“Acordo” petrolífero com EUA fará Venezuela recuar por migalhas, por Andrés Guissepe

Professor Andrés Giussepe, pesquisador, economista e dirigente venezuelano (YVKE)

“Voltamos à época dos nossos avós, quando as petroleiras estrangeiras levavam tudo em troca de espelhinhos”, denunciou o venezuelano Andrés Giussepe, ex-deputado do Parlamento Latino-Americano e do Parlamento Andino

Neste artigo, o professor venezuelano Andrés Giussepe, ex-deputado do Parlamento Latino-Americano (Parlatino) e do Parlamento Andino, traduz de forma simples e objetiva o significado do recente “acordo” petrolífero firmado com Donald Trump pela presidente interina, Delcy Rodríguez, à revelia da soberania nacional. “Voltamos à época dos nossos avós, em 1940! Quando as petroleiras estrangeiras levavam todo o petróleo em troca de espelhinhos e migalhas”, protestou Giussepe. Conforme o economista e especialista explicitou no Aporrea, “nenhum governo pode nos entregar por 25 ou 100 anos à revelia da Constituição”. “A lei é clara em nosso artigo 74: acordos que cedam nossa riqueza podem ser anulados pelo voto do povo. Referendo Revogatório Já! Nosso petróleo não se entrega de graça!”, enfatizou.

Boa leitura!

Estão roubando nosso petróleo de novo? Vou explicar como se você fosse a uma criança

Andrés Giussepe

Imagine que você e seus irmãos herdaram um bolo de chocolate gigante. O maior bolo do bairro. Mas o vizinho rico da frente aparece e diz a vocês: “Olhem, vocês não têm pratos nem talheres para comer esse bolo. Eu vou fornecer os guardanapos, mas, em troca, fico com o controle de três quartos do bolo por 100 anos. Vou dar um pedacinho a vocês, mas não vou entregá-lo em mãos: vou guardá-lo em um cofre que eu mesmo controlo, e eu decido quando dou uma migalha a vocês”.

Você aceitaria esse acordo? Ninguém em sã consciência faria isso! Pois bem, é exatamente isso que acabaram de fazer com todos nós, venezuelanos, com o famoso “acordo petrolífero” de agosto de 2026 entre o governo e os Estados Unidos.

Hoje vou explicar, da maneira mais simples do mundo, o que está por trás daqueles números estranhos que você lê nas notícias.

O PRIMEIRO TRUQUE: “VOU TE DAR UMA CASA QUE JÁ É SUA”

Anunciaram com grande alarde que viriam 100 bilhões de dólares em investimentos. Parece muito dinheiro, não é? Mas atenção! Há três armadilhas que não te contaram:

Primeira armadilha: Esse dinheiro não virá do governo dos Estados Unidos, nem será um presente para nós. Ele virá de empresas privadas que buscam lucros para seus próprios bolsos.

Segunda armadilha: Essas empresas não vão consertar o país da noite para o dia. Recuperar as tubulações, os poços e a infraestrutura elétrica destruída para extrair mais petróleo levará, no mínimo, de 3 a 5 anos. Ou seja, não existem soluções mágicas para o seu bolso hoje.

E a terceira armadilha: Em troca dessa promessa de investimento, entregamos a elas o controle de 65 bilhões de barris do nosso petróleo. Para você entender: demos de bandeja o controle de um quinto de todas as reservas da Venezuela. Elas registraram isso em seus livros contábeis como se fosse propriedade delas, para ficarem ainda mais ricas na bolsa de valores.

O SEGUNDO TRUQUE: O COFRINHO COM CADEADO

Aqui está a parte mais grave e a que mais revolta. Imagine que você trabalha o mês todo, ganha seu dinheiro, mas seu patrão não paga você; em vez disso, deposita seu salário para um senhor em Washington. E, quando você vai pedir seu salário para comprar comida, o senhor de Washington diz: “Vou liberar só um pouquinho se você se comportar bem”.

Isso se chama tutela fiscal. Os impostos e o dinheiro do petróleo não chegarão livremente ao Banco Central da Venezuela nem aos salários dos venezuelanos. Eles irão para contas mantidas no Departamento do Tesouro dos EUA.

Dos primeiros dois bilhões de dólares gerados, sabe quanto devolveram à Venezuela? Apenas 500 milhões. Um quarto! Deixaram-nos bloqueados, sancionados e, além disso, colocaram um cadeado externo no nosso próprio dinheiro.

A MENTIRA DOS 50%

Disseram na televisão que a Venezuela ganharia “50% dos lucros”. Soava bem, mas é uma mentira matemática.

No negócio do petróleo, uma coisa é o valor do barril (quanto custa no mercado) e outra, bem diferente, é o “lucro líquido” após deduzir todas as despesas. As empresas estrangeiras vão incluir aí todos os custos que bem entenderem: transporte, tubulações, viagens, salários de seus executivos… e, no final, o “lucro” sobre o qual pagarão impostos será ínfimo.

– Ano de 2001 (Lei de Hidrocarbonetos): O Estado ficava com uma parcela entre 65% e 85%.

– Países normais hoje (Noruega ou a OPEP): Ficam com mais de 60% a 80%.

– O acordo atual: A Venezuela ficará com apenas 15% a 35%.

Voltamos à época dos nossos avós, em 1940! Quando as petroleiras estrangeiras levavam todo o petróleo em troca de espelhinhos e migalhas.

E QUANTO AOS TRABALHADORES E APOSENTADOS?

Enquanto concedem todas as facilidades às empresas norte-americanas – contratos de 25 anos e flexibilidade fiscal… – o que sobra para você? O que há para os professores, médicos, operários e aposentados que ganham salários de miséria?

Desde 2015, devem mais de 34 mil dólares por trabalhador em salários não pagos. Para pagar os venezuelanos, alegaram que “não havia dinheiro”. Recusaram-se a usar 3% do petróleo para emitir títulos de dívida trabalhista para a população. Ah, mas para entregar 21,5% do nosso petróleo a corporações privadas… para isso, assinaram rápido e em segredo.

O CHAMADO PARA DESPERTAR

O petróleo da Venezuela não pertence a Donald Trump, nem à burocracia de plantão em Miraflores, nem a qualquer multimilionário. O petróleo é seu, dos seus filhos e dos seus netos!

Nenhum governo pode nos entregar por 25 ou 100 anos à revelia da Constituição. A lei é clara em nosso artigo 74: acordos que cedam nossa riqueza podem ser anulados pelo voto do povo.

– Referendo Revogatório Já!

– Nosso petróleo não se entrega de graça!

Não nos deixemos enganar por termos técnicos. Compartilhe para que todos entendam como estão nos passando a perna na divisão do bolo! Nos vemos na próxima.

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