“Apenas um acordo justo e abrangente será aceito”, afirma chanceler iraniano Araghchi

Chanceleres do Irã, Araghchi, e da China, Wang Yi, em encontro em Pequim (Min. Rel. Exteriores da China)

Trump recua, em 48 horas, de provocação com a ‘escolta da Marinha dos EUA em Ormuz’ e agora diz que sua meta é “memorando de uma página”

O porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, Ebrahim Rezaei, chamou de “lista de desejos dos americanos” o que a Reuters e a Axios descreveram ser um “memorando de uma página” do governo Trump e estaria, supostamente, “perto de um acordo”.

“Os americanos não conseguirão algo que não obtiveram em negociações frente a frente em uma guerra fracassada. O Irã tem o dedo no gatilho e está pronto; se não se renderem e não concederem as concessões necessárias, ou se tentarem fazer travessuras por conta própria ou por seus cães de guarda, daremos uma resposta dura e eles irão se arrepender”, postou Rezaei nesta quarta-feira (6).

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, disse que Teerã “aceitaria apenas um acordo justo e abrangente” nas negociações com os EUA. Ele chegou a Pequim para negociações com Wang Yi, chefe da diplomacia chinesa. 

Já o The New York Times destacou que “Teerã e EUA transmitem mensagens conflitantes sobre o estado das negociações”. A Reuters insistiu em reproduzir afirmação de uma “fonte paquistanesa” não identificada, segundo a qual “vamos fechar isso muito em breve. Estamos chegando perto”.

Na véspera, o presidente Trump havia recuado de seu “Projeto Liberdade” de escolta armada no Estreito de Ormuz que mal durou 48 horas, diante da dura resposta iraniana à violação do cessar-fogo.

Com uso de mísseis, drones e barcos “mosquito”, os iranianos forçaram os americanos a retroceder e, finalmente, admitirem o colapso da sua provocação.

No domingo, quando Trump anunciara seu “Projeto Liberdade”, Araghchi publicou no X que “não há solução militar para uma crise política”, chamando-o de “Projeto Impasse”.

Na terça-feira, o secretário de Estado Marco Rubio declarou “concluída” a operação “Fúria Épica” – a traiçoeira agressão contra o Irã não provocada, desde 28 de fevereiro -, e se dedicou a falar sobre a tardia preferência por um acordo com o Irã.

Isso um mês depois de Trump ter anunciado que “esta noite uma civilização será destruída, que não ressuscitará”.

O que Washington agora busca, disse Rubio, é um “memorando de entendimento para futuras negociações”. Uma estrutura que defina “os temas sobre os quais concordaram em negociar” e “as concessões que estão dispostos a fazer no início”.

“O plano e a proposta dos Estados Unidos seguem em estudo”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, à agência de notícias Isna. Ele acrescentou que Teerã transmitirá seus pontos de vista ao Paquistão, mediador da crise, assim que definir “sua posição”.

Para analistas, o vazamento das supostas informações sobre o memorando é uma tática de Washington para culpar Teerã pelo impasse nas negociações, por se recusar à capitulação.

TEERÃ-RIAD, VIA PEQUIM.

Da capital chinesa, o chanceler Araghchi conversou pelo telefone com o seu homólogo saudita, príncipe Faisan bin Farhan al Saud, reiterando o compromisso do Irã com a estabilidade na região do Golfo Pérsico e com a reabertura do Estreito.

Segundo o comunicado iraniano, as partes enfatizaram o caminho da diplomacia e cooperação dos países da região para evitar a ocorrência e escalada de tensões.

Na tarde de quarta-feira, em Islamabad, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif respondeu ao anúncio de Trump sobre a pausa na operação para abrir o Estreito de Ormuz, nomeando o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, como parceiro que pressionou o presidente dos EUA a suspender a missão militar na via navegável.

O Paquistão, escreveu Sharif nas redes sociais, estava “muito esperançoso de que o atual impulso levará a um acordo duradouro que garanta paz e estabilidade duradouras para a região e além”.

Durante a tentativa de Trump de forçar a passagem pelo Estreito de Ormuz, o Irã divulgou mensagem aos Emirados Árabes Unidos advertindo que se insistir nos erros dos 40 dias de guerra e atuar como um “ninho sionista”, será tratado exatamente como o regime sionista. Teerã também negou ter disparado mísseis contra a refinaria de Fujairah, o que atribuiu ao “aventureirismo americano” em Ormuz.

O Irã anunciou um novo mecanismo para supervisionar o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz na terça-feira. Navios que buscarem atravessar o estreito receberão um e-mail detalhando as regras de trânsito da “Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico.” Os navios devem cumprir as regulamentações e obter uma permissão de trânsito antes de atravessar, segundo um relatório da Press TV, a emissora estatal do Irã em inglês.

Em paralelo, Washington articula no Conselho de Segurança da ONU a votação de uma resolução condenando o Irã pelo fechamento do Estreito de Ormuz, e pressiona Rússia e China contra o veto.

Ao mesmo tempo que recua da “escolta armada” em Ormuz e diz que a Operação Fúria Épica está terminada, Trump voltou a ameaçar o Irã de que, se não assinar, sofrerá bombardeio ainda pior.

Quanto às ameaças – e traições à diplomacia – de Trump, o Irã não baixa a guarda. O presidente do parlamento iraniano e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Bagher Ghalibaf, em mensagem de áudio ao povo iraniano disse que não deveriam descartar a possibilidade de novos ataques militares contra o país, nem mais pressão no terreno econômico. Os iranianos “podem dar suas vidas, mas não vão se render”, sublinhou.

A PROPOSTA IRANIANA

Segundo a agência de notícias Al Jazeera, a proposta iraniana prevê três fases. Primeiro a resolução da questão da abertura do Estreito de Ormuz e do fim da guerra – que deve abranger todas as áreas, inclusive o Líbano -, bem como suspensão das sanções e devolução dos ativos congelados.

Posteriormente, seria tratada a questão do programa nuclear pacífico sob fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (nos moldes do acordo, respaldado pela ONU, de 2015, aliás, rasgado por Trump em seu primeiro mandato).

A terceira fase seria uma conferência entre os países da região, sem interferência norte-americana, para estabelecer as bases comuns da segurança e convivência.

Nas discussões da recém realizada conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação, a Rússia enfatizou que mantém sobre a mesa a proposta de que o Oriente Médio se torne uma região livre de armas nucleares.

Em Pequim, o chanceler Araghchi saudou uma “nova era de cooperação com a China” e declarou que também os amigos chineses acreditam que o Irã de depois da guerra é diferente do Irã de antes da guerra: “seu status foi elevado e provou sua capacidade e autoridade.” Antes da China, ele esteve em Moscou, onde se reuniu com o presidente Putin, que homenageou o povo iraniano por lutar “brava e heroicamente por sua soberania”.

TRUMP ACUADO

Para analistas, apesar da empáfia, é difícil disfarçar o revés de Trump. Ele, que comemorou a decapitação do regime e assassinato de seus líderes, a destruição de sua marinha e força aérea, e que prometeu tomar o petróleo iraniano. Que ameaçou devolver o Irã à “idade da pedra”, e que exigiu capitulação. O Irã não se dobrou.

Agora, sua guerra contra o Irã já tem, segundo o Washington Post, reprovação equivalente à da Guerra do Vietnã. Segundo o Washington Post, a destruição das bases americanas no Golfo foi muito, muito maior do que o que havia sido admitido.

A seis meses das eleições que vão decidir o controle do Congresso nos EUA, o preço da gasolina aumentou 40% em dois meses nas bombas de combustível e a rejeição a seu governo ultrapassa a marca dos 60% e segue piorando.

O escândalo do pedófilo Epstein – antes conhecido como “best friend” de Trump nas noitadas de Palm Beach e Manhattan – não dá sinais de arrefecer. O tarifaço foi abalroado pela Suprema Corte e os empregos industriais seguem minguando.

Também a economia global está encurralada pelo maior choque de escassez de petróleo em mais de quarenta anos, efeito colateral de sua guerra de escolha, enquanto o barril foi, com sua “escolta” em Ormuz, a 126 dólares o barril, e a falta de fertilizantes já ameaça cultivos no mundo inteiro.

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