DAVI MOLINARI
Nunca a indefinição esteve tão bem servida no Fale Mais Sobre Isso.
Não era claro ou escuro. Frita ou assada.
Era o futuro.
A uma semana da eleição, o país traçava o destino com a segurança de um bêbado atrás do banheiro.
Maria, a cozinheira, não entendia a dúvida.
– Complicam demais.
Juvenal me viu entrar e gritou do meio de uma roda de estudantes com bandeiras vermelhas:
– Bora, Analisado!
– Não me provoca, que fujo da sessão e vou.
Sentei diante do Doutor.
Minha pálpebra esquerda tremia.
Ele olhou.
A direita começou.
Ele anotou.
– Doutor, isso é ansiedade?
Silêncio.
Juvenal pousou dois chopes e as manjubinhas e disse:
– Isso é eleição.
– Passa?
– A eleição, sim.
Apontei para a mesa de Laranjão.
Laranjão, Laranjinha, advogados, empresários e homens que usavam sapatênis com a solenidade de um cargo público.
– Eu não tenho dúvida sobre mim, Juvenal. A escolha é fácil. Tenho dúvida sobre eles.
Joel, o apontador do bicho, ouviu.
– Não dá zebra.
– O problema, Joel, é que essa zebra vota e compra voto.
Na televisão, imagens de atos políticos pelo país.
Laranjão torceu a boca, resmungando.
– Tudo manipulação.
Juvenal olhou para a tela.
– Quando a multidão é sua, é povo. Quando é dos outros, é edição.
Laranjão voltou ao celular.
– E os norte-americanos? – perguntei.
Juvenal deu de ombros.
– São tão atenciosos que estão querendo ajudar a gente a escolher o presidente do Brasil.
– Que gentileza.
– Imperialismo agora vem com atendimento personalizado.
O Doutor quase sorriu.
Quase.
– Doutor, é isso que me incomoda. Gente querendo melhorar de vida escolhendo o castigo.
Juvenal levantou um dedo.
– Ressentimento.
– Só?
– Ressentimento economiza emoção. Você não precisa construir nada. Basta desejar que alguém se ferre.
O Doutor anotou.
Na televisão apareceu uma pesquisa.
Empate técnico.
Rejeição.
Margem de erro.
Um país inteiro dentro de um gráfico.
– Impressionante – eu disse. – O sujeito passa quatro anos sem fazer política, pregando que nenhum presta e, na eleição, acredita que um mentiroso salvará a pátria.
– Terceirização emocional – disse Juvenal.
Olhei para ele.
– Você anda lendo Freud?
– Não. Bula de remédio.
Minha pálpebra continuava tremendo.
– Doutor, o que me angustia é isso. A pessoa sabe o que já aconteceu, conhece o risco, experimentou o negacionismo e, mesmo assim, pensa: “vai que, se eu trocar, desta vez melhora”.
Juvenal empurrou a cachaça na minha direção.
O Doutor levantou os olhos.
Finalmente.
– Você está tentando dominar o desejo do outro – disse Juvenal, fazendo as vezes de psicanalista.
O bar pareceu baixar o volume.
– E isso dá esse tique?
O Doutor escreveu um L gigante na caderneta, bateu a mão na mesa e disse em alto e bom som:
– A angústia aumenta quando você tenta garantir aquilo que não depende de você. Precisa sustentar e irradiar a sua escolha sem transformar a incerteza deles numa catástrofe sua.
Minha pálpebra parou.
Juvenal conferiu.
– Funcionou.
Peguei o chope.
– A psicanálise?
– A cachaça mineira.
Lá fora alguém gritava:
– Faltam sete dias!
Olhei para as mesas.
Juvenal apareceu com dois pratos de manjubinha.
– Frita ou assada?
Olhei para ele.
– Finalmente uma escolha difícil.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CXI. Enviado pelo autor.










