A abstenção eleitoral e o enigma da classe C

O presidente Lula faz um balanço do primeiro turno das eleições (foto: Ricardo Stuckert/PR)


DAVI MOLINARI

Em 4 de outubro de 2026, 21,08% do eleitorado brasileiro abstiveram-se de votar. São 33,4 milhões de pessoas. O Tribunal Superior Eleitoral ainda não informou a renda, a idade nem a escolaridade desses ausentes. O último perfil medido é o de 2022: quem faltou era sobretudo homem, com menos estudo, de 21 a 29 anos ou com mais de 70, idade em que o voto deixa de ser obrigatório.

Às vésperas deste pleito, entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula tinha de 46% a 50%, contra 27% a 32% de Flávio. O eleitor que costuma faltar é o mesmo que, quando vota, vota em Lula. A abstenção de 2026 pesa na base do governo, não na Classe C que foi à urna e escolheu Flávio.

No Nordeste, onde Lula teve 63,8%, a abstenção foi de 18,36%, cerca de 8 milhões, abaixo da média nacional. Quem faltou no primeiro turno pode votar em 25 de outubro sem justificar antes. Cada turno é uma eleição. Trazer o faltoso de volta rende mais do que tentar converter o meio da Classe C.

AS QUATRO ONDAS DA CLASSE C

A trajetória se desdobrou em quatro ciclos.

No Plano Real, entre 1994 e 1995, a classe passou de 32% para 37,5% da população e estacionou nesse patamar por uma década. Em 2003 eram 37%, 65,9 milhões de pessoas. Em 2004, 70,8 milhões.

De 2004 a 2014 vem a expansão. Carteira assinada, crédito, ganho real do salário mínimo e Bolsa Família levam o grupo a 50,5% em 2009, no segundo governo Lula. Em 2011 são 105,5 milhões, 55,5%. O teto é 2014, no primeiro governo Dilma: 56,8%, 113,5 milhões. A projeção da época era 60%. Não se cumpriu.

A recessão, datada pela FGV a partir do segundo trimestre de 2014, reduz a classe a 53,9% em 2018.

De 2022 a 2024 há recomposição: de 55,23% para 60,97%, cerca de 14 milhões de pessoas, uma em cada dez da classe de hoje. A entrada foi pela base, com a renda do trabalho e, no limite da faixa, com Bolsa Família e BPC. O Nordeste liderou o ganho de renda do trabalho em 2024, 13% contra 7,1% no país, e votou em Lula. Em Alagoas, as classes A, B e C somadas passaram de 48,2% para 60,1%, e Lula teve 54,73%.

O VOTO DE FRUSTRAÇÃO E A GEOGRAFIA

Quem votou em Flávio foi a Classe C do ciclo Lula e Dilma, frustrada porque a subida parou. Nove em cada dez pessoas hoje na faixa de R$ 2.525 a R$ 10.885 já estavam nessa faixa em 2022. São os adultos que prosperaram nos anos 2000 e os filhos que já viviam nesse domicílio, não uma classe nova. Na faixa de 2 a 5 salários, Flávio tinha 48% a 36% na Real Time, 42% a 31% no Datafolha e um empate na Quaest.

Esse grupo é maioria onde Flávio venceu. No Sul, a Classe C é 63,5% da população e ele teve 60,1%. No Centro-Oeste, 62,7% e 56,5%. No Sudeste, 62,4% e 51,4%. Fora do Nordeste, a vantagem dele soma 13,3 milhões de votos. A abstenção também foi mais alta nesses estados: São Paulo, 22,54%, 7,6 milhões; Minas Gerais, 22,81%, 3,7 milhões; Rio de Janeiro, 23,32%. São ausentes em estados que Flávio venceu. Sem o perfil de renda de 2026, não dá para tratá-los como reserva de Lula.

O DILEMA FINANCEIRO E A RETA FINAL

O filho da recessão entrou no mercado depois de 2014 e encontrou a prestação da casa e do carro dos pais. Ganha demais para o Bolsa Família e de menos para ter reserva. As classes A e B são 17% do país. O aluguel come de 30% a 50% da renda, e uma em cada cinco famílias chega a 60%. O economista José Paulo Kupfer, na noite da apuração, apontou a dívida e o calote recordes como centro da rejeição: a prestação comeu o consumo que antes elegia Lula.

O segundo desejo, depois da casa própria, é quitar o que deve. Quase metade quer o próprio negócio e encontrou MEI, bico e aposta. Marilena Chauí descreveu o medo em 2013 e repetiu em 2025: a classe média “sonha em se tornar burguesa, mas tem como pesadelo cair na classe trabalhadora”. O voto em Flávio é esse medo, engrossado por escândalo e por uma campanha que mente sobre a conta do mês.

Em três semanas não cabe programa novo. Cabe desmentir o que a oposição inventa sobre essa conta. A escala 6×1 entrou no Senado em 6 de outubro: 40 horas semanais, sem corte de salário, contra a jornada em que quem trabalha menos ganha menos. A isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil já está no contracheque. O que ainda fala com essa classe é a prestação. Sem folga no mês, nem renegociação encerra o impasse. A outra via, impulsionar o negócio próprio sem transformá-lo em trabalho sem direito, é a única promessa que essa faixa ainda não ouviu como conta, e não como conselho. Daria tempo?

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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