Tarcísio inicia tarifaço nos pedágios de São Paulo um mês depois das eleições

Sob Tarcísio, número de pedágios se multiplica em São Paulo - Foto: Reprodução

Em São Paulo, o estelionato eleitoral se confirma com o aumento das tarifas de pedágio, anunciado dois dias depois do segundo turno das eleições. Após passar a campanha atacando o governo federal sob o argumento de que os impostos e os preços estavam elevados, o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) autorizou reajuste de 4,58% nas cobranças das rodovias paulistas. A medida entrou em vigor em 1º de novembro, quando já estavam encerradas as urnas.

A decisão atinge os pedágios eletrônicos administrados pela Concessionária Novo Litoral (CNL), nas rodovias Mogi-Bertioga, Mogi-Dutra, Rio-Santos e Padre Manoel da Nóbrega. Na Mogi-Bertioga, a tarifa para automóveis passou de R$ 6,95 para R$ 7,27. Na Rio-Santos, em Santos, subiu de R$ 5,80 para R$ 6,07. O governo justifica a atualização pela inflação medida pelo IPCA, conforme previsão contratual.

O aumento foi autorizado pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) em 27 de outubro, publicado no dia seguinte e aplicado a partir de 1º de novembro. A cobrança é feita pelo sistema free flow, modelo que dispensa praças físicas e cancelas. Pórticos equipados com câmeras e sensores identificam as placas dos veículos ou os dispositivos eletrônicos instalados nos para-brisas e registram automaticamente a passagem. Quem não utiliza tag precisa consultar e quitar o débito pelos canais da concessionária.

O reajuste alcança cinco pórticos em funcionamento nas regiões do Alto Tietê, da Baixada Santista e do Vale do Ribeira. A ampliação desse modelo de cobrança é uma das marcas da política de privatista de Tarcísio, que espalha pontos de pagamento eletrônico pelas rodovias paulistas.

A contradição entre a propaganda eleitoral e as decisões tomadas depois da votação foi denunciada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. Em publicação na rede social X, ele afirmou: “Depois do aumento do ICMS do diesel, o governador Tarcísio resolveu aumentar pedágios em SP. Aumentou em 4,58% os pedágios da Mogi-Bertioga, Mogi-Dutra, Rio-Santos e Padre Manoel da Nóbrega. Na campanha, o discurso era aliviar o bolso do cidadão e acusar o governo Lula de taxas e impostos. Passaram as eleições, chegou a conta!”

A deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP), em entrevista ao Brasil de Fato, também criticou o aumento, que, segundo ela, integra uma manobra dos governadores para transferir ao governo federal a responsabilidade pelo encarecimento dos preços para atingir o presidente Lula. “Mais uma vez São Paulo está caindo na conversa de Tarcísio. Isso é manobra ‘politiqueira’ para tentar prejudicar Lula. Foi uma sacanagem dos governadores”, declarou. 

Sobre o aumento dos pedágios, Ediane afirmou que o governador “sempre vai na manobra da distorção dos fatos” e lembrou que, durante a campanha, ele prometeu não reajustar as tarifas.

O deputado estadual Carlos Giannazi, também do PSOL, reforçou as críticas ao aumento. Em vídeo divulgado nas redes sociais, denunciou os efeitos da medida sobre o custo de vida. “Em pleno feriado, ele aumentou os pedágios. Que absurdo isso. Vai aumentar drasticamente o custo de vida, a cesta básica, o arroz, o feijão, os produtos que você compra lá na ponta” alertou.

CONCESSIONÁRIAS PROTEGIDAS

A política de privatizações também revela uma diferença de tratamento entre os usuários das rodovias e as empresas responsáveis pela cobrança. Em fevereiro de 2026, o governo paulista assinou um aditivo com a Rota Sorocabana, empresa do grupo Motiva, antigo CCR, adiando para 1º de janeiro de 2027 o início da cobrança em 11 pórticos eletrônicos. Parte deles deveria entrar em funcionamento em setembro, antes das eleições.

O adiamento, entretanto, não significa que a concessionária ficará sem a receita prevista. O contrato determina que a Artesp calcule quanto a empresa teria arrecadado se os pedágios tivessem começado a funcionar nas datas originalmente estabelecidas. A diferença será considerada na recomposição do equilíbrio econômico-financeiro da concessão.

O valor da eventual compensação ainda não foi divulgado. Entre os mecanismos previstos no contrato estão pagamentos públicos, utilização de recursos da conta de ajuste da concessão ou alterações tarifárias. Portanto, a decisão de adiar a cobrança não elimina a possibilidade de que o custo seja transferido ao poder público ou aos próprios usuários.

Em declaração publicada no site da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), o presidente da CTB-SP, Rene Vicente, questionou os beneficiários desse modelo de gestão.

“É preciso questionar quem realmente está ganhando com esse modelo de gestão. A população paga cada vez mais caro para utilizar as rodovias, enquanto os serviços públicos e a infraestrutura de transporte não avançam no ritmo prometido. O governo faz propaganda das concessões, mas quem sente o peso dessas decisões no orçamento é o povo trabalhador”, afirmou.

Para o dirigente, a mobilidade não pode ser tratada como oportunidade de negócio para empresas privadas. “Não é aceitável que a população tenha de conviver com tarifas cada vez mais altas, atrasos nas obras e serviços que não correspondem às expectativas criadas pelo próprio governo”, afirmou. “Transporte público é um direito, não pode ser tratado apenas como oportunidade de negócio. São os trabalhadores que dependem diariamente desses serviços e que acabam pagando a conta de uma política que privilegia os interesses privados”, apontou.

Enquanto motoristas pagam mais caro para circular pelas rodovias, passageiros do transporte público continuam esperando obras anunciadas pelo governo. Duas estações da Linha 6-Laranja do metrô, Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado, previstas para outubro, não foram entregues no prazo. A nova previsão é o fim de 2026, sem data definida.

A Artesp informou que as obras estavam 96,3% e 87,7% concluídas, respectivamente. O atraso ocorre depois de a agência reconhecer, em dezembro de 2025, um desequilíbrio contratual de R$ 3,69 bilhões em favor da concessionária Linha Universidade.

O montante, calculado a preços de março de 2025, considera riscos identificados durante as obras e a adoção de um cronograma acelerado. O reconhecimento não representou pagamento imediato: a forma de recomposição ainda depende de aditivo contratual.

Em julho, Tarcísio antecipou a inauguração de seis estações, poucos dias antes do início das restrições eleitorais à participação de candidatos em inaugurações públicas. O trecho aberto, entretanto, funciona em operação assistida, de segunda a sexta-feira, das 10h às 15h, sem cobrança de passagem.

Também foi adiada a conclusão da passagem subterrânea entre as estações Paulista, da Linha 4-Amarela, e Consolação, da Linha 2-Verde. A entrega, prevista para outubro de 2026, passou para agosto de 2027.

O quadro escancara as prioridades de uma gestão que apresenta as concessões privadas como solução para a infraestrutura paulista, mas mantém a população submetida a tarifas maiores, enquanto obras e entregas anunciadas não são cumpridas nos prazos prometidos. Os compromissos financeiros com as concessionárias, por outro lado, permanecem protegidos pelos contratos. Ao mesmo tempo, expõe a farsa eleitoral que marcou a campanha de reeleição do bolsonarista Tarcísio de Freitas.

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