Privatizada pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), em julho de 2024, a Sabesp segue colocando seu patrimônio à disposição dos interesses privados. Agora, imóveis da companhia estão sendo negociados com a incorporadora Cyrela para a construção de empreendimentos imobiliários em São Paulo.
A operação foi revelada pela Folha de S.Paulo, na quarta-feira (4), e tem como agravante o sigilo sobre os endereços dos imóveis e os valores envolvidos. A movimentação provocou questionamentos de parlamentares e reação de internautas, diante da transformação do patrimônio de uma empresa pública em oportunidade de negócios para o mercado imobiliário.
Segundo a Folha, a Cyrela apresentou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) um pedido para adquirir imóveis da companhia com a finalidade de desenvolver empreendimentos imobiliários. No documento, a incorporadora afirma que a operação ampliará a oferta de prédios novos em São Paulo e a classifica como um “negócio jurídico intrínseco ao cotidiano de uma incorporadora”. Nem a empresa nem a Sabesp quiseram comentar a negociação. Os endereços dos bens e o valor da transação foram mantidos sob confidencialidade.
Um dos imóveis que a Sabesp colocou à venda no início deste ano é um terreno de aproximadamente 3 mil metros quadrados na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo com a Rua Barão de Capanema, nos Jardins, a poucos metros da Rua Oscar Freire. Considerado um dos últimos grandes terrenos disponíveis naquela região, o imóvel despertou o interesse de dez incorporadoras. De acordo com a apuração do veículo, as propostas variaram de R$ 50 mil a R$ 70 mil por metro quadrado, o que poderia elevar o preço total para algo entre R$ 154 milhões e R$ 215 milhões. A Trisul chegou a participar das negociações. Ainda não há confirmação, porém, de que esse terreno esteja incluído na operação com a Cyrela.
A comercialização da área já havia provocado questionamentos do vereador Nabil Bonduki (PT), que acionou formalmente a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), por meio da indicação 143/2026. O parlamentar chamou a atenção para o fato de que o terreno abriga a Estação Elevatória de Água Barão de Capanema, desativada desde 2004, mas cuja possível reativação consta dos cenários do planejamento de abastecimento da própria Sabesp para garantir o atendimento até 2045.
A estrutura tem importância estratégica para o abastecimento da região da Avenida Paulista, que concentra hospitais e unidades de saúde. Bonduki alertou que a venda do terreno e a retirada dos equipamentos podem comprometer essa possibilidade e exigir obras de difícil execução e alto custo para transportar água por outros caminhos. Por isso, cobrou os estudos técnicos que fundamentaram a decisão de colocar a área à venda.
Em resposta ao vereador, a Arsesp informou que não havia recebido solicitação formal de anuência para a comercialização daquele imóvel. A agência ressaltou que a alienação de bens vinculados à prestação do serviço depende de autorização regulatória prévia, com análise individualizada das condições de continuidade, segurança e confiabilidade do abastecimento. A própria reguladora admitiu não dispor de uma relação consolidada dos imóveis que a concessionária pretende vender, uma vez que não existe obrigação de comunicação sistemática dessas operações.
A Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) ingressou com uma ação popular para tentar anular a venda dos imóveis da Sabesp. A iniciativa questiona a negociação do patrimônio da companhia sem transparência sobre os bens envolvidos e os valores da operação, além dos possíveis impactos da alienação de áreas que podem ser necessárias à prestação dos serviços de abastecimento.
O deputado estadual Mauro Maurici (PT) também criticou a operação. Em manifestação nas redes sociais, destacou que a população desconhece quais imóveis estão sendo negociados e por quais valores. “Depois de privatizar a Sabesp, Tarcísio agora vê o patrimônio da companhia sendo negociado com o mercado imobiliário, enquanto os imóveis envolvidos e os valores da transação ficam sob sigilo. A população não sabe exatamente o que está sendo vendido nem por quanto”, denunciou.
Maurici chamou a atenção especialmente para o terreno dos Jardins e para a possibilidade de reativação da estação elevatória. “Estudos de planejamento da própria Sabesp apontam a possibilidade de reativar essa estrutura para garantir o abastecimento até 2045, inclusive em uma região que concentra hospitais e unidades de saúde”, ressaltou.
O deputado também destacou que a Arsesp não recebeu pedido formal de autorização para a venda do imóvel e que a alienação de bens vinculados ao serviço exige avaliação técnica. “É isso que acontece quando o controle de uma empresa responsável por um serviço essencial sai das mãos do Estado. Quem garante que o interesse da população vai estar acima dos interesses imobiliários?”, questionou. Ao final, advertiu: “O patrimônio do povo paulista não pode ser tratado sem transparência e responsabilidade!”
As críticas também apareceram nos comentários de leitores da Folha e nas manifestações de seguidores do deputado no Instagram. Na página do jornal, um internauta questionou a atuação da incorporadora na aquisição de áreas públicas: “Cryrela é a compradora e a donatária esrrelada no Brasil, ela é a Dona dos terrenos e equipamentos imobiliários de municípios e Estados! Vive de capturar terrenos públicos no precinho”.
No Instagram de Maurici, os comentários expressaram indignação com a negociação e com a privatização da companhia. “Haddad iria tentar reverter essas privatizações… mas quem votou só pensando em si mesmo, fez sua escolha, agora todo mundo tem que aguentar as consequências!”, escreveu uma seguidora. Outro comentário resumiu a preocupação com o patrimônio estadual: “Vai fazer a festa com tudo que é público no estado de SP, por mais quatro anos. MISERICÓRDIA”.
A possível repercussão da venda sobre o abastecimento também foi mencionada. “Só quero ver como ficarão os hospitais da avenida Paulista. É assustador”, escreveu uma internauta. Outros seguidores criticaram o processo de privatização e seus efeitos sobre São Paulo: “Que tristeza, São Paulo!!!! Quatro anos de desmonte” e “Vitória de Tarcísio é derrota para São Paulo”, foram algumas das manifestações.
A negociação evidencia que, mesmo depois da transferência do controle da Sabesp à iniciativa privada, o patrimônio acumulado pela companhia ao longo de sua história continua sendo convertido em oportunidade de exploração econômica. Com o governo paulista reduzido a 18% do capital da empresa, a população perde instrumentos de controle sobre decisões que envolvem imóveis e estruturas que podem ser fundamentais para o abastecimento.











