“Reação popular impediu fuga de Peña aos EUA”, afirma senadora Esperanza Martínez

Senadora Esperanza Martínez, do Partido Participação Cidadã, liderança da Frente Guasú (Redes Sociais)

Dirigente da Frente Guasú relata bastidores da crise política que levou à destituição e prisão do presidente Santiago Peña, denuncia a operação para garantir sua impunidade e aponta a influência trumpista na tentativa de preservar sua “menina dos olhos”

A profunda crise que levou à queda do presidente do Paraguai, Santiago Peña, expôs o grau de degeneração do Partido Colorado, a corrupção no sistema financeiro e a armação criminosa para tentar garantir uma saída sem consequências judiciais. É o que afirma a senadora oposicionista Esperanza Martínez, dirigente da Frente Guasú e ex-ministra da Saúde e Bem-Estar Social de Fernando Lugo (2008-2012). Em entrevista exclusiva, ela conta que amparado na mobilização popular, o parlamento agiu rápido para barrar a renúncia de Peña, que lhe daria o posto de senador vitalício, foro privilegiado e tempo para fugir aos Estados Unidos – como fez Flávio Bolsonaro.

No centro do escândalo está o Ueno Bank, com 3 milhões de clientes num país de 6,5 milhões de habitantes, sustentado por mais de 50 empresas de fachada, promiscuidade e omissão dos órgãos de controle. Para Esperanza, a briga do “Trinômio de Ouro”, formado por Horacio Cartes, Peña e Pedro Alliana, expõe a dimensão da degradação de uma oligarquia que deu as costas ao país. A líder oposicionista destaca o papel da juventude nas ruas, denuncia a pressão da embaixada americana para proteger a “menina dos olhos” de Washington e reitera o papel da unidade para a vitória sobre as forças do atraso nas próximas eleições.

LEONARDO WEXELL SEVERO

Como a senhora avalia a relação entre Horacio Cartes, Santiago Peña e Pedro Alliana? Há uma cumplicidade entre eles?

Todos fazem parte do mesmo grupo. O presidente da República, o vice-presidente e Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e ex-presidente do país, integram a mesma equipe. O que aconteceu foi uma disputa de poder entre eles.

Cartes percebeu que a situação estava saindo do controle. Tudo isso foi um esquema iniciado por Santiago Peña, uma espécie de psicopata sempre sorridente, que acabou acreditando ter poder suficiente para se impor. Cartes preferiu expor o problema agora, um ano e meio antes das eleições, porque, caso contrário, o Partido Colorado corria o risco de entrar em colapso.

Assim como havia o “Quadrinômio de Ouro”, o círculo íntimo mais poderoso e influente do general Alfredo Stroessner no final da ditadura militar no Paraguai (1954–1989), hoje, podemos falar em um novo “Trinômio de Ouro”: Cartes, Peña e Alliana. Há muito dinheiro e muito poder envolvidos. O problema é que Peña passou a acreditar que controlava tudo. Chegou a dizer que tinha a caneta, o dinheiro e o território.

Como Peña construiu essa base de poder?

Ele utilizou o programa “Fome Zero” do Paraguai, financiado com recursos de Itaipu, para fortalecer sua influência sobre os governadores. Eram milhões e milhões de dólares destinados aos governos regionais, que constituíam sua base territorial.

Mas a reação de Cartes foi devastadora. Em menos de uma semana, deputados, senadores e governadores que estavam com ele passaram para o lado de Peña. Cartes ficou praticamente sozinho.

Depois, quando todos imaginavam que ele estava politicamente acabado, Cartes desencadeou a ofensiva. Gravou até um vídeo com um capacete de obra, simulando a detonação de uma dinamite. Cinco dias depois, veio a explosão política que atingiu praticamente todo o governo, o setor privado e o sistema financeiro.

Qual é a dimensão do escândalo envolvendo o Ueno Bank?

É algo gigantesco. Estamos falando de um banco que tinha aproximadamente 3 milhões de usuários em um país de 6,5 milhões de habitantes. Estava presente na vida cotidiana de milhões de paraguaios, inclusive crianças, que tinham cartões para “aprender a poupar”.

O banco oferecia vantagens, descontos e reembolsos. Milhares de estabelecimentos comerciais trabalhavam com seus cartões. Estádios de futebol, atividades empresariais e grandes eventos exibiam sua marca. Para entrar nesses locais, era preciso ter o cartão, e eles conseguiram digitalizar o rosto de todos os paraguaios, o que foi muito criticado. Sabemos que todas as centrais de inteligência de Israel e dos Estados Unidos estão no nosso país. Foi uma farsa fenomenal, inclusive para a classe média. A população confiava na instituição.

O problema é que ali estavam recursos da Previdência Social, dinheiro das hidrelétricas de Itaipu e Yacyretá, verbas de ministérios, órgãos públicos e empresas estatais, além das economias de milhares de pequenos empresários.

A repercussão econômica é imensa. Muitas pessoas ficaram sem acesso ao próprio dinheiro. É como se em um velório a família não conseguisse pagar as despesas, não por falta de recursos, mas porque estava com as contas bloqueadas.

A senhora denuncia que havia uma engenharia financeira organizada para sustentar esse esquema criminoso. Como funcionava?

Existiam mais de 50 empresas de fachada, as chamadas empresas de maleta. Elas emprestavam dinheiro umas às outras, e os recursos acabavam retornando ao banco para reforçar artificialmente seu capital.

Foi montada uma engenharia de fraude extraordinária. Isso só foi possível porque o presidente do Banco Central era um ex-gerente do próprio Ueno Bank. A Superintendência de Bancos também não cumpriu seu papel de fiscalização.

O governo modificou leis e regras que permitiram a expansão desse negócio. Peña, que é economista e conhece profundamente o setor financeiro, preparou essa estrutura ainda quando era candidato. Durante seu governo, a instituição passou de financeira a banco e ganhou uma posição dominante no mercado em menos de três anos.

Há também denúncias de movimentações internacionais e de utilização de dinheiro público em eventos fascistóides nos Estados Unidos.

Um dos episódios mais escandalosos foi a destinação de 100 mil dólares pelo banco para uma cerimônia da extrema direita realizada na mansão de Trump em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, organizada por Fernando Cerimedo e Eduardo Bolsonaro. Estamos falando de recursos paraguaios, inclusive de aposentados, patrocinando um evento político dessa natureza.

Também há informações sobre as viagens internacionais de Peña. Ele realizou 70 viagens em três anos. Foi à Hungria e, dez dias depois, um dos principais bancos daquele país firmou um acordo com o Ueno Bank. Precisamos saber o que foi negociado e para onde foram os recursos.

Em Luxemburgo, o irmão de Peña abriu uma conta e assumiu ações que estavam em nome do presidente. Quando veio à tona que Peña era acionista da offshore U Holdings S.à r.l., ele deixou sua participação e transferiu as ações ao irmão.

Como uma crise desse tamanho acabou se transformando numa disputa dentro do próprio Partido Colorado?

Porque todos fazem parte do mesmo projeto político. Agora, querem colocar toda a responsabilidade nas costas de Peña, como se os demais fossem inocentes. Cartes não assume a liderança diretamente, mas está por trás da articulação.

Montaram uma verdadeira comédia em três atos. Primeiro, o escândalo veio à tona e nós, da oposição, mesmo sendo minoria na Câmara dos Deputados, conseguimos apresentar o pedido de impeachment.

Naquela noite, não havia votos suficientes. Na manhã seguinte, os deputados foram convocados à Junta de Governo do Partido Colorado, onde Cartes os esperava. O chefe deu a ordem: apoiar o impeachment. De repente, aqueles que até então sustentavam o governo passaram a posar como grandes defensores da justiça e da punição dos corruptos.

E quando surgiu a possibilidade de Peña renunciar?

Aí começou o segundo ato da operação. A renúncia obrigaria o Congresso, em sessão conjunta, a decidir se a aceitava ou não. Mas havia uma armadilha: se a renúncia fosse aceita, Peña se tornaria senador vitalício, com direito à voz e foro privilegiado, embora sem direito a voto.

Isso significaria permitir que ele saísse do governo protegido por uma condição especial, ganhando tempo para escapar das consequências judiciais. Para isso, Peña chamava os parlamentares e ameaçava jogar merda no ventilador.

Nós defendemos que a renúncia não fosse aceita. Se o impeachment prosseguisse, ele deixaria o cargo como um cidadão comum, sujeito às investigações e às medidas judiciais cabíveis.

A senhora denunciou que havia o risco de Peña fugir para os Estados Unidos. Como chegaram a essa conclusão?

Porque a aceitação da renúncia daria a ele tempo para organizar sua saída. Seriam necessários cerca de 15 dias para que se desenvolvesse o procedimento judicial necessário à retirada do foro. Nesse tempo, poderia já estar nos EUA, como aconteceu recentemente com Flávio Bolsonaro.

Foi por isso que agimos rapidamente. Impedimos que os votos necessários fossem obtidos para aceitar a renúncia. No Senado, a votação terminou em 24 a 20 pela rejeição, com uma ausência. Cinco senadores do Partido Colorado, de uma corrente dissidente, votaram conosco. A partir daí, o processo de impeachment teve continuidade. O objetivo era impedir a impunidade e evitar que Peña ganhasse tempo para deixar o país.

Qual foi o papel da mobilização popular nessa vitória?

Foi fundamental. Não bastava a firmeza dos senadores da oposição. Precisávamos das pessoas nas ruas, especialmente daqueles que haviam sido diretamente prejudicados pelo colapso do banco.

Fiz um apelo público para que a população se mobilizasse. Disse que precisávamos de 100 mil pessoas nas ruas, porque, sem pressão popular, eles poderiam começar a comprar apoios e fazer com que a sociedade esquecesse o escândalo.

As redes sociais ajudaram muito, mas o mais importante foi a participação da juventude. Estudantes do ensino médio, universitários e milhares de jovens demonstraram uma enorme disposição de lutar por justiça.

Depois da sessão, fui para a rua com eles. Foi como receber uma injeção de vitamina. Vi uma geração com convicção, paixão e desejo de mudança. É disso que o Paraguai precisa.

A senhora também mencionou a pressão da embaixada dos Estados Unidos. Qual foi a influência trumpista nesse processo?

A embaixada americana ligava constantemente. Peña era tratado como o filho predileto, o queridinho, seu querubim, como a menina dos olhos dos Estados Unidos. Havia um interesse muito grande em preservar essa estrutura política. Mas Cartes viu a necessidade de retirar Peña de cena, atribuir a ele toda a responsabilidade e poupar os demais.

Queriam que ele tivesse tempo para sair com imunidade e, depois, pegar um avião e não voltar mais. Não conseguiram. Felizmente, a firmeza da oposição e a mobilização popular impediram que a manobra se consumasse.

Como construir uma alternativa política capaz de derrotar o Partido Colorado nas eleições de 2028?

Precisamos construir uma grande unidade eleitoral, que reúna desde a direita democrática e os setores conservadores até o centro e as forças progressistas. O objetivo é enfrentar o Partido Colorado, que está no poder há 70 anos e controla uma estrutura gigantesca de recursos públicos e privados.

Hoje, existe um desgaste muito profundo. A população foi convencida de que Peña era um Chicago Boy, que iria fazer um boom, que, como dizia, seria “um gigante que se levanta”. O fato é que a crise atingiu diretamente o bolso das pessoas. O sentimento de revolta é enorme.

Devemos apresentar um candidato capaz de unificar a oposição e um programa mínimo de governo, construído coletivamente. Não necessariamente teremos uma chapa única, mas precisamos reduzir ao máximo a dispersão eleitoral.

Já tivemos experiências importantes, como a vitória da oposição em Assunção. Também temos a liderança de Miguel Prieto, prefeito de Ciudad del Este, que conta com grande aceitação popular. Ainda vamos encontrar o mecanismo para construir essa unidade nacional.

Vocês tiveram o azar de atrair muitos bolsonaristas para o Paraguai. O que a senhora diz a eles?

Muitos vieram seduzidos pela propaganda de Peña: “não vou aumentar impostos”, “as leis trabalhistas são bem flexíveis, você cumpre se quiser”, “este é um país em crescimento”. Acredito, inclusive, que muitos bolsonaristas deixaram seu dinheiro neste banco. Todo esse mito que foi construído vai causar um dano tremendo ao Paraguai. E espero que muitos tenham seu dinheiro lá… [risos] Isso é uma vingança.

Qual o principal ensinamento dessa crise?

A principal lição é que não podemos permitir que o poder econômico, o controle do Estado e as articulações políticas sejam utilizados para garantir a impunidade. O que aconteceu demonstra a importância da mobilização popular e da unidade daqueles que querem mudanças.

O Paraguai precisa romper com essa estrutura de poder que parece invencível, mas que hoje está profundamente desgastada. A juventude que foi às ruas mostrou que existe esperança e que outra história é possível.

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