerem que muitas vítimas podem ter sido mortas intencionalmente. A organização ressalta que a falta de preservação adequada dos locais das mortes e as falhas na coleta de provas dificultam a reconstituição dos acontecimentos.
As gravações das câmeras corporais apresentam lacunas justamente no período em que a operação se tornou mais letal. A ação começou nas primeiras horas da manhã e se estendeu por cerca de 15 horas. Na área de mata conhecida como Vacaria, entre os complexos da Penha e do Alemão, onde ocorreu grande parte das mortes, as gravações das câmeras do Batalhão de Operações Especiais (Bope) cessaram completamente por volta das 12h11, ainda durante a operação.
A HRW documentou mais de 250 episódios de obstrução das câmeras. Entre as práticas identificadas estão cobrir as lentes, retirar os equipamentos do corpo, deixá-los em viaturas e permitir que as baterias se esgotassem antes dos momentos decisivos da operação.
A entidade também identificou situações em que policiais mantiveram os equipamentos ligados, mas impediram que registrassem adequadamente suas ações. Em 36% dos momentos em que um ou mais disparos foram captados pelas câmeras, as lentes estavam obstruídas.
O relatório afirma que essas falhas não podem ser tratadas apenas como problemas técnicos. A concentração das interrupções nos momentos de maior tensão e a ausência de imagens das mortes levantam suspeitas de que os equipamentos tenham sido utilizados de forma deliberada para evitar registros de possíveis abusos.
A investigação também identificou falhas na apuração oficial. Segundo a HRW, a Polícia Civil deixou de reunir informações básicas sobre 115 das 117 vítimas civis. A organização aponta ainda problemas na preservação dos locais das mortes e na realização das perícias necessárias.
Um ano depois da operação, mães e parentes das vítimas continuam cobrando esclarecimentos sobre as mortes e responsabilização dos agentes envolvidos. Em ato realizado nesta quarta-feira, na Vila Cruzeiro, na Penha, familiares homenagearam os mortos e denunciaram a falta de respostas das autoridades.
Tauã Brito, mãe de Wellington Brito, de 20 anos, relatou que tentou negociar a rendição do filho e pediu aos policiais autorização para entrar na área de mata onde ocorreram as mortes. Não conseguiu. Mais tarde, voltou ao local e encontrou o corpo do jovem.
“Não existe uma lei para quem mora em um condomínio da Barra da Tijuca e outra para quem mora na favela”, afirmou Tauã, ao denunciar o tratamento desigual dispensado aos moradores das comunidades. A mãe também questionou a atuação das forças de segurança e cobrou justiça pelo filho.
Maria Edvalda Cândida de Souza, mãe de Cleiton Cesar, de 32 anos, também cobrou providências. “Nosso coração está despedaçado por falta de respostas, a Justiça está para prender e não matar, né?”, disse. “Cleiton era um filho querido, amado pela família. Nós vamos buscar respostas, quero justiça para meu filho”.
Ana Paula Muniz, mãe de Diego dos Santos, de 30 anos, relatou a dor de ter enterrado o filho na véspera do aniversário dele. “Quero saber como foi, são muitas perguntas, aguardamos um laudo [da perícia da morte] que esclareça”, afirmou.
As famílias também denunciam que ainda não tiveram acesso a todos os laudos periciais e depoimentos relacionados à investigação. O Ministério Público do Rio de Janeiro ainda não esclareceu as circunstâncias individuais das 117 mortes de civis nem apresentou uma conclusão sobre a responsabilidade dos agentes envolvidos.
O procedimento investigatório continua em andamento, com análise de laudos, depoimentos e gravações das câmeras corporais. O promotor Fabio Correa, responsável pela investigação no MPRJ, afirmou que o órgão pretende esclarecer o que ocorreu. Dois casos foram considerados inicialmente atípicos: uma morte provocada por disparos a curta distância e a decapitação de Yago Ravel Rodrigues Rosário, que havia sido atingido por um tiro na região lombar.
O promotor reconheceu que a impossibilidade de realizar perícias nos locais das mortes dificulta a reconstituição dos fatos. Segundo o Ministério Público, a investigação reúne depoimentos de policiais e pessoas presas durante a operação, além de imagens e laudos médico-legais.
O Ministério Público já denunciou 28 policiais por outros crimes relacionados à operação, incluindo desvio de fuzis apreendidos, furtos, invasões de domicílio e constrangimento de moradores. Essas denúncias, porém, não representam uma conclusão sobre a responsabilidade pelas 117 mortes ocorridas durante a ação.
A operação mobilizou cerca de 2,5 mil agentes e foi apresentada pelo governo estadual como uma ação contra o Comando Vermelho. Ao todo, cinco policiais morreram – três civis e dois militares – diante de 117 vítimas civis.
Apesar da dimensão da incursão e do número de mortos, a investigação da HRW aponta que as falhas na preservação de provas e nas gravações policiais comprometem a possibilidade de esclarecer plenamente o que ocorreu. A entidade defende uma investigação completa e independente, que alcance não apenas os agentes que participaram diretamente da ação, mas também os comandantes e autoridades responsáveis pelo planejamento e pela execução da operação.
Para as famílias, a passagem de um ano não encerrou a busca por respostas. A homenagem realizada na Penha transformou o luto em cobrança pública por justiça, acesso aos laudos e esclarecimento das circunstâncias em que cada vítima morreu.











