Irã compartilha com mediadores paquistaneses ‘marco viável do Irã para fim duradouro da guerra’

Araghchi, ministro do Exterior do Irã, se encontra com autoridades paquistanesas (ANSA-AFP)

“Ainda a ver se os EUA estão realmente levando a sério a diplomacia”, disse o ministro das Relações Exteriores iraniano

O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e sua delegação se reuniram neste sábado (25), em Islamabad, com o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif e com o chefe do exército Asim Munir, na primeira etapa de um giro pelos vizinhos Paquistão, Omã e Rússia.

Viagem voltada a ampliar as relações bilaterais e apresentar as condições de princípio do Irã para encerramento definitivo da guerra desencadeada pela aliança EUA-Israel. Araghchi já deixou Islamabad e se encontra em Muscat, capital de Omã.

O ministro iraniano revelou, em mensagem pela plataforma X, que apresentou “um marco viável” aos mediadores paquistaneses com o objetivo de pôr fim de forma duradoura à guerra de agressão EUA-Israel contra a República Islâmica durante sua “visita muito frutífera” a Islamabad.

Araghchi afirmou que o Irã atribui “muito” valor aos bons ofícios e esforços fraternos do Paquistão para restabelecer a paz na região.

“Compartilhamos a posição do Irã sobre um marco viável para encerrar permanentemente a guerra contra o Irã. Ainda não vimos se os EUA estão realmente levando a sério a diplomacia”, escreveu o principal diplomata iraniano.

Araghchi agradeceu ao Paquistão por seus esforços em mediar o cessar-fogo de 8 de abril entre Teerã e Washington e as negociações subsequentes, e expôs as “posições de princípio” do Irã sobre o estado da trégua e o fim completo da guerra imposta contra o Irã.

O primeiro-ministro Sharif saudou a reunião com Araghchi como uma “calorosa e cordial troca de opiniões sobre a situação regional atual.”

“Também discutimos questões de interesse mútuo, incluindo o fortalecimento adicional das relações bilaterais Paquistão-Irã”, postou ele no X.

A Rússia, outro destino de Araghchi, desde o primeiro momento considerou a guerra dos EUA-Israel contra o Irã uma “guerra de agressão”. Também reiterou que o direito de enriquecimento de urânio para fins pacíficos é um direito “inalienável” do Irã, sob o Tratado de Não-Proliferação. E se dispôs, como fez no acordo JCPOA de 2015, a ajudar na solução, bem como vem discutindo com os países do Golfo uma saída para a crise atual.  

Anteriormente, Teerã já havia comunicado que não havia qualquer plano para a delegação iraniana se reunir com os representantes de Trump em Islamabad.

BARRADOS NO BAILE

Após a partida de Araghchi para Omã, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o cancelamento da viagem dos enviados americanos à capital paquistanesa para se reunir com mediadores.

Diante da recusa do Irã de se reunir com seus assessores pessoais, Steve Witkoff e Jared Kushner (seu genro), aliás, sionistas de carteirinha, Trump correu à sua rede Truth Social para postar que acabara de “cancelar a viagem de meus representantes a Islamabad para se encontrar com os iranianos”.

“Muito tempo perdido em viagem, e (temos) muito trabalho!”, acrescentou, voltando a asseverar que “nós temos todas as cartas na mesa, eles não têm nenhuma!”.

Como registraram as agências de notícias, na véspera o próprio Trump havia postado que tinha “confiança” de que o Irã atenderia às exigências dos EUA. “Não quero dizer isso, mas estamos lidando com as pessoas que estão no comando agora”, disse ele na sexta. “Avanços” e “progressos”, asseverou então a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt.

GIRO DE ARAGHCHI CONTINUA

Segundo a Al Jazeera, o ministro das Relações Exteriores Araghchi deverá visitar novamente o mediador Paquistão após concluir sua viagem a Omã, antes de viajar para a Rússia, citando a agência de notícias Mehr do Irã.

Parte da delegação iraniana retornou a Teerã, acrescentou a agência árabe, “para consultar e obter as instruções necessárias sobre questões relacionadas ao fim da guerra, e está programada para se reunir novamente com Araghchi em Islamabad na noite de domingo”.

Quanto às ameaças ao Irã, segundo comunicado do quartel-general das Forças Armadas iranianas Khatam al-Anbiya “se o exército agressor dos EUA continuar seu cerco, banditismo e pirataria na região, eles devem ter certeza de que enfrentarão uma reação das poderosas forças armadas do Irã”.

“Estamos prontos e determinados a infligir danos mais severos aos inimigos sionistas e americanos em caso de outra agressão, enquanto monitoramos seu comportamento e movimentos na região e continuamos a gerenciar e controlar o estratégico Estreito de Ormuz”, destacou, conforme a agência estatal Tasnim.

O FRACASSO DA BLITZKRIEG DE TRUMP & NETANYAHU

Os Estados Unidos e Israel lançaram sua guerra de agressão não provocada contra o Irã em 28 de fevereiro. Eles assassinaram o Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Seyyed Ali Khamenei, e atacaram instalações nucleares, escolas, hospitais e infraestrutura civil.

Mas a tentativa de decapitação, instalação de um fantoche e pilhagem da terceira maior reserva de petróleo do planeta fracassou, com a reação iraniana surpreendendo os agressores com centenas de mísseis balísticos e hipersônicos, além de drones, lançados contra as bases militares americanas no Oriente Médio e contra Israel, mais o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás, fertilizantes e gás hélio, imprescindíveis à economia mundial. E com o país unido em torno do novo líder supremo da revolução iraniana, Mojtaba Khamenei.

Em 8 de abril, o Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC) do Irã anunciou que havia um acordo para um cessar-fogo temporário mediado pelo Paquistão após os EUA aceitarem a proposta de 10 pontos do Irã. Antes, Trump ameaçara “destruir uma civilização, que não ressuscitará”.

Em 11 de abril, depois de 21 horas de negociações em Islamabad entre iranianos e americanos, mediadas pelo Paquistão, as “exigências excessivas” dos EUA – e os ziguezagues de Trump – inviabilizaram um acordo. O vice de Trump, JD Vance, foi o primeiro a ir embora.

No dia 21, o Irã não enviou sua delegação à capital do Paquistão e os representantes americanos na última hora tiveram permaneceram em Washington.

Teerã advertiu que não negociará sob ameaças, enquanto Trump se viu forçado a estender unilateralmente a trégua, ao mesmo tempo em que estabelecia um bloqueio naval aos navios e portos iranianos, sob a alegação – mentirosa – de que os líderes iranianos estariam “fragmentados”.

Quanto a isso, a resposta de Araghchi e de Mohammad Bagher Ghalibaf, o presidente do parlamento iraniano, foi direto ao ponto: “não há ‘moderados’ e ‘radicais’, somos todos iranianos e revolucionários”.

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