São Paulo perdeu 23% das viagens de ônibus em seis anos e trabalhadores enfrentam espera e lotação

O número de viagens realizadas diariamente na capital paulista caiu 23% em seis anos— Foto: Guilherme Marconi/CBN

Levantamento aponta redução de 43 mil viagens diárias nos dias úteis e queda de 47% no transporte noturno. Menos ônibus aumentam o tempo de espera, a superlotação e a procura por aplicativos de transporte

O cotidiano do trabalhador paulistano é marcado por longos deslocamentos de casa para o trabalho, que podem chegar a duas horas de viagem, aumentando a estafa e o cansaço nesse processo. A sensação dessa parcela da população há tempos é de que parte desse tempo, porém, não é gasta no trajeto, mas sim na espera do ônibus para chegar ao destino ou ao transporte sobre trilhos.

Um levantamento feito pelo gabinete do vereador Nabil Bonduki (PT), divulgado pela Folha de S.Paulo, mostra que essa demora nos intervalos dos ônibus, com consequente aumento da lotação e do tempo para chegar em casa ou ao trabalho, não é uma realidade pontual, percebida por acaso, mas fruto da diminuição da oferta de veículos à disposição da população.

Dados do levantamento mostram que o número de viagens realizadas diariamente na capital paulista caiu 23% em seis anos, impactando tanto os dias úteis quanto os finais de semana, em todas as regiões da cidade. Durante os dias úteis, houve uma redução de 43.013 trajetos por dia. No caso do transporte noturno, a queda chega a quase metade das viagens de outrora, atingindo 47%.

No dia da votação do segundo turno das eleições presidenciais, no domingo (25), os relatos de filas e longa espera em pontos e terminais chamaram a atenção para uma mudança que vem sendo adotada pela gestão de Ricardo Nunes (MDB) para a mobilidade urbana nos últimos anos na cidade de São Paulo: a redução na oferta de ônibus.

Os dados compilados pelo mandato do vereador Nabil Bonduki (PT) compreendem a média de junho de 2019 e de junho de 2025, com informações fornecidas pela SPTrans por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Contrariando os dados e a percepção geral da população, a Prefeitura de Ricardo Nunes respondeu que a oferta de transporte público acompanha a demanda e que há uma redução no número de usuários em razão da adesão ao teletrabalho e da expansão da rede metroferroviária.

A prefeitura, em nota enviada à Folha, argumentou que “é equivocada a análise da reportagem, uma vez que desconsidera a demanda de passageiros em cada período para avaliar a oferta de viagens”. Afirmou também que houve aumento de 16% na proporção entre viagens programadas e passageiros em dias úteis.

Perguntamos a você, leitor que depende do ônibus para seu deslocamento todos os dias: é assim que você percebe a situação quando está espremido igual a sardinha em lata na volta para casa? Seguramente, não.

Isso porque, em números absolutos, os dados informados na nota mostram uma redução de 175.162 viagens programadas por dia útil em 2019 para 157.811 em 2025. Ou seja, uma queda de 17.281 viagens (9,9%).

A reportagem destaca que, diferentemente dos dados fornecidos via LAI, a comparação municipal considera apenas viagens programadas, e não as efetivamente realizadas, além de não incluir os finais de semana.

Outro ponto importante é que a queda total de viagens é maior do que a diminuição da frota contratada, que caiu 5,54% na média anual do mesmo período, de acordo com dados públicos divulgados mensalmente pela SPTrans. Ou seja, não só há menos ônibus, como a percepção geral dos paulistanos sugere, mas a redução no número de viagens realizadas foi ainda maior do que a diminuição de uma frota que já era menor.

A Prefeitura de Ricardo Nunes ignora que a superlotação dos ônibus é uma demanda histórica e argumenta que, no mesmo período, o número de passageiros transportados caiu 19,81%. Esse argumento faria sentido se a frota disponível fosse suficiente para garantir viagens confortáveis.

De acordo com levantamento divulgado pela SPTrans, a partir de entrevistas com aproximadamente 8 mil pessoas em 2025, a duração média das viagens é de 1 hora e 24 minutos. Nos horários de pico, os ônibus têm velocidade média de 15 km/h, chegando a 20 km/h nos corredores exclusivos, e o tempo médio de espera é de 11 minutos e 54 segundos.

Ainda de acordo com a própria SPTrans, há, em média, quase dois passageiros em pé por metro quadrado dentro dos ônibus. Vale lembrar que essa é uma média: há, portanto, viagens — especialmente nas regiões mais populosas — com lotação ainda maior.

Empresas de aplicativos de viagem ganham com a falta de ônibus

Uma pesquisa divulgada pela Fundação Seade neste mês, realizada com 8.189 moradores do estado de São Paulo, com 18 anos ou mais, entre maio e junho de 2026, aponta que 77% dos entrevistados avaliaram que a mobilidade por aplicativos ajuda quando o transporte público demora ou é difícil de utilizar. Além disso, 58% responderam que os aplicativos ajudam a evitar situações de risco e trazem mais segurança.

De acordo com a pesquisa, 47% das pessoas disseram que utilizam aplicativos para trajetos curtos, 19% para trajetos longos e 34% para ambas as situações. As viagens são solicitadas mesmo em pontos de ônibus, terminais e estações, como resposta à precariedade imposta ao transporte público.

Na reportagem da Folha, Luiz Vicente de Mello Filho, especialista em mobilidade com pós-doutorado em engenharia de transportes pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), destaca que essa concorrência não ocorre de forma expressiva com o metrô, pois esse meio de transporte tem maior previsibilidade e intervalos curtos de espera, entre outras vantagens. Além disso, pontua que o poder público deveria considerar que o fortalecimento do transporte coletivo traz diversos ganhos à cidade, enquanto os aplicativos tendem a piorar a circulação no trânsito, além de provocar maiores impactos ao meio ambiente.

Enquanto isso, de acordo com relatório anual da SPTrans, a Prefeitura repassou R$ 7,12 bilhões em compensações tarifárias às empresas de ônibus em 2025. Ganham as empresas de ônibus, ganham as plataformas de aplicativos e a população adoece em meio a um trânsito caótico.

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