Anúncios pagos nos EUA são utilizados pelo bolsonarismo para promover Flávio de forma ilegal na eleição

Anúncios pagos por contas dos EUA usam a plataforma de "apostas eleitorais" Polymarket para promover uma falsa "liderança" de Flávio nas eleições - Foto: Reprodução

Contas estrangeiras patrocinam posts a favor de Flávio Bolsonaro no X, rede ligada a Elon Musk, contrariando a legsilação eleitoral brasileira

Contas registradas fora do Brasil estão usando publicações patrocinadas no X, antigo Twitter, para promover a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e divulgar como se fossem um indicador eleitoral as oscilações da plataforma de apostas Polymarket. As publicações foram identificadas pelo próprio X com o selo “Paid Partnership” (“Parceria paga”), indicando que houve pagamento ou incentivo para ampliar a circulação do conteúdo.

As postagens apresentam Flávio como favorito na disputa presidencial e reproduzem a narrativa de que o senador teria ultrapassado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas previsões da Polymarket. Em algumas delas, o conteúdo afirma que Flávio vai “salvar o Brasil” e derrotar o “esquerdismo” na América Latina.

A operação chama atenção porque a legislação eleitoral brasileira restringe o impulsionamento de propaganda na internet a partidos, federações, coligações, candidatos e seus representantes. O artigo 57-C da Lei nº 9.504/1997 determina que o impulsionamento deve ser contratado exclusivamente por esses agentes e exige identificação inequívoca do responsável pela propaganda.

Especialista em direito eleitoral, Jorge Washington Cançado explicou ao Metrópoles que a regra alcança também conteúdo impulsionado por terceiros no exterior. Segundo ele, a legislação exige que o contratante esteja entre os agentes autorizados e que seja possível identificar de forma inequívoca quem pagou pela publicidade.

“Sobre as doações estrangeiras, o TSE já assentou, em precedente sobre doação de estrangeiro, que a vedação recai sobre a origem dos recursos, não sobre a nacionalidade do doador em si, e que a comprovação da origem estrangeira normalmente depende de prova concreta, inclusive cruzamento de dados pela Receita Federal (art. 24-C da Lei nº 9.504/1997), não de presunção. Provadas as possíveis ilicitudes, teremos sanções que vão de multa a cassação de diploma, a depender da situação fática”, afirmou Cançado ao Metrópoles.

A legislação também proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro, inclusive por meio de publicidade, provenientes de entidade ou governo estrangeiro.

Publicações a partir dos EUA são utilizadas promover Flávio Bolsonaro

QUEM ESTÁ PAGANDO?

O próprio X identifica as publicações como “Paid Partnership”, mas o selo não permite saber quem colocou o dinheiro para que os posts fossem distribuídos. A identidade do responsável pelo aporte, portanto, não aparece nas próprias publicações.

A maioria dos perfis identificados na ação é registrada nos Estados Unidos. Alguns têm centenas de milhares de seguidores e incluem contas de figuras de enorme alcance na plataforma, entre elas a de Elon Musk, proprietário do X, e a do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio.

Eduardo, que vive nos Estados Unidos há quase dois anos, chegou a republicar algumas das publicações patrocinadas que promoviam a candidatura do irmão e apresentavam os dados da Polymarket como evidência de que Flávio estaria ganhando força na disputa.

O padrão também foi identificado em outras eleições latino-americanas.

APOSTAS EM “TERMÔMETRO” ELEITORAL

Um levantamento do site norte-americano Factchequeado identificou 13 publicações patrocinadas pela Polymarket no X entre março e maio de 2026. Em 11 delas, o conteúdo apresentava narrativas favoráveis a políticos de direita ou atacava nomes da esquerda. Entre os países citados estavam Brasil, Colômbia e Peru.

No caso brasileiro, uma das publicações afirmou que Flávio Bolsonaro havia ultrapassado Lula na Polymarket e apresentou a oscilação do mercado de apostas como um sinal de que o senador havia se tornado favorito na corrida presidencial.

A mesma fórmula apareceu em publicações relacionadas a candidatos da Colômbia e do Peru: o desempenho dos políticos no mercado de apostas era apresentado como indicador de força eleitoral.

O levantamento do Factchequeado aponta que a maioria das contas usadas nas publicações patrocinadas está baseada nos Estados Unidos. O site identificou a utilização de posts pagos para difundir narrativas favoráveis a políticos de direita na América Latina.

Desde junho de 2025, a Polymarket é parceira oficial de “Previsões de Mercado” do X, segundo o material reunido pelo levantamento.

A legislação brasileira, porém, não trata o impulsionamento eleitoral como uma ferramenta aberta a qualquer usuário. O Tribunal Superior Eleitoral estabelece que o recurso só pode ser utilizado para promover ou beneficiar a candidatura, partido ou federação que tenha contratado o serviço. A regulamentação também proíbe que pessoas naturais contratem impulsionamento.

CONTEÚDO REPLICADO POR ALIADOS DE FLÁVIO

A circulação dos posts não ficou restrita às contas estrangeiras.

Eduardo Bolsonaro compartilhou algumas das publicações feitas por contas estrangeiras de grande alcance. Algumas dessas contas são seguidas por Flávio e Eduardo na própria plataforma.

O mesmo padrão apareceu em perfis bolsonaristas como os de Mário Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Allan dos Santos, que compartilharam o material acompanhado da frase “vai ser no primeiro turno”.

A expressão também foi repetida por outras contas brasileiras que replicaram os mesmos conteúdos, reforçando a narrativa de que Flávio lideraria a disputa e poderia vencer já no primeiro turno.

A repetição da frase, por si só, não permite concluir que exista uma ação coordenada entre os perfis. O que está documentado é a circulação de uma mesma narrativa: posts estrangeiros patrocinados apresentam as oscilações da Polymarket como evidência de favoritismo de Flávio, enquanto figuras ligadas ao bolsonarismo reproduzem esse enquadramento para suas próprias audiências.

TRUMP JR.

A estratégia envolvendo a Polymarket também tem uma conexão política nos Estados Unidos.

Donald Trump Jr., filho do presidente Donald Trump, é investidor da Polymarket por meio da empresa 1789 Capital e integra o conselho consultivo da plataforma desde 2025. A entrada dele no conselho foi anunciada pela própria empresa depois do aporte do fundo.

O vínculo ganha relevância diante do conteúdo político das publicações patrocinadas identificadas pelo Factchequeado. O levantamento encontrou, além das mensagens sobre Flávio, publicações favoráveis a políticos de direita em outros países latino-americanos.

Isso não permite atribuir a Trump Jr. participação nos posts sobre Flávio ou afirmar que ele tenha financiado qualquer publicação específica. A conexão documentada é entre o investidor e a plataforma responsável pelo mercado de previsões.

POLYMARKET BLOQUEADA NO BRASIL

Em abril de 2026, o governo brasileiro determinou o bloqueio de plataformas de apostas preditivas que ofereciam contratos relacionados a eleições, política e outros eventos.

A Agência Nacional de Telecomunicações informou em 24 de abril que iniciou o bloqueio de domínios após determinação do Ministério da Fazenda. Segundo a Anatel, a medida atingiu plataformas que ofereciam apostas em eleições e reality shows, modalidades que não são permitidas pela legislação brasileira.

A determinação alcançou a Polymarket. O governo afirmou que a plataforma não possuía autorização dos órgãos competentes para oferecer no país contratos envolvendo temas como política e eleições.

Na terça-feira, o perfil brasileiro da Polymarket no Instagram foi bloqueado para usuários no Brasil, após uma solicitação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda à Meta, controladora da rede social.

A Advocacia-Geral da União (AGU) também confirmou a atuação da Fazenda, mas não detalhou o alcance do pedido feito pelo órgão. “Informamos que a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda atuou para retirar as referidas postagens do ar”, afirmou a AGU.

Segundo o site Jota, que revelou o caso, a AGU acionou a Fazenda após receber informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento enviado citava reportagem segundo a qual a Polymarket continuava oferecendo apostas sobre a eleição presidencial e divulgando esses mercados nas redes sociais, apesar de já ter sido alvo de pedidos de bloqueio no Brasil.

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