A maior ‘pauta-bomba’ do país são os mais de R$ 1 trilhão gastos por ano com os juros do BC

Protesto contra os juros altos em frente à sede do Banco Central. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Arquivo Agência Brasi

É preciso separar o joio do trigo. Defender perdão da dívida de grandes fazendeiros realmente é um absurdo. Agora, chamar piso de enfermagem de pauta-bomba é no mínimo desrespeitoso

Os porta-vozes dos banqueiros e agiotas da dívida pública estão repetindo freneticamente o termo pauta-bomba, referindo-se aos gastos com reivindicações de diversos segmentos da sociedade brasileira. Segundo eles, essas despesas poderiam causar um descontrole dos gastos públicos.

O objetivo principal, é claro, é garantir que os recursos arrecadados em impostos no país sejam destinados majoritariamente para encher seus bolsos com a gorda remuneração dos papéis que pululam na ciranda financeira. O outro objetivo é também chantagear o governo para que ele se oponha a todas essas pautas – umas justas e outras não – e se desgaste com os vários segmentos sociais. Eles querem que parte da população veja as suas reivindicações sendo combatidas pelo governo Lula.

E se, por outro lado, o governo resolve atendê-las, acusam-no histericamente de desrespeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou seja, uma verdadeira armadilha de ano eleitoral. E o inusitado em tudo isso é que a grande e verdadeira pauta-bomba, aquela que sufoca o país inteiro, não aparece nessa gritaria toda. Os juros que o Tesouro tem que pagar todos os anos está fora de toda essa discussão.

O governo é obrigado a pagar anualmente para os ricaços do país, e de fora, possuidores de títulos públicos, mais de R$ 1 trilhão. E esse valor gigantesco não é citado no alarido das tais pautas-bombas. Por que será, se o local de onde sai o dinheiro para as despesas com a sociedade é o mesmo de onde sai esse R$ 1 trilhão para os bancos?

O cinismo é tamanho que criou-se o fantasma de supostos gastos de R$ 1 trilhão por ano com as tais pautas bombas. Depois tiveram que corrigir o exagero para evitar o ridículo do cálculo apresentado. Agora, já fala-se que os gastos de R$ 1 trilhão seriam em dez anos. Ou seja, cerca de R$ 100 bilhões por ano. Vejam que esse valor é menos de um décimo do que se gasta todos os anos com juros.

É claro que, em relação ao que o Senado andou aprovando, temos que separar o joio do trigo. Perdão de dívidas de grandes fazendeiros não tem o menor cabimento. Renúncias fiscais descabidas também não devem ser levadas a sério. Mas, certamente, o piso nacional da enfermagem, a vinculação dos recursos ao Sistema Único de Assistência Social, a aposentadoria diferenciada para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias e outras demandas justas não podem ser tratadas como se fosse tudo bombas.

O governo deve se empenhar em separar bem esse joio do trigo. Tem muito picareta bolsonarista, que só defende arrocho sobre o povo e os trabalhadores, tentando fazer demagogia barata em véspera de eleição. O governo deve seguir se empenhando na redução dos juros do Banco Central. Esse juro é a verdadeira pauta-bomba a ser enfrentada. Quanto menor o gasto financeiro, maiores serão os investimentos no crescimento econômico e nos programas de distribuição de renda no país.

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