DAVI MOLINARI
O Fale Mais Sobre Isso estava com a televisão ligada e a realidade desligada. Pelo menos era essa a impressão que tive ao chegar para minha sessão semanal de psicanálise.
Na tela, o Paraguai enfrentava uma crise bancária que havia derrubado um presidente. Um país que alguns vendiam como a Suíça das Américas, onde a prosperidade floresceria graças aos impostos baixos, descobria que o Estado, aquele sujeito indesejável, fazia falta na hora de proteger o dinheiro dos cidadãos.
– Juvenal, você sabia que a Suíça cobra impostos?
– Sabia, meu analisado. Lá até a ilusão deve declarar renda.
O Doutor levantou os olhos do bloquinho. Seus óculos escorregaram discretamente pelo nariz. Interpretei o gesto como uma advertência contra a tentação de analisar a economia paraguaia antes de resolver meus próprios problemas.
Pedi uma tulipa de chope e uma porção de manjubinhas.
Na mesa ao lado, um sujeito de camisa florida gritava para o celular.
– Agora vai! Tenho certeza! É hoje que fico rico!
Joel, o apontador do bicho, o advertira.
– Deixa disso, seu Clóvis, aposta no burro que dá mais certo.
A televisão começou a transmitir uma partida de futebol. O homem havia apostado numa dessas bets clandestinas que prometem transformar qualquer desgraçado em milionário, desde que ele contribua regularmente para a fortuna dos donos da plataforma.
– Ganhou? – perguntei.
– Ainda não. Mas estou sentindo!
Era impressionante. O sujeito já comemorava um dinheiro que não tinha, numa partida que não terminara, com uma convicção que nem os jogadores demonstravam em campo.
– Juvenal, esse homem está feliz antes de ganhar.
– É o único investimento em que o prejuízo vem depois da felicidade.
Fiquei pensando naquilo. O apostador comprava alguns minutos de uma vida imaginária. Enquanto a bola rolava, ele não tinha dívidas, prestações atrasadas nem patrão insuportável. Era milionário por antecipação.
Quando perdesse, bastaria apostar novamente para recuperar aquela sensação. A euforia era entregue na hora. O prêmio, se viesse, seria um acidente.
Olhei para o Doutor.
– Será que a ilusão funciona como uma droga?
Ele anotou alguma coisa. Talvez estivesse calculando quantas sessões ainda seriam necessárias para me convencer de que uma pergunta não precisa ser respondida imediatamente.
Clóvis, de repente, xingou o juiz, a televisão, o atacante e a mãe do bandeirinha. Cinco minutos depois, estava sorrindo novamente diante de outra partida.
A esperança havia sido renovada no cartão de crédito.
– Isso não é esperança, Juvenal. É um financiamento da frustração.
– Com juros compostos, meu analisado.
Na televisão, as imagens mudaram. Jovens espanhóis ocupavam as ruas contra os preços dos aluguéis. Na França, estudantes protestavam diante das dificuldades de construir um futuro.
Uma geração que estudava, trabalhava e descobria que talvez jamais conseguisse morar na cidade onde nasceu.
– Esses jovens também estão apostando num futuro melhor – observei.
– Mas não estão sentados esperando sair o resultado – respondeu Juvenal, recolhendo os copos vazios.
Aquilo me incomodou.
Passei a vida ouvindo que era preciso acreditar. Ter fé. Pensar positivo. Visualizar a vitória. Como se a realidade fosse uma espécie de garçom cósmico, obrigado a atender qualquer pedido formulado com suficiente entusiasmo.
Talvez fosse esse o problema.
O apostador acreditava que ficaria rico. Os vendedores de paraísos fiscais acreditavam que o mercado resolveria tudo sozinho. E os jovens nas ruas acreditavam que poderiam conquistar uma sociedade diferente.
Todos imaginavam um futuro que ainda não existia.
Mas havia uma diferença.
Uns esperavam que a realidade obedecesse aos seus desejos. Outros se organizavam para modificá-la.
Na cozinha, Maria apareceu com uma travessa de manjubinhas.
– Se esperança pagasse aluguel, ninguém estava morando com os pais até os quarenta anos!
João, que a acompanhava, acrescentou:
– Mas, se ninguém tivesse esperança, a gente ainda estaria trabalhando de graça para algum senhor feudal.
Maria voltou para a cozinha, deixando no ar uma questão que nem a fritura conseguia disfarçar.
Será que a humanidade teria sobrevivido sem a capacidade de imaginar aquilo que ainda não existe?
Pensei nas revoluções, nas conquistas sociais, nas descobertas científicas. Antes de se tornarem realidade, todas haviam sido possibilidades imaginadas por alguém.
A esperança parecia ter uma qualidade que faltava à ilusão: não exigia fechar os olhos diante dos obstáculos.
Ao contrário. Precisava enxergá-los.
Clóvis soltou outro grito. Havia perdido novamente.
– Agora vou dobrar a aposta!
– Vai dobrar o prejuízo – advertiu Juvenal.
– Joga no burro, Clóvis! Disse o Joel.
– Você não entende! Quem acredita sempre alcança!
Juvenal olhou para mim.
– Se fosse assim, meu analisado, o banco não precisava de garantia. Bastava aceitar fé como entrada do financiamento.
Ri, mas a questão continuava me atormentando.
A ilusão era confortável porque dispensava o confronto com a realidade. A esperança, ao contrário, podia ser profundamente incômoda. Exigia reconhecer a injustiça, admitir a dificuldade e descobrir caminhos para superá-la.
Uma prometia milagres. A outra exigia trabalho.
Talvez por isso fosse tão fácil vender ilusões e tão difícil organizar esperanças.
No intervalo do jogo, a televisão exibia que os manifestantes continuavam marchando. Não havia garantia de vitória. Nenhum deles sabia se conseguiria mudar as regras do mercado imobiliário, conquistar melhores salários ou construir outra forma de sociedade.
Mas estavam nas ruas.
Não esperavam o resultado de um sorteio.
Participavam da disputa.
Olhei para o Doutor, que permanecia em silêncio desde minha chegada.
– Então é isso? A ilusão nos ajuda a suportar o mundo, enquanto a esperança nos obriga a transformá-lo?
Ele fechou o bloquinho, ajeitou os óculos e finalmente pronunciou sua sentença:
– A ilusão exige que a realidade obedeça ao desejo; a esperança exige que o desejo encontre caminhos na realidade.
Juvenal trouxe a conta.
– E o senhor, meu analisado, vai pagar com esperança ou com Pix?
Olhei o valor, consultei o saldo e respondi:
– Juvenal, por enquanto, minha esperança é que você tenha anotado uma tulipa a mais.
– Isso não é esperança, meu analisado. É ilusão.
E me apresentou a realidade, devidamente discriminada na comanda.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CXVI. Enviado pelo autor.











